Quarta-feira, 25 de agosto de 2021 - 06h01

Bagé,
25.08.2021
O ato de “reescrever a história”, alterar datas
significativas ou mesmo hinos pátrios não é um fato novo na biografia da
humanidade e muito menos privilégio dos brasileiros. Na mór parte das vezes foi
usado para melhorar a autoestima de um povo em relação às suas conquistas e
glórias maximizando-as e dando-lhes um colorido simpático e atraente.
Infelizmente, os subservientes adeptos do politicamente correto, cada vez mais
estendem seus abjetos tentáculos com um claro propósito de demudar datas e
fatos pretéritos que consideramos imutáveis e sagrados. O Coronel de Engenharia
Higino Veiga Macedo, meu Caro Amigo e Mentor, enviou-me outro texto de sua
autoria que faço questão de compartilhar com os leitores neste imaculado e
único “DIA DO SOLDADO” e do “EXÉRCITO BRASILEIRO”.
Dia do Índio ou do Exército ou do Soldado?
Por Cel Eng Higino Veiga Macedo
Hoje, 19 de abril, comemoram-se, no Brasil, o Dia do
Índio e no EB ([1])
o Dia do Exército. Deveria ser O Dia do Indígena (índio é o original da Índia).
O dia do índio, celebrado
no Brasil em 19 de abril, foi criado pelo presidente Getúlio Vargas, através do
Decreto-lei 5.540 de 1943, A data de 19 de abril foi proposta em 1940, pelas
lideranças indígenas do continente que participaram do Congresso Indigenista
Interamericano, realizado no México ([2]).
A diferença de três anos foi pelo pouco caso do nosso
governo ao evento. A insistência do Gen Rondon levou o Presidente Vargas ceder
e criar o Decreto citado. Nada há que correlacione indígena com EB. E não é uma
efeméride puramente brasileira. É um evento americano (Norte, Sul e Central),
dos habitantes das Américas.
A outra comemoração, Dia do EB, é função da Batalha do
Guararapes em 19 de abril. Por maior reconhecimento que se queira dar ao acontecimento
desta data de 19 de abril, elencá-la com o Dia do EB, é impor um acontecimento
sem significado. Tal data, não tem apelo
sentimental, emocional, exemplar e nem desperta vocações. Há um halo de oportunismo
e de culto às minorias, tão ao gosto dos doutrinadores ideológicos dos
últimos governos. Halo do politicamente correto. Foi enfiado
goela abaixo aos devotos de Caxias. É admissível reconhecer na Batalha a
formação da nacionalidade. Mas formação do Exército é exagero. Talvez essa
concepção de tropa nacional, tropa brasileira, seja apenas um ufanismo, pela vitória
que deve ser reconhecida como honrosa e decisiva contra os holandeses.
A ladainha de convencimento vem sempre nos textos
alusivos ao dia, muito parecidos com este:
O Exército – que surgiu
em Guararapes, liderado por Vidal de Negreiros, Felipe Camarão, Henrique Dias,
João Fernandez Vieira e Antônio Dias Cardoso, todos reconhecidos como “Heróis
da Pátria”.
Na verdade, cada comandante comandava os de sua etnia:
Vidal comandava os negros; Felipe, os indígenas e Vidal, os europeus.
Não houve o amálgama humano que o culto quer insinuar.
Reforçando, não se retira o valor da Batalha e nem o mérito do seu sucesso. Nem
o valor dos comandantes. Fixa-se na insistência da insinuação de integração étnica.
Ao invés de cristalizar a formação do Exército, pelas
três etnias, porque não valorizar tal data e dar a ela maior expressão como a
Formação da Nacionalidade Brasileira. Muitos sociólogos, antropólogos
aplaudiriam. Seria o “Dia da Brasilidade”. E se se quer valorizar a
comunhão étnica pretendida, com fatos guerreiros, então porque não colocar a
data como o “Dia das Forças Armadas”. Fica muito mais lógico e
palatável. Poderão alegar que o combate foi em terra, sem Marinha e sem Força
Aérea, que não havia... Mas a Marinha sempre teve tropa de terra e a Força
Aérea tem tropa de terra. Portanto, estiveram plenamente representadas.
