Sábado, 2 de maio de 2026 - 08h01

Embora,
por razões que demonstram os interesses envolvidos, razão pela qual a imprensa
brasileira pouco tem divulgado, o grande escândalo recente das acusações
envolvendo o Southern Poverty Law Center (SPLC) não são apenas mais um
escândalo financeiro nos Estados Unidos. Elas tocam em um ponto sensível e cada
vez mais relevante nas democracias contemporâneas: quem define o que é
“extremismo” e com quais interesses.
Foi
verificado que a SPLC, posicionada como referência no combate ao racismo e aos
grupos de ódio, financiava, de forma indireta e encoberta, indivíduos ligados
justamente a organizações como a Ku Klux Klan e a National Alliance. Ou seja:
alimentavam o fenômeno que sustentava sua própria existência institucional. Mas
há um aspecto ainda mais controverso -e politicamente explosivo. Críticos do
SPLC afirmam que, ao longo dos anos, a entidade ampliou de forma significativa
o conceito de “extremismo”, passando a incluir não apenas grupos violentos, mas
também organizações conservadoras, religiosas e pró-família. Em alguns casos,
associações de mães e de católicos tradicionalistas foram enquadrados como
ameaças ideológicas, o que levanta dúvidas sobre a objetividade dos critérios usados.
Esta expansão conceitual não é trivial. Ao rotular determinadas posições morais
ou culturais como “extremistas”, cria-se um ambiente em que divergência
política pode ser reinterpretada como risco social. O efeito prático é a
deslegitimação de vozes dissidentes- não pelo debate de ideias, mas pela
classificação. Basta pensar, por exemplo, chamar alguém de nazista!
As
declarações do procurador interino Todd Blanche reforçam a gravidade do caso.
Ao afirmar que a organização “fabricava o racismo que alegava combater”, ele
sugere não apenas irregularidades financeiras, mas a possível instrumentalização
de uma narrativa para sustentar poder político, influência institucional e
arrecadação bilionária. Este tipo de dinâmica não é exclusivo dos Estados
Unidos. No Brasil, observa-se um movimento semelhante - ainda que com
características próprias- no qual determinados grupos e correntes de pensamento
são rapidamente associados a rótulos como “extrema direita” ou
“antidemocráticos”, muitas vezes sem distinções claras entre posições
conservadoras legítimas e discursos efetivamente radicais.
A consequência
é um ambiente de crescente polarização, no qual o debate público perde
densidade e se torna refém de classificações simplificadoras. Em vez de
discutir ideias, discute-se identidades políticas previamente rotuladas. E, neste
processo, instituições, plataformas digitais e até mecanismos de regulação
passam a exercer um papel cada vez mais ativo na filtragem do que pode ou não
ser dito. Sem contar que, sob a justificativa de proteger a sociedade, se
passa, na prática, a censurar as redes sociais e impedir a livre expressão do
pensamento. Pior ainda: criando o medo de ser perseguido ao expressar suas
opiniões.
O caso do
SPLC, portanto, vai além de um possível escândalo financeiro. Ele expõe um
modelo de atuação que combina três elementos poderosos: produção de narrativas,
influência política e capacidade de mobilização financeira. Um modelo que
transforma a denúncia em instrumento e o discurso moral em ativo estratégico. Em
última instância, a questão que se impõe é clara: quando o combate ao extremismo
deixa de ser um compromisso legítimo e passa a ser uma ferramenta de poder? A
resposta, seja nos Estados Unidos, ou no Brasil, define os limites entre
proteção democrática e controle ideológico- uma linha tênue que, uma vez
ultrapassada, dificilmente é restabelecida com facilidade. E, não se pode
negar, que no Brasil tem sido, repetidamente, ultrapassada. É claro que, com
boas justificativas, pois aos lobos não custa muito vestir peles de cordeiro.
(*) É
doutor em Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos da
Amazônia-NAEA da UFPA.
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