Quarta-feira, 7 de outubro de 2020 - 12h31

Bagé, 07.10.2020
Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte XXIX
Viagem ao Redor do
Brasil (1875-1878) – I
Dentre as inúmeras viagens pretéritas
pelo Rio Madeira esta, escrita pelo então Coronel João Severiano da Fonseca,
integrante da Comissão de Limites Brasileiro-boliviana, foi a que mais me
cativou. Reproduzi, no meu livro, três delas por julgar terem sido as mais
notáveis.
Nesta o insigne Patrono do Serviço de
Saúde do Exército descreve os costumes e compila um glossário do vocabulário
linguístico das diversas etnias indígenas com as quais a Comissão entrou em
contato. A obra além de mostrar a participação dos nativos como auxiliares na
exploração e colonização do território, narra com detalhes as dificuldades
enfrentadas nas passagens pelas Cachoeiras e ilustra com gravuras as rotas
utilizadas pelos expedicionários para ultrapassá-las.
Conta-nos Olyntho Pillar:
João
Severiano da Fonseca
O
Serviço de Saúde do Exército, após a instituição dos Patronos das Forças
Armadas e a escolha feliz de Sampaio, Mallet, Osório e Cabrita, que bem evocam
as qualidades máximas do intimorato ([1])
infante, do artilheiro rígido, do alígero ([2])
hussardo ([3])
e do Engenheiro audaz, para padroeiros das armas militares do Exército, também
desejou possuir o seu símbolo dos dons pacíficos do cientista invulgar e das
acrisoladas ([4]) virtudes militares do
soldado integérrimo ([5]).
Justa
a aspiração, que logo achou guarida nos órgãos de imprensa, como a “Nação Armada”, principalmente. Feriu-se
o pleito entre os médicos, farmacêuticos e dentistas do Exército, disseminados
pela vastidão do território nacional, recaindo a eleição, quase unânime, no
vulto preeminente da cultura indígena, misto de Médico, Militar, Professor,
Naturalista, Escritor, Geógrafo, Historiador e Político – o Dr. João Severiano
da Fonseca. Não foi unânime porque escassos votos couberam a dois outros nomes
também dignos, mas despidos da magnífica aureola que ataviou ([6])
o vulto ímpar daquele que, trilhando toda a afanosa e extensa hierarquia
militar, atingiu o generalato médico: o Capitão Manoel de Aragão Gesteira,
cirurgião exímio, que, com seus denodados companheiros, escreveu a epopeia da
Retirada da Laguna, episódio da Guerra do Paraguai, profissional cônscio de
quem Taunay soube afirmar:
debaixo do fogo já dera provas de
dedicação e sangue frio, como verdadeiro discípulo do grande “Larrey” ([7]),
e o Dr. José Ribeiro de Souza Fontes, Professor da Faculdade de Medicina do Rio
de Janeiro, titular do Império e Tenente-Coronel Médico do Exército.
Do
posto inicial ao glorioso termo, de simples Tenente a General-de-Divisão e 8°
Diretor do Serviço de Saúde do Exército, sua personalidade singular, forte e
multiforme, descreveu a luminosa trajetória que o fez o merecido paradigma dos
que labutam na defensão ([8])
da saúde daqueles que, a chamado da Pátria, se devotam, na caserna, a seu labor
construtivo.
É
símbolo e exemplo. Oriundo de estirpe valorosa sua existência merece recordada
([9]).
Nasceu a 27.05.1836, à margem da Lagoa Manguaba, na velha Cidade de Alagoas –
hoje Marechal Deodoro –, na Província das Alagoas, sendo seus genitores o
Tenente-Coronel Manuel Mendes da Fonseca e Dona Rosa Maria Paulina da Fonseca.
