Terça-feira, 5 de maio de 2026 - 07h50

Bagé,
05.05.2026
Tenho a honra de repercutir, devidamente
autorizado, um artigo de meu caro Amigo, Irmão e Mestre Coronel Veterano Leonardo
Roberto Carvalho de Araujo. Tivemos o privilégio de cursar como alunos o
Colégio Militar de Porto Alegre e mais tarde lecionar naquela augusta Casa do
Saber.
O Cálculo Invisível: Como as Lacunas
Educacionais Ameaçam a Indústria de Defesa Brasileira
(Leonardo Roberto Carvalho de Araujo)
Cada leva de estudantes que passa pelo
sistema sem dominar matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e técnicos
que o País não terá.
1. INTRODUÇÃO
A
indústria de defesa representa um dos setores mais exigentes em termos de
capital humano qualificado. Diferentemente de diversos outros segmentos industriais,
não há espaço para aproximações ou improvisações quando se trata do
desenvolvimento de sistemas de armas, aeronaves militares, eletrônica embarcada
ou propulsão naval. A margem de erro é literalmente inexistente.
Neste
contexto, as lacunas no ensino de matemática que chegam às Universidades
brasileiras representam não apenas um desafio pedagógico, mas uma ameaça
estrutural à capacidade do País de desenvolver uma indústria de defesa
competitiva e autônoma.
Cabe
ressaltar que as deficiências educacionais aqui elencadas e analisadas trazem,
por óbvio, consequências graves para outros ramos fundamentais da vida
nacional, como as diversas engenharias civis, a medicina, as ciências da
computação, a arquitetura, as ciências econômicas e tantas outras áreas que
dependem de sólida formação em matemática e ciências exatas. Contudo, o foco
deste estudo recai especificamente sobre a Indústria de Defesa, dada sua
importância estratégica para a soberania nacional e as particularidades de suas
exigências técnicas, que não admitem margem para improviso ou formação deficiente.
O
presente estudo constitui uma pequena contribuição da LRCA Defense Consulting
para o desenvolvimento da Indústria de Defesa e para a Educação no Brasil,
buscando evidenciar a relação indissociável entre formação técnica de qualidade
em ciências exatas e a capacidade de um País construir soberania tecnológica na
área de defesa.
Ao
analisar tanto os desafios sistêmicos quanto alguns dos casos de sucesso já
existentes no Brasil, pretende-se oferecer alguns subsídios para a formulação
de políticas públicas e estratégias institucionais que fortaleçam
simultaneamente a educação básica e a superior, bem como a Base Industrial de Defesa
e Segurança (BIDS).
2. O PARADOXO DA EXPANSÃO SEM
PROFUNDIDADE
O
Brasil vive um momento peculiar: ampliou significativamente o acesso ao Ensino
Superior nas últimas duas décadas, mas comprometeu a solidez da base formativa.
Para a indústria de defesa, isso se traduz em um paradoxo cruel. Há mais
candidatos disponíveis no mercado de trabalho, mas uma parcela menor deles
possui o domínio técnico necessário para atuar em projetos de alta
complexidade.
Enquanto
estudantes universitários paralisam diante de equações simples, a indústria de
defesa precisa de profissionais capazes de trabalhar com equações
diferenciais, transformadas de Laplace, mecânica dos fluidos, dinâmica de
sistemas não-lineares e modelagem computacional avançada. A distância entre o
que chega e o que é necessário tornou-se um abismo técnico.
Relatos
de professores universitários são consistentes e preocupantes: calouros de
engenharia, economia e licenciaturas que não dominam regra de três, porcentagem
ou leitura algébrica básica. O que antes seria exceção tornou-se padrão
estatístico. A pandemia não criou o problema, mas expôs desigualdades
históricas e fragilidades estruturais que vinham sendo mascaradas por políticas
de aprovação automática e avaliações pouco rigorosas.
3. SETORES CRÍTICOS EM RISCO
3.1
Engenharia Aeroespacial
O
desenvolvimento de aeronaves militares exige domínio absoluto de aerodinâmica,
resistência dos materiais, termodinâmica e sistemas de controle. Um engenheiro
que não domina cálculo vetorial, derivadas parciais ou análise de tensões não
consegue sequer interpretar os requisitos de um projeto, muito menos contribuir
para sua execução. A Embraer, com sua divisão de defesa, e o programa KC-390
exemplificam o nível de exigência: são projetos que demandam anos de formação
técnica sólida, iniciada já no ensino fundamental.
3.2
Eletrônica e Sistemas Embarcados
Radares,
sistemas de guerra eletrônica, comunicações criptografadas e sensores de
precisão dependem de profissionais que dominem análise de sinais, processamento
digital, teoria eletromagnética e matemática discreta. A lacuna formativa -
estudantes que não dominam regra de três ou porcentagem - torna-se catastrófica
neste contexto. Como esperar que esses mesmos estudantes, anos depois,
trabalhem com transformadas de Fourier ou modulação de sinais?
3.3
Balística e Propulsão
O
cálculo de trajetórias, desenvolvimento de propelentes, análise de combustão e
dinâmica de projéteis são áreas onde a matemática não é apenas ferramenta, mas
linguagem nativa. Sem domínio de funções trigonométricas, logaritmos,
exponenciais e integração, não há como formar especialistas em sistemas de
mísseis, artilharia de precisão ou propulsão de foguetes. O Centro Tecnológico
do Exército (CTEx) e o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) dependem de
quadros técnicos que simplesmente nãopodem ser improvisados.
