Quinta-feira, 21 de novembro de 2013 - 17h07
Felipe Azzi
Sempre ouvi dizer que a pessoa alegre revela o que de fato é por dentro. Desde menino eu associava o proceder das pessoas à alegria que demonstravam em suas atitudes. Nas alegres, sempre confiei, a ponto de dar-lhes irrestrito crédito e, às vezes, por isso ter que pagar muito caro. Quanto às carrancudas, opiladas até a medula, sempre me espantaram. Ainda assim, procurava entendê-las e, falando no silêncio de minha mente, conjecturava: “Agamenon é mesmo amargo... Deve comer muito jiló ou, então, dorme de cócoras!”
Ouvia muita filosofia popular sobre o assunto. Comentavam que a alegria do ser interior, quando manifestada, contagia tudo, tornando o ambiente agradável e jovial. A pessoa alegre por dentro é jovem e confiável externamente. Havia afirmativas assim:
“– Veja como Draulas é bonito!... A sua alegria interior irradia beleza em cada riso!”
“– Pelópidas, como o próprio nome, é engraçado demais, e bonito... A bem dizer, é belo!”
Considero-me uma pessoa alegre, de bem com a vida, como se costuma dizer. Creio que caminho rindo cerca de noventa por cento da duração do dia, acordado, é claro. Até já me flagrei rindo às escâncaras em pleno sono. No entanto, não consigo explicar o lobisomen da minha atual aparência.
O certo é que o estado de alegria pode ser congênito e mesmo espontâneo, ou provocado por pessoas ou situações ricas em humorismo. Uma pessoa realmente afortunada na arte da alegria foi, sem dúvida alguma, Francisco Anysio de Paula, o “Chico Anysio” das mil personagens da ficção hilária nacional. Acho que o brasileiro tem poucas de que se orgulhar, mas no campo do humorismo, temos um mestre incomparável. Digo que temos, porque as personalidades históricas não “morrem”; num certo sentido, continuam vivas nos frutos de sua obra.
Da lavra artística de Chico Anysio, CHICO CITY, A ESCOLINHA DO PROFESSOR RAYMUNDO e CHICO TOTAL são reféns da lembrança humorística do povo brasileiro, gente extremamente alegre, apesar da dureza de seu viver.
Lembro-me de um Quadro da ESCOLINHA em que o Professor Raymundo pergunta, em plena aula, a certo aluno chamado “Zé do Bode”, quem foi YURI GAGARIN[1], obtendo como resposta uma charada:
“– Professor, o senhor me desculpe... Eu estava de cabeça baixa e não vi, não, senhor, se alguém pediu pra ir lá fora!”
Em CHICO CITY, a recordação é permanente e atual. O personagem “Vampiro Brasileiro” se vê às voltas com um abraço, inesperado e inexplicável, de seu ajudante de sugação sanguínea, o “Kalunga” e, de olho na porta da rua de seu castelo mal-assombrado, rechaça o amplexo, com inusitada ponderação:
“– Afasta, Kalunga, afasta... É perigoso alguém passar, ver, e pensar que nós liberou geral!”
Chico Anysio se foi recentemente. O seu interior, alegre e de mil faces, certamente agora diverte toda a dimensão eterna de Deus que, sendo Puro Amor, também é só alegria.
Nada sei de sua vida particular, pois as estrelas, mesmo aqui na terra, vivem no seu espaço sideral. Mas, seguramente, em toda a sua trajetória profissional, Chico Anysio deve ter ajudado muita gente, pois a pessoa alegre é solidária e aberta para o mundo.
[1] YURI GAGARIN, astronauta russo, foi o primeiro homem a subir ao espaço, a bordo da nave VOSTOK. Deu uma volta em torno da Terra em 89 minutos, em 1961 (cf. História do Brasil, Ed. Folha de São Paulo, 1997).
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