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Silvio Persivo

As narrativas do poder: o escândalo do SPL e seus ecos


As narrativas do poder: o escândalo  do SPL e seus ecos - Gente de Opinião

Embora, por razões que demonstram os interesses envolvidos, razão pela qual a imprensa brasileira pouco tem divulgado, o grande escândalo recente das acusações envolvendo o Southern Poverty Law Center (SPLC) não são apenas mais um escândalo financeiro nos Estados Unidos. Elas tocam em um ponto sensível e cada vez mais relevante nas democracias contemporâneas: quem define o que é “extremismo” e com quais interesses.

Foi verificado que a SPLC, posicionada como referência no combate ao racismo e aos grupos de ódio, financiava, de forma indireta e encoberta, indivíduos ligados justamente a organizações como a Ku Klux Klan e a National Alliance. Ou seja: alimentavam o fenômeno que sustentava sua própria existência institucional. Mas há um aspecto ainda mais controverso -e politicamente explosivo. Críticos do SPLC afirmam que, ao longo dos anos, a entidade ampliou de forma significativa o conceito de “extremismo”, passando a incluir não apenas grupos violentos, mas também organizações conservadoras, religiosas e pró-família. Em alguns casos, associações de mães e de católicos tradicionalistas foram enquadrados como ameaças ideológicas, o que levanta dúvidas sobre a objetividade dos critérios usados. Esta expansão conceitual não é trivial. Ao rotular determinadas posições morais ou culturais como “extremistas”, cria-se um ambiente em que divergência política pode ser reinterpretada como risco social. O efeito prático é a deslegitimação de vozes dissidentes- não pelo debate de ideias, mas pela classificação. Basta pensar, por exemplo, chamar alguém de nazista!

As declarações do procurador interino Todd Blanche reforçam a gravidade do caso. Ao afirmar que a organização “fabricava o racismo que alegava combater”, ele sugere não apenas irregularidades financeiras, mas a possível instrumentalização de uma narrativa para sustentar poder político, influência institucional e arrecadação bilionária. Este tipo de dinâmica não é exclusivo dos Estados Unidos. No Brasil, observa-se um movimento semelhante - ainda que com características próprias- no qual determinados grupos e correntes de pensamento são rapidamente associados a rótulos como “extrema direita” ou “antidemocráticos”, muitas vezes sem distinções claras entre posições conservadoras legítimas e discursos efetivamente radicais.

A consequência é um ambiente de crescente polarização, no qual o debate público perde densidade e se torna refém de classificações simplificadoras. Em vez de discutir ideias, discute-se identidades políticas previamente rotuladas. E, neste processo, instituições, plataformas digitais e até mecanismos de regulação passam a exercer um papel cada vez mais ativo na filtragem do que pode ou não ser dito. Sem contar que, sob a justificativa de proteger a sociedade, se passa, na prática, a censurar as redes sociais e impedir a livre expressão do pensamento. Pior ainda: criando o medo de ser perseguido ao expressar suas opiniões.

O caso do SPLC, portanto, vai além de um possível escândalo financeiro. Ele expõe um modelo de atuação que combina três elementos poderosos: produção de narrativas, influência política e capacidade de mobilização financeira. Um modelo que transforma a denúncia em instrumento e o discurso moral em ativo estratégico. Em última instância, a questão que se impõe é clara: quando o combate ao extremismo deixa de ser um compromisso legítimo e passa a ser uma ferramenta de poder? A resposta, seja nos Estados Unidos, ou no Brasil, define os limites entre proteção democrática e controle ideológico- uma linha tênue que, uma vez ultrapassada, dificilmente é restabelecida com facilidade. E, não se pode negar, que no Brasil tem sido, repetidamente, ultrapassada. É claro que, com boas justificativas, pois aos lobos não custa muito vestir peles de cordeiro.

(*) É doutor em Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia-NAEA da UFPA.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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