3.4
Construção Naval Militar
Submarinos,
fragatas e corvetas exigem cálculos de estabilidade, resistência hidrodinâmica,
sistemas de propulsão nuclear ou convencional, e integração de sistemas
complexos. O programa de submarinos nucleares brasileiro (PROSUB) ilustra a
dimensão do desafio: são décadas de investimento em infraestrutura, mas que
podem fracassar pela ausência de engenheiros navais plenamente capacitados.
4. O CUSTO OCULTO DA TERCEIRIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
Quando
um País não forma adequadamente seus próprios engenheiros e técnicos, a
indústria de defesa sofre consequências em cascata. A primeira é a dependência
tecnológica externa. Sem capacidade interna de desenvolvimento, o Brasil
permanece refém de transferências de tecnologia condicionadas, licenciamentos
caros e, em situações de conflito ou tensão geopolítica, vulnerável ao bloqueio
de fornecimento.
A
segunda consequência é a perda de autonomia estratégica. Defesa nacional não é
apenas sobre ter equipamentos, mas sobre ser capaz de projetá-los, fabricá-los,
mantê-los e, quando necessário, adaptá-los rapidamente às necessidades
operacionais. Esse ciclo completo depende de uma massa crítica de profissionais
de altíssimo nível técnico.
A
terceira, talvez a mais silenciosa, é a erosão da capacidade de inovação. A
indústria de defesa é historicamente um dos principais vetores de avanço
tecnológico. Internet, GPS, materiais compostos, microcircuitos avançados,
todos tiveram origem ou forte impulso em projetos militares. Um País que não forma
bem seus cientistas e engenheiros perde não apenas a capacidade de se defender,
mas também de inovar em áreas que, eventualmente, transbordam para a economia
civil.
5. A UNIVERSIDADE COMO REMENDO E O
ESGOTAMENTO DO SISTEMA
As
Universidades brasileiras improvisam disciplinas de nivelamento, módulos
introdutórios, cursos de “matemática zero”.
Em algumas instituições, o reforço já se divide em dois andares: um para
revisar o Ensino Médio; outro, mais constrangedor ainda, para reconstruir o Ensino
Fundamental.
É
como se a Universidade tivesse assumido, sem aviso prévio, o papel de Escola
Básica tardia. Para cursos de engenharia voltados à defesa, isso é
especialmente devastador. O tempo que deveria ser dedicado a aprofundar
conhecimentos em sistemas dinâmicos, controle robusto, análise numérica ou
ciência dos materiais precisa ser redirecionado para revisar frações, funções
básicas e álgebra elementar.
Há
um custo oculto nesse remendo. O tempo gasto recuperando o que deveria estar
consolidado reduz a profundidade do Ensino Superior. Professores sacrificam
rigor para garantir permanência. Estudantes acumulam frustração, evasão
silenciosa e a sensação íntima de inadequação. O País paga duas vezes:
primeiro, por uma Educação Básica que não ensinou; depois, por uma Universidade
que precisa ensinar o que já foi pago para ser ensinado. Professores relatam
turmas heterogêneas onde parte significativa dos estudantes simplesmente não
acompanha o ritmo exigido. O resultado é uma escolha trágica: ou reduz-se o
rigor, comprometendo a qualidade da formação, ou mantém-se o padrão, elevando a
evasão. Em ambos os casos, a indústria de defesa perde. No primeiro, recebe
profissionais insuficientemente preparados. No segundo, não recebe
profissionais em número adequado.
6. COMPARAÇÃO INTERNACIONAL E O
DISTANCIAMENTO COMPETITIVO
Enquanto
o Brasil lida com estudantes universitários que travam diante de equações
simples, Países com indústrias de defesa consolidadas mantêm padrões rigorosos
desde a Educação Básica. China, Estados Unidos, Rússia, França, Israel e Coreia
do Sul investem pesadamente não apenas em Universidades de elite, mas em toda a
cadeia formativa, garantindo que os estudantes cheguem ao Ensino Superior com
base matemática sólida.
Israel,
por exemplo, com uma população menor que a da cidade de São Paulo, mantém uma
das indústrias de defesa mais avançadas do mundo. Não por acaso, também possui
um dos sistemas educacionais mais rigorosos em ciências exatas. A Coreia do
Sul, que décadas atrás tinha indicadores educacionais comparáveis aos
brasileiros, priorizou matemática, física e engenharia como políticas de
Estado. Hoje, exporta sistemas de defesa de alta tecnologia.
O
Brasil, ao contrário, celebra índices de acesso sem correspondente preocupação
com profundidade formativa. Expande sem consolidar. Aprova sem diagnosticar. E
paga o preço na forma de uma indústria de defesa que, apesar de casos pontuais
de excelência, não consegue competir globalmente de maneira consistente.
7. O DRAMA ECONÔMICO E A PERDA DE
OPORTUNIDADES
A
indústria de defesa não é apenas estratégica do ponto de vista militar; é
também um setor econômico de alta geração de valor. Países que dominam
tecnologias de defesa exportam bilhões de dólares anualmente. Israel exporta
cerca de 12 bilhões de dólares por ano em equipamentos militares. A Coreia do
Sul tornou-se um dos principais fornecedores globais de sistemas de artilharia,
tanques e aeronaves de treinamento.
