Domingo, 7 de agosto de 2011 - 18h43
Silvio Persivo (*)
É claro que o loteamento político dos cargos entre os partidos, a unção à chefia de cargos de pessoas desqualificadas, a corrupção, o apadrinhamento, o nepotismo e o uso privado dos recursos públicos não são criações do Partido dos Trabalhadores,nem da presidente Dilma, mas, a república sindical estabelecida por Lula da Silva,com o amordaçamento e eliminação de qualquer oposição consistente,permitiu que estes vícios históricos se alargassem e se tornassem grandes barreiras à boa gestão pública. A imprensa tem sido o último baluarte de oposição e, sejamos claros, não por não estar também atrelada ao governo (as verbas e patrocínios bem distribuídos tornam também a cumplicidade dela evidente), porém, pela desfaçatez que passou a existir,a partir do fato de Lula ter escondido o Mensalão debaixo do tapete. Muitos, a partir daí, com a falta de princípios que o caracterizam passaram a considerar normal o que se tem como desonesto. Afinal “se todo mundo faz”... O resultado é que se acumularam as práticas e as evidências explodiram no colo da atual presidente.
É fato que as denúncias são recentes dos desvios nos ministérios dos Transportes, Agricultura e Cidades. Porém, são práticas novas? De forma alguma. Como comprovam a constatação de que os dirigentes destes órgãos não são novatos na função. São todos parte do antigo esquema de Lula que partidarizou a máquina pública e ofereceu a alguns feudos que serviam a fins nada republicanos. São estas velhas práticas que, hoje, emparedam as ações do governo federal e deixam a presidente Dilma Rousseff numa encruzilhada. Principalmente, pela razão de que,ao assumir o papel de “faxineira”,foi ela mesma que defenestrou o esquema do Ministério dos Transportes. E a grande verdade é que conseguiu também o feito de fazer com que os próprios peemedebistas brigassem,como foi o caso de Michel Temer e o senador Romero Jucá,ambos seriamente atingidos pelos estilhaços do escândalo do Ministério da Agricultura. Para significativos setores políticos, em especial algumas velhas raposas da política, Dilma quer refazer o governo rifando seus aliados e, por tal razão, já se observam sinais de que haverá troco.
A presidente segue seu projeto de limpeza, mas, como esta somente atingiu, até agora, os outros partidos, qualquer nova ação que for feita terá profundos efeitos colaterais. A demissão de 27 funcionários da cúpula dos Transportes mostra que, ao contrário de Lula, Dilma não quer conviver com a suspeita de corrupção em seu governo e não hesitou em queimar seu principal auxiliar, Antonio Palocci, quando necessário, porém, é preciso acentuar que quase todas as áreas sob comando de aliados políticos seguem um padrão similar de preenchimento de cargos. Se a limpeza começar a ser feita de fato o resultado tanto pode ser de paralisia do governo, que não já não prima pela eficiência, e até mesmo da queda por falta de sustentação política. Portanto, Dilma tem pela frente um desafio gigantesco: compatibilizar as composições políticas com a necessidade de manter o rumo, a imagem e a consistência do governo. O grande problema é o de que o nosso sistema de governo é um presidencialismo de coalizão, um sistema em que o Poder Executivo divide espaços nos ministérios com aliados no Legislativo. A lógica que suporta esta distribuição de forças, porém, no governo atual está sendo muito distorcida contra os aliados que ainda veem no comportamento da presidente uma forma sutil de surrupiar o poder que possuem em prol do PT. Dilma, para ter sucesso, terá que mudar sem provocar os efeitos colaterais que farão explodir os aliados de seu próprio partido. Até onde terá tal habilidade política reside o resultado de seu movimento para sair da inércia em que o governo se encontra e buscar novos caminhos para o país.
(*) É economista e Doutor em desenvolvimento sustentável pelo Núcleos de Altos Estudos Amazônicos-NAEA da Universidade Federal do Pará.
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Fonte: Sílvio Persivo - [email protected]
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