Sábado, 11 de abril de 2026 - 11h25

Apesar
dos esforços oficiais e do volume expressivo de recursos destinados à
comunicação institucional, os indicadores mais recentes revelam um quadro
persistente de fragilidade na economia brasileira, especialmente no que diz
respeito às finanças das famílias. A realidade concreta tem se imposto sobre o
discurso, evidenciando que os desafios estruturais permanecem longe de uma
solução consistente. Não se trata apenas de comunicação, mas de problemas
estruturais que não são enfrentados pelo atual governo como a questão dos
gastos públicos e da inflação.
Dados da
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, por meio da
Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), mostram que, em
março de 2026, o percentual de famílias endividadas atingiu 80,4%- o maior
nível da série histórica. Além disto, o comprometimento médio da renda com
dívidas chegou a 29,6%, indicando que quase um terço dos rendimentos familiares
está direcionado ao pagamento de obrigações financeiras.
Este
quadro é corroborado por informações do Banco Central do Brasil, que apontam
que, em janeiro de 2026, a dívida das famílias correspondia a 49,7% da renda
acumulada - patamar muito próximo do recorde histórico de 49,9%, registrado em
julho de 2022, período fortemente impactado pelos efeitos da pandemia da
Covid-19. A persistência desses níveis elevados evidencia que o problema não é
conjuntural, mas estrutural. Embora haja um movimento de redução da taxa básica
de juros (Selic), seus efeitos sobre o orçamento das famílias tendem a ser
limitados no curto prazo. Isto se deve, em grande medida, ao elevado custo do
crédito na ponta, que continua onerando consumidores e dificultando a
recomposição financeira. Na prática, muitas famílias permanecem dependentes de
empréstimos para cobrir despesas correntes, perpetuando um ciclo de
endividamento que se retroalimenta.
Este
comportamento revela um descompasso entre a teoria e a prática da educação
financeira. Ainda que haja consciência generalizada sobre a importância de
controlar gastos, priorizar dívidas mais caras e renegociar compromissos, a
pressão do dia a dia leva ao uso recorrente do crédito como solução imediata. O
resultado é a ausência de planejamento de longo prazo e o agravamento do
desequilíbrio financeiro, mesmo em um cenário de juros em trajetória de queda. O
que deveria ser um processo básico-como o controle sistemático de receitas e
despesas, a definição de metas e a eliminação de gastos supérfluos-acaba não se
concretizando para grande parte da população. Sem esses fundamentos, torna-se
praticamente inviável reabrir espaço no orçamento e retomar o equilíbrio
financeiro.
A
situação se torna ainda mais complexa quando se observa o contexto fiscal. O
aumento dos gastos públicos, frequentemente superior à arrecadação, tem levado
à adoção de medidas paliativas, como a ampliação de programas de transferência
de renda. Estudo da DataBrasil aponta que, ao final de 2025, cerca de 894,9 mil
famílias adicionais passaram a receber ao menos um salário mínimo mensal em
benefícios sociais. Embora tais iniciativas tenham relevância social imediata,
sua expansão sem o devido enfrentamento das causas estruturais tende a gerar
efeitos colaterais, como o aumento da pressão fiscal e a manutenção de um
ambiente econômico instável. Em outras palavras, trata-se de um esforço que
mitiga sintomas, mas não resolve o problema de origem.
O
cenário, portanto, exige mais do que ações pontuais. Requer disciplina fiscal,
melhoria no ambiente de crédito, estímulo à renda sustentável e, sobretudo, uma
agenda consistente de educação financeira. Sem esses pilares, o país continuará
convivendo com níveis elevados de endividamento, comprometendo não apenas o
bem-estar das famílias, mas também o potencial de crescimento da economia como
um todo.
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