O
Brasil, com sua dimensão continental, recursos naturais, base industrial e
histórico de projetos bem-sucedidos como o C-390 da Embraer e os ASTROS da AVIBRAS,
poderia ocupar posição de destaque nesse mercado. Mas a fragilidade na formação
técnica de engenheiros e cientistas limita essa possibilidade. Projetos
atrasam, custos aumentam, entregas são comprometidas e, gradualmente, o País
perde competitividade internacional.
Mais
grave ainda: perde-se a capacidade de formar uma indústria de defesa robusta
internamente, o que compromete a própria segurança nacional. Dependência
externa em defesa não é apenas cara; é estrategicamente arriscada.
8. CASOS DE SUCESSO: EXEMPLOS QUE
FUNCIONAM
Embora
o diagnóstico geral seja preocupante, existem iniciativas brasileiras que
demonstram ser possível formar adequadamente os profissionais de que a
indústria de defesa necessita. Seis casos merecem destaque especial.
8.1
Colégios Embraer: Formação Estratégica desde o Ensino Médio
A
Embraer mantém dois colégios de Ensino Médio em período integral: o Colégio
Juarez Wanderley em São José dos Campos e o Colégio Casimiro Montenegro Filho
em Botucatu. Juntos, oferecem 240 vagas anuais, sendo 80% destinadas a
estudantes de baixa renda vindos da rede pública de ensino, com bolsas
integrais que incluem material didático, uniforme, alimentação e transporte. O
modelo é notável por vários aspectos. Primeiro, pelo processo seletivo rigoroso
organizado pela Fundação Vunesp, garantindo que os estudantes admitidos já demonstrem
capacidade e comprometimento. Segundo, pela infraestrutura de excelência e
corpo docente altamente qualificado. Terceiro, pelos resultados: a taxa de
aprovação em Universidades de primeira linha (USP, Unicamp, ITA, entre outras) alcança
84%.
Ao
longo de 21 anos, já passaram pelos colégios mais de 4.700 estudantes, muitos
vindos de famílias com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa.
A
Embraer compreendeu algo fundamental: não pode depender exclusivamente do
sistema público de Educação Básica para formar os engenheiros e técnicos de que
necessita. Ao investir na formação desde o Ensino Médio, garante um fluxo
constante de profissionais com base sólida em matemática e ciências exatas,
prontos para os desafios técnicos da indústria aeroespacial de defesa.
8.2
Colégios Militares e Escolas Cívico-Militares: Rigor e Resultados
O
Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), composto por 15 instituições
distribuídas pelo País, representa outro modelo de excelência na formação em
ciências exatas. Os números são inequívocos: em 2024, os alunos dos Colégios
Militares conquistaram 419 medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática das
Escolas Públicas (OBMEP), sendo 72 de ouro, 173 de prata e 174 de bronze. Em
2025, novamente foram mais de 400 alunos premiados, sendo 86 medalhas de ouro,
174 medalhas de prata e 180 medalhas de bronze, além de 312 menções honrosas.
No
PISA 2018, a avaliação internacional que mede a qualidade da educação em 79 Países,
relatórios destacam que Colégios Militares federais tiveram desempenho superior
à média OCDE em matemática, ciências e leitura, comparável aos top 20 mundiais
se analisado isoladamente. Se os resultados fossem analisados separadamente,
teria garantido ao Brasil empate com Portugal e Croácia nessas áreas.
No
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de 2023, o Colégio Militar
de Campo Grande obteve nota 6,7, com média de 370,80 em matemática,
posicionando-se como a 25ª melhor escola do Brasil e a melhor de Mato Grosso do
Sul. Estudo da Universidade Federal do Ceará demonstrou que alunos de Colégios
Militares adquirem o equivalente a um ano e meio a mais de conhecimentos em
matemática quando comparados a estudantes de Escolas Públicas regulares.
A
forte preparação em matemática e raciocínio lógico cria vantagens competitivas
significativas. Uma parcela considerável dos egressos segue carreiras em
engenharia, medicina, direito e ciências exatas, exatamente as áreas críticas
para a indústria de defesa. Muitos ingressam em instituições militares de
ensino superior, como a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), Academia
Militar das Agulhas Negras (AMAN), Academia da Força Aérea (AFA), Escola Naval,
Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e Instituto Militar de Engenharia
(IME).
O
modelo de Escolas Cívico-Militares, embora mais recente, também tem apresentado
desempenho muito promissor, obtendo excelentes resultados em olimpíadas de
matemática (incluindo a OBMEP), parâmetros nacionais de avaliação (IDEB/Saeb) e
vestibulares competitivos. Ainda em expansão, essas Escolas combinam gestão
militar com corpo docente civil, mantendo o rigor disciplinar e a ênfase em ciências
exatas que caracterizam os Colégios Militares tradicionais.
8.3
Escolas Públicas de Excelência: o Nordeste como Modelo
Um
dos fatos mais surpreendentes do IDEB 2023 é que todas as 21 escolas públicas
que alcançaram nota 10 nos anos iniciais do Ensino Fundamental estão
localizadas no Nordeste: 15 no Ceará, cinco em Alagoas e uma em Pernambuco.
