Porto Velho (RO) sábado, 27 de junho de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Luka Ribeiro

PARA VOAR NÃO PRECISA DE VISTO ALFANDEGÁRIO


Felipe Azzi

                A pequena cidade, encravada na tríplice fronteira, a bem dizer, era um lugarejo. Mas tinha a sua importância alfandegária. Navios mercantes d bandeiras internacionais fundeavam na discreta enseada fluvial, enquanto o Oficial mestre vinha á terra firme em busca do “visto” nos documentos de cargas em trânsito.

                Como na Amazônia mais chove do que não chove, a praça defronte da Aduana, que, na verdade, era um imenso barreiro quadrangular, ficava coberta por espessa massa argilosa, a tabatinga escorregadia. Caminhar nessa praça em dias chuvosos era complicado. Pode-se dizer que era espetáculo costumeiro a ocorrência de quedas espetaculares de pessoas desavisadas. O risco desses tombos não era privilégio de humanos. Canídeos e galináceos também eram vítimas em potencial.

                Então, chuva caindo e oficial mestre cruzando a dita praça em tarefa de obter o visto fiscal, gerava expectativas. As pessoas ficavam a postos, de butuca, como lá se dizia, em espera marota, e comentavam:

                “– Hoje vai ter gringo voador na praça!”

                Não dava outra. O oficial mercante, em trajes brancos, dando os primeiros passos da travessia, escorregava cerca de dois metros e voava, descrevendo parábolas no ar como estiloso circense. Lançava para o alto a pasta de documentos, o guarda-chuva e o quepe, acompanhados de uma saraivada de impropérios em idioma estranho. As gargalhadas da plateia oculta ecoavam na névoa chuvosa da tarde benjaminense, parecendo o coaxar de CURURUS em toada romântica de batráquios no intencionismo de acasalamento. Cumprida a formalidade fiscal, via-se um espantalho de barro, caminhando de regresso pelas beiradas do local do infortúnio, com jeito de solitário guerrilheiro cambojano.

                Naquele tempo, a cidade não tinha uma emissora de rádio. Mas ninguém podia se queixar da fala de comunicação ou de isolamento do noticiário nacional. Havia um serviço de divulgação que animava a pequena população. Além das notícias captadas através do rádio e amplificadas por alto-falantes estrategicamente posicionados, de modo a alcançar a audiência do núcleo central do lugarejo, a parafernália radiofônica prestava verdadeiro serviço de utilidade pública.

                As suas atividades eram diversas. Fazia reclames comerciais que hoje a modernidade chama de propaganda. Divulgava músicas populares que eram sucesso na época. Dava recados pessoais e notas de interesse da gente do lugar, às vezes pitorescas e mesmo hilárias. Era comum a divulgação de assuntos, com ênfase a particularidades intimistas.

                A propaganda buscava estimular a curiosidade dos consumidores, informando: “A LOJA DAS NOVIDADES AVISA QUE RECEBEU OS MAIS RECENTES LANÇAMENTOS DA MODA FEMININA E MASCULINA, PARA MULHERES E HOMENS, PARA JOVENS E TAMBÉM CRIANÇA INFANTIL.”

                Os avisos, com roupagem de recados, tinham a propriedade objetiva e direta, como este: “O CLUBE DO JABACULÊ COMUNICA QUE A REUNIÃO DE HOJE FOI TRANSFERIDA PARA O DIA SEGUINTE, AMANHÃ, E PEDE O COMPARECIMENTO COM A PRESENÇA DE TODOS.”

                O recado pessoal era prolixo e rico em pormenores, desse tipo: “SEU LIBÓRIO PEDE PARA DONA COTINHA MANDAR A BENGALA QUE ELE ESQUECEU PERTO DA CADEIRA ESPREGUIÇADEIRA. ELE ESTÁ ESPERANDO NA FARMÁCIA DO SEU PRIMO. MAS MANDA LOGO, QUE O HOMEM PRECISA ANDAR.”

Já as notas de falecimento eram dadas com voz de coveiro e em clima de3 sétimo dia, desse modo tarjado de preto: “FALECEU NESTA MADRUGADA JUVÊNCIO COPERTINO ROSA, MORDIDO DE COBRA. SEU ENTERRO SERÁ LOGO MAIS À TARDE. A COBRE, UMA JARACUÇU-PIMENTA, FOI ENCONTRADA MORTA BEM PERTO DE SUA CASA”.

                De romanesco, havia o “CORREIO-ELEGANTE”, de apreciado uso dos pares apaixonados, sempre de plantão, que faziam seus oferecimentos românticos, nas asas de sonoros cupidos. Ocasionalmente, ouviam-se mensagens acompanhadas por melodias e versos esdrúxulos, do tipo: “TONICO-TICO OFERECE PARA O SEU BEM-QUERER ROSINHA DO AMPARO”, e os ouvintes levavam pelas conchas das orelhas os versos de sucesso popular daquele tempo, “OI, TREPA NO COQUEIRO E TIRA COCO DO COQUEIRO, TIRA COCO, ZICO-ZICO... INHACO-INHACO, CO COQUEIRO ORIRÁ.”

                As estórias e contos amazônicos são assim. Falam da simplicidade da alma de uma gente acostumada com o lado natural das coisas. Pessoas que vivem de mãos dadas com a natureza. Talvez, por isso mesmo, tenham criado um humor próprio para encher de alegria a caminhada rumo a um futuro promissor, nem sempre respeitado e, no mais das vezes, usurpado e vilipendiado, por naturais e forasteiros.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoSábado, 27 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

2ª Edição do Empreende Pet tem primeiro dia de sucesso e continua neste sábado (27) no Parque Alternativo

2ª Edição do Empreende Pet tem primeiro dia de sucesso e continua neste sábado (27) no Parque Alternativo

A 2ª edição do Empreende Pet começou com o pé direito na noite de ontem (26), no Espaço Alternativo (Parque Alternativo), e já é considerada um suce

2ª Edição do Empreende Pet começa nesta sexta (26) no Parque Alternativo com programação gratuita

2ª Edição do Empreende Pet começa nesta sexta (26) no Parque Alternativo com programação gratuita

Começa nesta sexta-feira (26), a partir das 17h, a 2ª edição do Empreende Pet no Espaço Alternativo (Parque Alternativo) , na Avenida Governador Jor

Aberto à comunidade, Arraial do MPRO terá apresentações culturais e espaço infantil gratuito

Aberto à comunidade, Arraial do MPRO terá apresentações culturais e espaço infantil gratuito

Em mais um momento de integração com a comunidade, o tradicional Arraial do MPRO será realizado na próxima sexta-feira (26/6), em área lateral ao pr

Inversão de papéis: adultos também precisam estimular o cérebro para poder cuidar de seus pais no processo de envelhecimento

Inversão de papéis: adultos também precisam estimular o cérebro para poder cuidar de seus pais no processo de envelhecimento

A sobrecarga de responsabilidades recaí, principalmente, entre as mulheres. E não tem sido diferente quando os filhos precisam cuidar dos pais que e

Gente de Opinião Sábado, 27 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)