Foi ele o sétimo descendente da numerosa prole desse feliz casal, constituída
de dez filhos: Hermes Ernesto ‒ Marechal; Severiano Martin ‒ Marechal-de-Campo
e Barão de Alagoas; Manuel Deodoro ‒ Generalíssimo, Proclamador da República e
seu primeiro Presidente; Pedro Paulino ‒ Tenente reformado e Senador da
República; Hipólito Mendes ‒ Tenente, morto em Curupaiti; Eduardo Emiliano ‒
Major, morto em Itororó; João Severiano ‒ General-de-Divisão Médico; Emília
Rosa da Fonseca Furtado de Mendonça ‒ casada; Amélia Rosa da Fonseca Amaral ‒
casada; e, Afonso Aurélio ‒ Alferes, também morto em Curupaiti.
Neste
passo é justo ressaltar-se que a respeitabilíssima matrona, que com desvelo os
soube embalar ao regaço materno, logrou, pelas suas virtudes espartanas,
sobreviver nos fastos da história cívica com o imortal epíteto ([10])
de “Mãe
dos 7 Macabeus”.
Ela,
nordestina de fibra estoica, vibrava ante os feitos gloriosos de seus filhos, a
ponto de iluminar sua casa à notícia de que haviam tombado inertes no campo da
luta e da honra. Ao recordar a mártir dolorosa que, no reinado de Antíoco
Epifânio, tanto mais daria em holocausto da Mãe Pátria, se preciso fora, três
vezes o luto lhe envolveu o coração, que sempre procurou mostrar-se resignada
para estímulo de outras mães a sacrifícios semelhantes. (PILLAR)
“Mãe
dos 7 Macabeus”
Bíblia
Sagrada ‒ Livro II ‒ Macabeus, 7:
01. Havia também sete irmãos que foram um dia
presos com sua mãe, e que o Rei por meio de golpes de azorrague ([11])
e de nervos de boi, quis coagir a comerem a proibida carne de porco.
02. Um dentre eles tomou a palavra e falou assim em
nome de todos. Que nos pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos a
morrer antes de violar as leis de nossos pais.
03. O Rei, fora de si, ordenou que aquecessem até a
brasa sertãs ([12])
e caldeirões.
04. Logo que ficaram em brasa ordenou que cortassem
a língua do que falara [por] primeiro
e, depois que lhe arrancassem a pele da cabeça, que lhe cortassem também as
extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe.
05. Em seguida, mandou conduzi-lo ao fogo inerte e
mal respirando, para assá-lo na sertã. Enquanto o vapor da panela se espalhava
em profusão, os outros com sua mãe, exortavam-se mutuamente a morrer com
coragem. [...]
07. Morto desse modo o primeiro, conduziram o segundo ao suplício. [...]
10. Após este, torturaram o terceiro. Reclamada a língua, ele a apresentou logo, e
estendeu as mãos corajosamente. [...]
13. Morto este, aplicaram os mesmos suplícios ao quarto, [...]
15. Arrastaram em seguida o quinto e torturaram-no; [...]
18. Após este, fizeram achegar-se o sexto, [...]
20. Particularmente admirável e digna de elogios
foi a mãe que viu perecer seus sete
filhos no espaço de um só dia e o suportou com heroísmo, porque sua esperança
repousava no Senhor. [...]
(PILLAR) (Continua...)
Bibliografia
PILLAR, Olyntho. Os Patronos das Forças Armadas
– Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Biblioteca do Exército Editora, 1981
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
[1] Intimorato: destemido, valente.
[2] Alígero: veloz.
[3] Hussardo: membro da cavalaria ligeira.
[4] Acrisoladas: aperfeiçoadas.
[5] Integérrimo: muito íntegro.
[6] Ataviou: adornou.
[7] Domique Jean Larrey: General médico do exército de Napoleão que
muito contribuiu para os serviços Médicos de Urgência Atuais. Atendia os
soldados feridos em pleno campo de batalha.
[8] Defensão: defesa.
[9] Recordada: lembrança.
[10] Epíteto: apelido.
[11] Azorrague: açoite de várias correias.
[12] Sertãs: frigideiras largas e rasas.
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