Esta foi a primeira vez na história que o IDEB conferiu nota máxima a escolas,
e todas são nordestinas. A Escola Municipal Nossa Senhora da Paz, em Coreaú
(Ceará), com 10 no IDEB, ocupa o primeiro lugar nacional. O mais notável é que
as 10 melhores escolas públicas do Brasil nos anos iniciais são do
Ceará
e estão no interior. Não são capitais. São cidades pequenas como Pires
Ferreira, Cruz, Novo Oriente, Mucambo — municípios que desafiam o senso comum de
que excelência educacional depende de grandes centros urbanos.
O
sucesso do Ceará não é acidental. O Estado mantém um regime de colaboração com
os municípios que inclui formação continuada para professores, material
didático estruturado, sistema de avaliação (Spaece) e o Programa de
Aprendizagem na Idade Certa (Paic Integral). É uma política de Estado, não de Governo,
implementada há quase duas décadas com consistência.
Entre
as 50 cidades com maiores notas do IDEB 2023 no 9° ano do Ensino Fundamental,
36 são do Nordeste, sendo 20 apenas do Ceará. No Ensino Médio, a Escola Família
Agrícola Padre Eliésio dos Santos, em Ipueiras (Ceará), no Sertão dos Crateús,
é a melhor unidade estadual do Brasil com nota 7,5. Trata-se de uma escola do
campo, que alterna sala de aula e trabalho agrícola, demonstrando que é possível
excelência em contextos não convencionais.
Uma
diretora de escola nota 10 relatou: “São
aplicados simulados padronizados mensalmente, não só no ano do IDEB. Além do
simulado, temos maratonas de aprendizagem com premiações para os alunos de
destaque e os professores”. Há método, avaliação constante, diagnóstico e
intervenção pedagógica efetiva.
Esses
resultados provam algo fundamental para a indústria de defesa: é possível
formar adequadamente estudantes em matemática e ciências exatas dentro do
Brasil, inclusive em contextos de baixa renda e municípios pequenos. O
diferencial está na gestão, no rigor acadêmico, na formação docente, no acompanhamento
sistemático e na cultura de excelência.
8.4
Escolas Particulares de Alto Nível: Investimento e Resultados
O
Brasil também possui escolas particulares que demonstram padrões internacionais
de excelência. Colégios como Bandeirantes e Santa Cruz, em São Paulo, obtiveram
no PISA desempenho comparável aos melhores Países da Europa, como Estônia,
Reino Unido e Alemanha. Em Leitura, as escolas particulares de elite
brasileiras colocariam o País na 5ª posição mundial.
O
Farias Brito Colégio de Aplicação, em Fortaleza, liderou o ranking de melhores
colégios do Brasil no ENEM por anos consecutivos. Outras instituições de
destaque incluem o Colégio Objetivo Integrado (São Paulo), Instituto Dom
Barreto (Teresina), Colégio Bernoulli (Belo Horizonte) e Colegium (Belo Horizonte),
todas figurando consistentemente no top 20-50 nacional do ENEM e com forte
ênfase em preparação para vestibulares de alta seletividade em engenharia e
ciências exatas.
O
que essas escolas têm em comum? Investimento robusto em infraestrutura
(laboratórios, bibliotecas, tecnologia), Corpo Docente altamente qualificado,
processos seletivos rigorosos, currículo focado em profundidade (não apenas
extensão), avaliações constantes e cultura de excelência acadêmica. Muitas
implementam conteúdos de Ensino Superior ainda no Ensino Médio para estudantes
avançados.
Para
a indústria de defesa, essas instituições representam fontes confiáveis de
futuros engenheiros e cientistas. Seus egressos ingressam maciçamente em cursos
de engenharia do ITA, IME, Politécnica da USP, Unicamp, UFRJ e outras instituições
de primeira linha, chegando à Universidade com domínio sólido de matemática,
física e química.
8.5
Taurus e UNISINOS: Parceria Universidade-Indústria
A
Taurus Armas, maior fabricante de pistolas do mundo e Empresa Estratégica de
Defesa, estabeleceu em 2021 uma parceria abrangente com a Universidade do Vale
do Rio dos Sinos (UNISINOS) que exemplifica como a indústria de defesa pode
participar ativamente da formação de seus profissionais.
A
parceria possui três frentes principais. A primeira é o projeto de Excelência
Operacional, desenvolvido pelo grupo de pesquisa GMAP da UNISINOS, focado em
elevar a capacidade operacional e o avanço tecnológico da empresa rumo à
Indústria 4.0. A segunda é o Programa de Capacitação Taurus, que abrange todos
os colaboradores, do montador à diretoria, criando uma base conceitual sólida
para aproveitamento dos avanços tecnológicos. A terceira frente,
particularmente relevante para este estudo, é o Programa de Educação Continuada
Taurus. A empresa oferece aos colaboradores cursos de graduação, mestrado e
doutorado, com apoio dos professores orientadores da UNISINOS. Foi criado
inclusive o Master Business Engineering (MBE) em Engenharia de Produção e
Sistemas Taurus, curso que simula em sala de aula demandas reais da companhia e
estimula cada participante a desenvolver projetos de melhoria contínua em
produtos ou processos.
