Sábado, 23 de maio de 2026 - 07h45

Quando a tarde começar a cair neste domingo de Pentecostes, estará chegando ao fim a mais longa manifestação religiosa brasileira, que se realiza desde 1894, e que desde há muitos anos passou a ter caráter binacional, como gostam de dizer os brasileiros e bolivianos moradores dos dois lados do Rio Guaporé, que, no dizer do escritor guajaramirense Paulo Saldanha, “é um rio que mais une do que divide quem nasceu por ali”.
Desde quarta-feira, como é a tradição, os símbolos da Festa do Senhor do Divino Espírito Santo – a Coroa, a Bandeira e o Cetro, estão em Nova Brema, última etapa da procissão fluvial iniciada no Dia de Páscoa, quando, após a Missa Solene na sede da Irmandade do Divino, em Costa Marques, saiu dali o barco levando ao lado a igarité do Divino e os personagens que durante 50 dias percorreram dezenas de cidades, vilas e fazendas dos dois lados do Guaporé.
Ao fim da tarde deste Dia de Pentecostes, domingo, será realizada a derrubada do Mastro do Divino em Nova Brema (BOL) e anunciadas as autoridades da Festa que vai acontecer ano que vem, tendo como sede a vila de Piso Firme, localidade também boliviana situada no Rio Paraguá, afluente do Guaporé.
EM 2004

Assistir a uma etapa da Festa do Divino no Guaporé é tomar uma lição de civilidade, respeito e tradição, mas de muita fé traduzida pelas música próprias, nos “velórios” – noites inteiras cantando, mas o que mais me chamou sempre a atenção foi o grupo formado pelos “promesseiros”, muitos deles, em cada local, indo receber a igarité com as autoridades e os símbolos da Festa com meio corpo dentro d’água, ainda que esteja chovendo ou, como em 2004 em Piso Firme quando a temperatura estava em 11 graus.
Naquele ano, a serviço da Assembleia Legislativa fomos – eu, um cinegrafista e um fotógrafo, num barco com o também funcionário da Assembleia o historiador Matias Mendes e o ex-deputado Walter Bartolo, ambos importantes membros da Irmandade do Divino colher dados para a elaboração de um vídeo, ficando uns 15 dias seguindo a Festa.
Eu já estivera, como repórter, em várias edições mas nunca ficara mais que um dia, às vezes menos, o que não dava para sentir a importância religioso-cultural daquele evento. Em 2004 eu tive a oportunidade de ver a emoção, o respeito, a história, a transmissão cultural e a atenção que observei daquelas comunidades onde dom Rey, o bispo que muitos chamavam, e ainda chamam, de santo, já proclamava e que o levou, em 1932, a reestruturar a Festa.
Quando falo, fora de Rondônia e aqui mesmo, da Festa do Divino do Guaporé, uma pergunta comum: “Temos a Festa do Divino em todo o Brasil e qual a grande diferença daqui para as outras?”.
Há muitas, mas prendo-me a algumas: “A nossa não tem luta de mouros e cristãos, dura 50 dias, acontece em quase 50 comunidades e é totalmente fluvial”.
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