Repetindo, no Brasil contemporâneo, ao dia 19 de abril
foi acrescida a comemoração do dia do Exército Brasileiro. Como dito, o acréscimo
foi para valorizar a primeira união das etnias existentes, no Brasil, contra a
invasão holandesa, em 1648. Foi oficializado pelo Decreto de 24 de março de
1994, sem número, como se vê no Diário Oficial da União – Seção 1 – 25.03.1994,
Página 4.315.
Como sou cético a qualquer movimento patriótico de
comunista, entendo que tal mudança foi com a intenção de quebrar o orgulho,
corromper a autoconfiança e dissolver a aglutinação que o culto, ao aniversário
de Caxias, dava ao Exército e ao Soldado (25 de agosto).
O culto nunca foi à pessoa de Luís Alves de Lima e
Silva, mas ao significado de atos dele, como Soldado. Conseguiram sutilmente
separar o soldado – Caxias, da instituição – Exército. Com comemorações em
datas distintas – Soldado e Exército, não conseguiram fortalecer o nativismo
(Guararapes) e conseguiram enfraquecer o esplendor da outra data (Caxias). A primeira tem
muito mais apelo, identificação e reconhecimento populista, via apelo
midiático, por ser culto às minorias.
Da batalha de Guararapes, nada se ensina nas escolas. O brasileiro a
desconhece. A mudança serviu para o esvaziamento do culto, mais filosófico que
ideológico, ao Soldado e ao Exército que era a 25 de agosto. Culto não ao
Soldado, a primeira graduação. Mas sim ao
Soldado, o militar, o profissional da guerra. São
soldados, em filosofia, o soldado e o general.
Soldado, aí, é a situação de guerreiro: ambos são militares.
Assim, tentaram ligar o combate em Guararapes com os
movimentos e sentimentos nativistas que pipocaram no Brasil posteriormente e
não como uma batalha decisiva. Há um excesso de zelo em não colocar o evento
como um grande feito militar. Parece que se prefere fugir do conceito
ideologizado de sociedade civil e sociedade militar.
Repetindo, o Dia do Exército já foi em 25 de agosto,
dia do aniversário do Duque de Caxias, patrono do EB ([3]).
Também era o dia do Soldado por ser Caxias tratado como Soldado e não a
autoridade.
Por ser o dia do Soldado, acolhia qualquer soldado de
qualquer força. Hoje, o 25 é de calendário anual como o “Dia do Soldado”,
mas sem nenhum élan. Coisa fria, burocrática,
vazia. Festeja a graduação e não a filosofia, a essência, o valor. Banalizou-se
o rito da máxima cerimônia militar que é o “Juramento à Bandeira”, o
único juramento de sangue que ainda existe e resiste no mundo.
Desvalorizou-se o único juramento
feito tanto pelo soldado general, quanto pelo
soldado recruta. Desmereceu-se o orgulho de um iniciado nos valores da
pátria. O Juramento à Bandeira é um rito de passagem: o jovem rompe o conforto
do lar e se transforma em militar combatente 3R: Rude, Rústico e Resistente. Supera
a fadiga; sublima a dor e supera a inclemência. O “bisonho se torna praça velho, um
combatente juramentado”. O oficial
e o sargento, hoje, já não sabem o que é um recruta e o que é um “praça
velho”.
Acabou-se a Semana do Exército com Olimpíadas, com
formaturas no dia, com entrega da Medalha do Pacificador, com juramento à
Bandeira no dia 25 de agosto... Tudo agora se resume em mais um feriado. E
formaturas no dia que não prejudique o feriado. O dia 19 de abril não é
representativo. O 25 de agosto foi intencionalmente esvaziado.
O Dia do Índio nunca
será o Dia do Exército... Não há relação entre Guararapes e o soldado juramentado e muito
menos com o Dia do Soldado.
Edifício Praia Vermelha, Rio, 19 de abril de 2018.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].

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