A
parceria se estende à pesquisa aplicada. A Taurus também firmou convênio com a
Universidade de Caxias do Sul (UCS) para desenvolvimento de armamentos com
grafeno, utilizando a UCSGRAPHENE, primeira e maior planta de produção de
grafeno em escala industrial da América Latina instalada por uma Universidade.
O resultado foi a pistola GX4 Graphene, primeira arma leve do mundo com grafeno
injetado em peças e revestimento Cerakote® Graphene, para maior resistência,
durabilidade e dissipação térmica.
Nos
últimos anos, a Taurus investiu mais de 500 milhões de reais em maquinários,
equipamentos e processos de produção automatizados, mas compreendeu que
investir em tecnologia sem investir nas pessoas que a operarão seria inútil. O
modelo demonstra que a indústria de defesa não pode ser passiva, aguardando que
o sistema educacional entregue profissionais prontos. Precisa participar
ativamente da formação.
8.6
UFSM e Exército Brasileiro: Soberania Tecnológica em Simulação Militar
A
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) consolidou-se como principal
parceira acadêmica do Exército Brasileiro no desenvolvimento de tecnologias de
defesa nacional. Com investimentos que já ultrapassam R$ 20 milhões ao longo de
uma década, a cooperação entre as instituições tem gerado inovações críticas
para a soberania tecnológica do País, especialmente na área de simulação
militar.
8.6.1
Projetos Desenvolvidos e Resultados
Há
mais de uma década, pesquisadores do Centro de Tecnologia da UFSM vêm
desenvolvendo soluções inovadoras que transformaram a capacidade de treinamento
das Forças Armadas brasileiras. O principal marco foi a criação do Sistema
Integrado de Simulação ASTROS (SIS-ASTROS), destinado ao treinamento de
operadores do sistema de foguetes 100% nacional fabricado pela AVIBRAS. A
equipe desenvolveu um Simulador Virtual Tático completo, com mesa tática
sensível ao toque e vídeo wall, além de softwares para treinamento em
computadores pessoais.
Outro
projeto relevante foi a modernização do Dispositivo de Simulação e Engajamento
Tático (DSET), que simula por meio de feixes laser a trajetória balística nos
blindados Leopard 1A5. O projeto, orçado em R$ 2 milhões, eliminou limitações
do sistema original alemão da década de 1980, substituindo a impressora térmica
por transmissão de dados via rádio e incluindo georreferenciamento das
viaturas. Os resultados são expressivos: dezenas de publicações científicas,
uma patente concedida, dois depósitos de patentes em andamento, oito registros
de software e diversos prêmios de reconhecimento científico. Aproximadamente
190 pessoas já trabalharam nos projetos, entre professores, alunos de graduação
e pós-graduação, pesquisadores e funcionários.
8.6.2 Metodologia e Tecnologias
Empregadas
A
metodologia envolve o desenvolvimento de “serious
games” – jogos de computador que vão além do entretenimento para cumprir
propósitos de treinamento e educação. O processo inicia-se com estudo aprofundado
de doutrinas militares, seguido por desenvolvimento de soluções inovadoras em
engenharia de software, computação gráfica, realidade virtual, inteligência
artificial, interoperabilidade de jogos em rede e modelagem 3D.
O
projeto mais recente, iniciado em dezembro de 2024 com aporte superior a R$ 10
milhões e duração de cinco anos, envolve equipe multidisciplinar com seis professores
do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação da UFSM, além de um
professor da UFRGS. A equipe conta com 15 alunos de iniciação científica, dois
bolsistas de mestrado e quatro pesquisadores mestres.
8.6.3 Tríplice Hélice e Formação de Recursos
Humanos
A
cooperação entre UFSM e Exército exemplifica o conceito da tríplice hélice: a
integração entre Universidade, Governo e indústria para promover inovação e
desenvolvimento tecnológico. O General de Brigada Moisés da Paixão Júnior,
Gerente do Programa Estratégico ASTROS, ressaltou que os projetos em cooperação
com a UFSM são diferenciados, pois os resultados obtidos frequentemente superam
as expectativas iniciais.
Santa
Maria estabeleceu-se como polo nacional de tecnologia de defesa e simulação
militar, abrigando tanto os laboratórios da UFSM quanto importantes instalações
militares como o Centro de Instrução de Blindados e o Centro de
Adestramento-Sul.
8.6.4 Relevância para a Formação
Técnica
O
caso UFSM-Exército é particularmente relevante para este estudo por demonstrar
como a parceria Universidade-Forças Armadas pode formar profissionais altamente
qualificados em áreas críticas para a defesa nacional. Os aproximadamente 190
profissionais que já passaram pelos projetos receberam formação prática em
tecnologias de ponta que exigem sólida base em matemática, computação, física e
engenharia.
O
modelo evidencia que estudantes com formação adequada em ciências exatas podem
contribuir significativamente para a soberania tecnológica do País. A
capacitação proporcionada tem sido um diferencial no mercado de trabalho, com
profissionais sendo absorvidos por empresas do setor tecnológico brasileiro e
internacional. Como enfatizou o professor Raul Ceretta Nunes, coordenador do
projeto, “a equipe efetivamente
estabelece uma conexão profícua entre academia, Governo e indústria”,
desenvolvendo “soluções inovadoras de
simulação 100% nacional”.
