Terça-feira, 26 de maio de 2026 - 12h45

Não há,
no mundo contemporâneo, como fugir da tecnologia e de seus avanços. Pouco
importa a resistência subjetiva de cada um: as inteligências artificiais já se tornaram
presença ordinária na vida cotidiana. Estão nos aplicativos de transporte, nos
mecanismos de busca, nos mapas, nas recomendações de consumo, nos sistemas de
atendimento, nas ferramentas de escrita, nas imagens, nos vídeos, nas traduções
e até nas pequenas decisões que organizam a rotina. Em muitos casos, quando
falta uma palavra, uma estrutura, uma síntese ou uma solução rápida, recorremos
ao Google, ao Gemini, ao ChatGPT, ao Claude ou a alguma ferramenta equivalente.
A IA deixou de ser promessa distante. Passou a ser uma infraestrutura
silenciosa da experiência contemporânea.
Essa
presença, entretanto, não deve ser confundida automaticamente com
democratização plena da comunicação, nem com um novo renascimento criativo,
como alguns preferem anunciar com entusiasmo quase publicitário. A inteligência
artificial é uma ferramenta extraordinária, mas continua sendo ferramenta. Como
toda tecnologia de grande impacto, ela entrega soluções e inaugura problemas.
Amplia capacidades, mas também desloca competências. Facilita processos, mas
fragiliza funções antes consideradas estáveis. Em termos econômicos e sociais,
não apenas cria novas ocupações: também enfraquece, substitui ou reconfigura
formas inteiras de trabalho. E, no caso da IA generativa, há um ponto ainda
mais delicado: sua capacidade de abalar a própria ideia de autenticidade.
Tomemos a
criação de uma música. Ela pode nascer de uma letra fornecida a uma ferramenta
generativa, de um trecho cantarolado pelo usuário, de uma sequência de notas
sugerida por ele ou de um simples comando escrito em linguagem natural. Nesse
cenário, quem é o autor? A pessoa que teve a intenção inicial? A máquina que
combinou padrões? A empresa que desenvolveu o sistema? Ou o conjunto invisível
de obras, dados e referências que alimentou o modelo? A resposta não é simples,
porque a criação passa a ocorrer numa zona intermediária entre intenção humana,
memória tecnológica e recombinação algorítmica.
Há quem
sustente que nada produzido por IA pode ser verdadeiramente autêntico, pois
sistemas artificiais não possuem consciência, experiência vivida, dor, desejo,
memória existencial ou interioridade. Sob esse ponto de vista, a autenticidade
não seria apenas resultado formal, mas expressão de uma presença humana
concreta. Uma obra poderia ser tecnicamente eficiente, esteticamente
convincente e até emocionalmente persuasiva, mas ainda assim careceria de
origem interior. Seria uma aparência de criação, não uma criação no sentido
pleno.
Por outro
lado, também se pode argumentar que a intenção humana permanece decisiva. Sem o
impulso de quem pede, orienta, escolhe, corrige, rejeita, combina e finaliza,
aquela obra específica talvez nunca existisse. A IA, nesse caso, funcionaria
como extensão de capacidade, não como substituta integral da autoria. Assim
como a câmera não eliminou o olhar do fotógrafo, e o software de edição não
anulou o diretor, a IA talvez não elimine necessariamente o criador. Ela apenas
desloca o centro da criação para uma relação mais complexa entre comando,
curadoria, repertório e decisão.
A
questão, portanto, não é apenas técnica. É cultural, moral e institucional. A
autenticidade importa porque sustenta a confiança. Em sociedades já marcadas
pela desconfiança nas instituições, pela manipulação narrativa e pela erosão dos
critérios de verdade, a expansão de conteúdos artificiais pode aprofundar a
sensação de impessoalidade. Quando não se sabe se uma mensagem nasceu de uma
consciência real ou de um sistema treinado para simular presença, a comunicação
corre o risco de perder densidade humana. O problema não é apenas a IA produzir
textos, imagens ou vozes. O problema é a dissolução gradual da diferença entre
presença e simulação.
