Quarta-feira, 8 de agosto de 2018 - 10h02

Lúcio Albuquerque, repórter
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Não é preciso entender muito de jornalismo e de técnica de entrevistas para saber quando alguém, jornalista ou travestido como tal, participa de um debate ou de um programa que tem cunho jornalístico e vêm já com o produto pronto, com questionamentos que buscam não o interesse público, mas destruir um alvo, no caso o alvo de seus questionamentos.
Na semana passada assisti às entrevistas feitas pelo Roda Viva com o candidato Bolsonaro e na Globo News com três dos cinco que foram sabatinados por jornalistas “da casa”. Fazia tempo que não via uma coisa tão distorcida como vi no caso do Bolsonaro, cujo grande pecado parece ser dizer ao vivo aquilo que, em “off”, muitos dos que o criticam dizem sem ter a coragem de dizer em público, talvez até para garantir benesses ou empregos.
Para estudantes de Jornalismo, ou para quem está começando na profissão, foi uma péssima aula, ainda mais porque é comum alguns dos personagens do outro lado da bancada serem citados como nomes importantes na profissão. É de se perguntar, como faz a Rede Globo diariamente, “que Brasil querem os que participaram no Roda Viva e no Globo News”?
Qualquer pessoa minimamente interessada em ouvir propostas de candidatos, ainda mais ao posto maior da República, imagina que bancadas destinadas a “espremer” o pretendente busquem informações sobre que soluções possam ser pensadas por ele para questões que aflijam a sociedade. Mas a coisa, no caso do candidato que lidera a corrida ao Planalto, ficou tão bagunçada que qualquer pessoa com mínimo senso crítico percebeu que isso era o que menos interessava aos da bancada.
Pior: os dois programas mostraram que, acima da profissão e da responsabilidade que deve ter quem seja ouvido por milhões de pessoas, estava o nítido interesse em ligar o candidato a um, passado histórico pela sua origem militar. Os das bancadas pareciam estarem satisfeitos com o triste espetáculo que se vê atualmente, em que há falência total do Estado como instituição maior conforme a Constituição e com responsabilidades que a cada dia ficam mais distantes dos direitos que a própria Constituição define como direitos fundamentais do cidadão.
Mas, pior mais ainda, foi o constrangimento da âncora do programa da Globo News tendo de repetir, palavra a palavra uma nota feita a partir de um editorial que há cinco anos a empresa alegava que teria errado ao apoiar o movimento de 1964, ocasião em que um editorial da empresa elogiava a ação daquele ano. O editorial de 2013 e lido pela âncora, não se deu ao trabalho bem de reconhecer que foi justamente aquele movimento que permitiu à empresa o gigantismo que ocupa atualmente, e cuja programação é seguidamente criticada pelo aparelhamento do que é levado às telinhas.
Sem dúvida: quem assistiu aos dois programas perdeu tempo e sono. No mínimo.
Considere-se dito!
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