9 LIÇÕES DOS MODELOS DE EXCELÊNCIA
Os
casos de sucesso analisados – Colégios Embraer, Colégios Militares, Escolas
Cívico-Militares, Escolas Públicas nota 10 do Nordeste e interior, Escolas
Particulares de alto nível, parceria Taurus-UNISINOS e parceria UFSM-Exército –
revelam padrões comuns que deveriam orientar políticas para a formação de
profissionais para a indústria de defesa:
9.1 Rigor Acadêmico sem Concessões
Todas
as instituições de sucesso mantêm padrões elevados e não rebaixam expectativas.
Avaliações constantes, diagnóstico precoce de dificuldades e intervenção
pedagógica efetiva são práticas sistemáticas.
9.2 Gestão por Resultados
O
modelo cearense de colaboração Estado-Município, com metas claras,
acompanhamento sistemático e responsabilização, prova que a gestão educacional
eficiente faz diferença mesmo em contextos de recursos limitados.
9.3 Formação Docente Qualificada
Professores
bem preparados em conteúdo e metodologia, bem como qualificação e retenção de bons
professores, são condição necessária e fazem a diferença.
9.4 Cultura de Excelência
Escolas
que celebram conquistas acadêmicas, mantêm expectativas altas e criam ambiente
propício ao estudo produzem resultados superiores, independentemente do
contexto socioeconômico.
9.5 Meritocracia e Inclusão não são
Excludentes
Os
Colégios Embraer reservam 80% das vagas para estudantes de baixa renda da rede
pública, mas mantêm processo seletivo rigoroso. Escolas Públicas nota 10 do
interior do Ceará atendem populações pobres, mas não abrem mão do rigor.
Colégios Militares e Escolas Cívico-Militares possuem alunos de todas as
classes socioeconômicas. Meritocracia acadêmica bem implementada identifica e
desenvolve talentos onde quer que estejam.
9.6
Parcerias Universidade-Indústria-Governo Funcionam
Os
modelos Taurus-UNISINOS e UFSM-Exército, com mestrados aplicados, pesquisa
conjunta, formação continuada e desenvolvimento de tecnologias nacionais,
demonstram que a indústria de defesa e as Forças Armadas podem participar
ativamente da formação de seus profissionais, acelerando a inovação e criando
ciclos virtuosos de conhecimento. A tríplice hélice (Universidade-Governo-indústria)
se mostra especialmente eficaz na área de defesa.
9.7 Formação Prática em Projetos Reais
A
experiência da UFSM mostra que estudantes que participam de projetos reais de
desenvolvimento tecnológico para defesa adquirem não apenas conhecimento
teórico, mas experiência prática inestimável. Os aproximadamente 190
profissionais formados pelos projetos UFSM-Exército representam massa crítica
qualificada que beneficia todo o setor tecnológico nacional.
10. PROPOSTAS DE ENFRENTAMENTO
10.1
Recuperação da Educação Básica em Matemática
Não
há atalho. A solução começa na Escola Fundamental, com professores bem
formados, currículos estruturados, avaliações diagnósticas reais e intervenções
pedagógicas efetivas. Políticas de fluxo que empurram estudantes adiante sem
domínio de conteúdo são incompatíveis com a formação de uma força de trabalho
técnica qualificada. A matemática exige construção sequencial: frações antes de
equações, equações antes de funções, funções antes do cálculo. Quando essa
escada está quebrada em vários degraus, o estudante tenta subir pulando etapas
que nunca foram solidificadas. O resultado é o colapso no Ensino Superior.
Os
casos de sucesso dos Colégios Militares e da Embraer, das Escolas Cívico-Militares,
e das Escolas Públicas de destaque do Nordeste e do interior mostram que é
possível, dentro do Brasil, oferecer educação básica de qualidade em matemática
e ciências exatas. O diferencial está no rigor acadêmico, na disciplina, na
seleção por mérito, na infraestrutura adequada e no Corpo Docente qualificado.
Esses elementos não são privilégios inatingíveis, mas escolhas institucionais
deliberadas.
10.2
Parcerias entre Indústria de Defesa, Forças Armadas e Universidades
Os
modelos Taurus-UNISINOS e UFSM-Exército demonstram o caminho: empresas como
Embraer Defesa, Avibras, Mac Jee, Akaer e instituições como CTEx, IAE, além do
próprio Exército Brasileiro, Marinha e Força Aérea, precisam estabelecer
programas estruturados de formação, desde estágios até programas de
pós-graduação aplicada. A indústria e as Forças Armadas não podem apenas
receber profissionais prontos; precisam participar ativamente de sua formação. A
criação de mestrados e doutorados voltados especificamente para as demandas da
indústria de defesa, como fizeram a Taurus em parceria com a UNISINOS e o
Exército com a UFSM, permite que colaboradores e estudantes desenvolvam
soluções aplicadas a problemas reais enquanto se qualificam academicamente.
Esse modelo de educação continuada beneficia simultaneamente o profissional, a
instituição e o desenvolvimento tecnológico nacional.