Ainda
assim, a experiência cotidiana revela ambiguidades. Há pessoas que percebem
nitidamente a frieza de certos conteúdos gerados por IA. Outras, porém,
encontram em agentes artificiais uma forma de diálogo mais paciente, mais
organizada e até mais acolhedora do que aquela oferecida por muitos
interlocutores humanos. Uma amiga querida, por exemplo, conversa com um agente
de IA que atua como professor de inglês e sente que ele a compreende melhor do
que seu próprio psicólogo. O exemplo pode parecer desconcertante, mas expõe um
ponto central: a autenticidade, para muitos, já não depende apenas da origem da
mensagem, mas do efeito subjetivo que ela produz.
Esse
deslocamento aparece também no trabalho intelectual e profissional. O
economista Ricardo Amorim, em palestra recente, afirmou que suas apresentações
melhoraram com o uso de ferramentas de IA, especialmente na preparação de
gráficos, análises e materiais visuais. Ninguém deixará de reconhecer aquelas
palestras como dele apenas porque parte da execução foi auxiliada por sistemas
artificiais. A autoria, nesse caso, permanece associada à visão, à seleção, à
responsabilidade e ao uso inteligente da ferramenta. A IA eleva a entrega, mas
não substitui necessariamente o juízo humano que dá direção ao conjunto.
O mesmo
raciocínio pode ser levado à moda, ao design, à arquitetura, à publicidade, à
música, ao jornalismo e às artes visuais. Se um criador de prestígio
internacional desenvolve modelos com auxílio de IA, o público provavelmente
continuará atribuindo a ele a autoria, desde que reconheça coerência estética,
intenção criativa e responsabilidade pelo resultado final. A confiança no nome,
na trajetória e na assinatura ainda pesa. Contudo, à medida que o uso da IA se
generaliza e raramente é declarado, torna-se cada vez mais difícil distinguir o
que nasceu de elaboração direta, de colaboração tecnológica ou de mera
terceirização algorítmica.
É nesse
ponto que a discussão sobre direitos autorais, crédito e transparência se torna
inevitável. A sociedade precisará redefinir o que entende por criação, autoria,
originalidade e autenticidade. Não será suficiente repetir categorias antigas
diante de instrumentos que alteram o processo criativo desde a origem. Também
não será sensato demonizar a tecnologia como se ela fosse intrinsecamente
fraudulenta. O desafio está em reconhecer a potência da ferramenta sem abdicar
da responsabilidade humana por seu uso.
Talvez a
conclusão mais honesta seja admitir que a autenticidade nunca foi uma pureza
absoluta. Toda criação humana nasce de influências, memórias, imitações,
referências e recombinações. A diferença é que a IA torna esse processo mais
acelerado, opaco e industrializado. Ela revela, com brutal clareza, algo que o
ego artístico muitas vezes prefere esquecer: há menos novidade debaixo do sol
do que gostaríamos de admitir. A originalidade absoluta talvez seja rara; a responsabilidade
pela intenção, pela escolha e pelo sentido, porém, continua sendo profundamente
humana.
Assim, a
pergunta decisiva não é apenas se uma obra feita com IA é autêntica. A pergunta
mais séria é quem responde por ela. Quem assume sua intenção, seus limites,
suas consequências e sua verdade possível? Se houver consciência, curadoria,
responsabilidade e transparência, a IA pode ampliar a criação sem destruí-la.
Mas, se for usada para mascarar vazio, simular profundidade ou substituir
discernimento por aparência, então não estaremos diante de uma nova
autenticidade. Estaremos apenas diante de uma ilusão tecnicamente bem
produzida.
(*) É
doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental, economista, escritor e poeta.
Fonte: https://oticadarazao.com/the-illusion-of-authenticity-creation-and-work/.
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