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Gente de Opinião

Luka Ribeiro

TAMANHO É DOCUMENTO


           Felipe Azzi

            Portinhoso Castanho era muito falante, conversador e possuído de um sestro de levantar a aba do beiço no lado direito da boca, como se fosse puxar respiração dificultosa. Além disso, com o braço direito e punho fechado, fazia um movimento junto à pança, como se procurasse levantar a calça frouxa de seu costumoso vestir.

            Era casado com os 120 quilos de dona Elefantina Praxedes Castanho, sem mencionar os acabamentos frontais e os rebocados da parte de trás, que eram ornamentos de se ver de longe.

            Uma ocasião, em viagem ao Rio de Janeiro, ao passar na Rua do Ouvidor por loja de moda feminina, Castanho viu manequim com roupa mimosa e sapatos de estilo. Entrou, varejou o olhar matreiro pela loja e, num repente, apareceu um anjo que, pelo perfume que exalava, devia ser da corte celestial francesa E foi abordado:

            – O cavalheiro deseja algo?

            Castanho, aprumando a verruma do olhar em direção pouco recomendável, disse com voz somítica:

            – Gostaria de ver esse vestido do manequim.

            A moça, quase sussurrando na concha do ouvido de Castanho, perguntou:

            – É encomenda... Ou coisa decidida de caso pensado?

            – É para minha mulher... – disse Castanho.

            – Temos do número 42 a 46! – Disse a vendedora, perguntando pelo manequim da esposa de Castanho.

            – Elefantina veste 46! – Disse castanho.

            A moça trouxe o vestido que foi logo aprovado por Castanho. E perguntou:

            – E os sapatos... Vai querer levar?

            Castanho, retorcendo a palha do cavanhaque, de olho nas outras clientes que desfilavam num vai-e-vem estonteante, disse:

            – Vou levar também os sapatos! Traga, por favor, um de número 39.

            Já em casa, de volta da viagem, Castanho, com voz cheia de mimos e rococós, disse para Elefantina:

            – Querida... No Rio lembrei-me de você!.. Veja o que lhe trouxe.

             Elefantina, com a euforia comum às damas quando ganham presentes, desfez os pacotes, quase gritando:

            – Que maravilha, que vestido lindo1... E que sapatos... Vou experimentá-los agora mesmo.

            De volta à sala, com o vestido no corpo, estourando nas laterais, nas mangas e no busto, Elefantina esbravejou contra o marido:

            – Portinhoso, tu és maluco? Esse vestido não cabe em mim. E os sapatos, que diabo de número tu compraste?

            E Portinhoso, afinando o cacoete do braço e do beiço com a desculpa que dava:

            – Herr... Eu vi as moças pedindo manequim 42 a 44 e sapatos 36 a 37 e fiquei cokm vergonha; trouxe esses tamanhos pra você.

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