Parcerias
para pesquisa e desenvolvimento, como a estabelecida entre Taurus e UCS para
aplicação de grafeno em armamentos, ou entre UFSM e Exército para simulação
militar, exemplificam como Universidades podem se tornar extensões dos centros
de pesquisa das empresas e das Forças Armadas, acelerando a inovação e formando
pesquisadores altamente especializados. O investimento de mais de R$ 20 milhões
do Exército na UFSM ao longo de uma década demonstra que essas parcerias,
quando bem estruturadas, geram retorno significativo em tecnologia nacional,
formação de recursos humanos e soberania tecnológica.
10.3
Replicação do Modelo Embraer por Outras Empresas Estratégicas
A
experiência dos Colégios Embraer deveria inspirar outras empresas da Base
Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). Empresas como AVIBRAS, CBC (Companhia
Brasileira de Cartuchos), IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil),
Akaer, Mac Jee e EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais) poderiam
considerar iniciativas semelhantes, criando escolas técnicas ou estabelecendo
parcerias com instituições de Ensino Médio para garantir um fluxo constante de
estudantes com formação sólida em ciências exatas.
O
investimento é significativo, mas o retorno em longo prazo compensa:
profissionais formados desde cedo dentro da cultura da empresa, com lealdade
institucional, domínio técnico adequado e compreensão das especificidades da
indústria de defesa. A taxa de 84% de aprovação em Universidades de primeira
linha dos egressos dos colégios Embraer comprova a viabilidade do modelo.
10.4
Ampliação e Fortalecimento do Sistema de Colégios Militares e de Escolas
Cívico-Militares
O
desempenho excepcional dos Colégios Militares e de Escolas Cívico-Militares em
matemática e ciências exatas não é acidental. Resulta de um conjunto de
fatores: processo seletivo rigoroso, infraestrutura adequada, Corpo Docente qualificado,
disciplina, rigor acadêmico e acompanhamento constante do rendimento dos
estudantes.
O
Brasil possui atualmente 15 Colégios Militares federais e um número crescente
de Escolas Cívico-Militares estaduais. A ampliação estratégica desse sistema,
especialmente em regiões onde se concentram empresas e instituições de defesa
(Vale do Paraíba em São Paulo, região metropolitana do Rio de Janeiro, sul do País,
eixo Brasília-Goiânia), poderia criar verdadeiros polos de formação de futuros
engenheiros e técnicos para a indústria de defesa. A região de Santa Maria, no
Rio Grande do Sul, não é citada, pois já dispõe de duas dessas escolas: Colégio
Militar de Santa Maria e Colégio Tiradentes da Brigada Militar.
Dados
da OBMEP 2024 e 2025 mostram que os Colégios Militares conquistaram mais de 400
medalhas em cada edição, demonstrando não apenas competência, mas excelência
sistemática no ensino de matemática. Essa excelência se traduz em vantagens
competitivas reais: egressos que ingressam no IME, ITA, Politécnica da USP,
Unicamp e outras instituições de engenharia de primeira linha. Importante
destacar que 80% das vagas dos colégios Embraer são destinadas a estudantes de
baixa renda vindos da rede pública, desmistificando a ideia de que educação de
excelência em ciências exatas seria privilégio exclusivo de classes mais
favorecidas. O modelo dos Colégios Militares também aceita estudantes
independentemente da renda familiar, mediante processo seletivo por mérito.
A
questão central não é elitização, mas meritocracia acadêmica combinada com
investimento adequado. Países como Coreia do Sul e Cingapura universalizaram
educação de qualidade em ciências exatas mantendo padrões rigorosíssimos. O
Brasil pode e deve fazer o mesmo. O Ceará, Alagoas e Pernambuco, com suas Escolas
Públicas nota 10 localizadas em municípios pequenos e do interior, provam que isso
é possível dentro do contexto brasileiro.
10.5 Currículos de Engenharia com Foco
em Defesa
Algumas
Universidades brasileiras poderiam desenvolver currículos específicos voltados
para a indústria de defesa, com ênfases em áreas críticas: aeroespacial
militar, sistemas embarcados de defesa, cibersegurança aplicada, propulsão
avançada, balística computacional, simulação militar. Isso já existe em Países
como Estados Unidos, França e Rússia.
A
parceria Taurus-UNISINOS criou, dentro do curso de Engenharia de Produção, a
disciplina “Sistema Taurus de Produção”,
permitindo que futuros engenheiros adquiram conhecimento tecnológico específico
da produção de armas. A UFSM desenvolve expertise singular em simulação militar
e “serious games” aplicados à defesa.
Esses modelos poderiam ser replicados por outras Universidades, criando disciplinas,
habilitações ou até cursos inteiros voltados para as especificidades da
indústria de defesa.
10.6
Expansão de Programas de Iniciação Científica em Projetos de Defesa
O
modelo da UFSM, com 15 alunos de iniciação científica trabalhando em projetos
reais de simulação militar, deveria ser ampliado para outras Universidades e
áreas da defesa. Estudantes de graduação que participam de projetos aplicados
desenvolvem não apenas conhecimento técnico, mas compreensão das necessidades
estratégicas nacionais e experiência prática inestimável. Programas
estruturados de iniciação científica em parceria com empresas da BIDS e com as
Forças Armadas poderiam identificar e formar talentos desde cedo, criando um
pipeline de profissionais qualificados para a indústria de defesa.
10.7
Investimento em Centros de Excelência
O
Brasil precisa de centros de pesquisa em defesa que sejam, simultaneamente,
ambientes de formação de alto nível. O modelo do Lincoln Laboratory (MIT), do
DARPA nos EUA ou do Technion em Israel mostra que é possível integrar pesquisa
de ponta, formação de recursos humanos e desenvolvimento tecnológico aplicado. O
Centro de Tecnologia da UFSM, com sua experiência em simulação militar,
representa um embrião desse tipo de centro de excelência. Santa Maria já se
consolidou como polo de tecnologia de defesa. Outros polos poderiam ser
desenvolvidos em regiões estratégicas, concentrando expertise, recursos e talentos.
10.8
Programas de Bolsas e Retenção de Talentos
Engenheiros
e cientistas altamente qualificados são disputados globalmente. O Brasil
precisa criar condições para que os melhores talentos permaneçam no País e
atuem na indústria de defesa nacional. Isso inclui bolsas robustas durante a
formação, salários competitivos após a graduação e ambientes de trabalho
estimulantes tecnicamente. O caso da UFSM indica que profissionais formados em
projetos de defesa podem ser rapidamente absorvidos pelo mercado, inclusive
internacional. Programas de retenção de talentos, com carreiras atrativas nas
Forças Armadas, em empresas da BIDS e em centros de pesquisa, são essenciais
para manter no País a massa crítica de profissionais qualificados.
11 CONSIDERAÇÕES FINAIS: O SILÊNCIO
QUE COMPROMETE A SOBERANIA
As
lacunas matemáticas que chegam silenciosamente à Universidade brasileira
representam, para a indústria de defesa, um problema estrutural. Esse silêncio
é ensurdecedor. Ele representa a impossibilidade de formar, em quantidade e
qualidade suficientes, os engenheiros, físicos, matemáticos e técnicos
necessários para sustentar uma indústria de defesa competitiva e autônoma.
Enquanto
outros Países tratam a educação em ciências exatas como questão de segurança
nacional, o Brasil segue improvisando, remendando e celebrando acessos sem
profundidade. O resultado não aparece nos índices de matrícula, mas nas
limitações de projetos, nos atrasos tecnológicos, na dependência externa e, em
última instância, na fragilidade estratégica.
O
drama não é apenas pedagógico. É econômico e civilizatório. Um País que forma
engenheiros sem álgebra sólida, professores sem domínio conceitual e
profissionais que operam fórmulas sem compreendê-las compromete sua própria
capacidade de inovação, produtividade e autonomia tecnológica.
Mas
este estudo também revela uma verdade fundamental: o Brasil sabe fazer educação
de qualidade em ciências exatas. Os colégios Embraer formam engenheiros de
excelência. Os Colégios Militares conquistam centenas de medalhas na OBMEP.
Escolas Públicas do interior do Ceará, Alagoas e Pernambuco alcançam nota 10 no
IDEB. Escolas particulares brasileiras têm desempenho no PISA comparável aos
melhores Países europeus. A parceria Taurus-UNISINOS mostra que Universidade e
indústria podem formar profissionais altamente qualificados juntas. A parceria
UFSM-Exército demonstra que é possível desenvolver tecnologia 100% nacional de
ponta e, simultaneamente, formar a massa crítica de profissionais que o País
necessita.
O
problema não é falta de conhecimento sobre como fazer, mas falta de vontade
política de universalizar o que já funciona. Enquanto ilhas de excelência
prosperam, o sistema como um todo naufraga, empurrando milhões de estudantes
adiante sem domínio real do conteúdo. É uma escolha, consciente ou não, de
manter dois Brasis educacionais: um que forma para a excelência, outro que
aprova para o fluxo.
Para
a indústria de defesa, essa dualidade é insustentável. Não é possível construir
soberania tecnológica e autonomia estratégica com uma base educacional
fraturada. Submarinos nucleares, aeronaves de combate, sistemas de mísseis,
guerra eletrônica, cibersegurança e simulação militar exigem massa crítica de
profissionais altamente qualificados. Ilhas de excelência não bastam; é preciso
um arquipélago, depois um continente.
Em
matemática não se pode fingir que aprendeu. E uma indústria de defesa não
funciona com profissionais que apenas fingiram dominar as bases técnicas que a
sustentam. O Brasil precisa escolher: continuar expandindo sem consolidar,
mantendo a dualidade que condena a maioria ao fracasso, ou replicar
nacionalmente o que já funciona em suas ilhas de excelência.
O
modelo existe. As evidências estão à vista. A tecnologia pedagógica está
dominada. Os casos de sucesso estão documentados e operando. Falta apenas a
decisão política de tratá-los como prioridade estratégica nacional – não apenas
educacional, mas de segurança, soberania e desenvolvimento. O tempo dessa
escolha, porém, está se esgotando. Cada leva de estudantes que passa pelo
sistema sem dominar matemática é uma geração de engenheiros, cientistas e
técnicos que o País não terá. E sem eles, a indústria de defesa brasileira
permanecerá eternamente aquém de seu potencial. O caminho a ser seguido está
mostrado. Resta ao Brasil a decisão de trilhá-lo em escala nacional.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura
do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul;
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar
do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da
Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)
E-mail: [email protected].
Link: https://www.youtube.com/results?search_query=%22Hiram+Reis+e+Silva%22
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