Terça-feira, 16 de junho de 2026 - 07h55

A
primeira Copa do Mundo da qual me lembro foi a de 1958. O Brasil
foi campeão com um time que a maioria dos que ainda estão vivos - e assistiu-
sabe que era fantástico. E confesso: eu até rio quando falam
que Gilmar não teria sido um grande goleiro. Qua! Qua! A
comparação daquele tempo era com Yashin, o Aranha Negra, talvez o
maior goleiro que já existiu, capaz de pegar o impensável. Ora, se o parâmetro
era este, é porque o futebol era outro patamar. Havia o domínio completo de
todos os fundamentos.
E aquele
Brasil não era grande por um nome apenas. Havia um De Sordi,
um Bellini, um Djalma Santos, um Zózimo,
um Zito, um Nilton Santos. E, adiante, o
espetáculo: Didi, Vavá, Mazzola, Garrincha, Pelé. Não era um time;
era uma aula.
Em 1962,
então, Garrincha fez todo mundo de João. Foi uma Copa em que um
craque parecia dobrar as leis do jogo. E afirmo sem exagero: ninguém
mais fará uma Copa como aquela. Não porque faltará talento, mas porque o
futebol mudou de forma, de ritmo e de lógica.
A Copa
de 70 ficou-e a técnica foi ficando para trás
Hoje,
quando se fala em seleção, quase todo mundo corre para 1970. É
compreensível. Foi um marco. Mas, de lá para cá, o futebol vem se equalizando:
perde-se qualidade em fundamentos para ganhar força,
intensidade e volume físico. O jogo ficou mais rápido, mais pressionado,
mais coletivo- e, por isso mesmo, mais “parecido” entre as seleções.
Houve
exceções raras, evidentemente. Ronaldinho, que sabia tudo dos
fundamentos como se tivesse nascido com uma bola colada no pé. Zico,
que se matou para saber, estudando e aperfeiçoando o que muitos tratam como
“dom”. E mesmo craques extraordinários como Ronaldo e Romário -gênios
do que faziam- pecaram em certas bases técnicas ao longo da
carreira. Até por serem tão excepcionais, por terem visão notável do
jogo, foram louvados até quando erravam.
Louvaram
Romário, por exemplo, fazendo gol de bico! Não que fazer gol seja
pouco ´-gol é gol-, mas o ponto é outro: quando a idolatria vira desculpa, a
análise morre. E, quando a análise morre, quem nasce é a certeza vazia.
A
ignorância é cruelmente ousada
Esta
lembrança toda é uma introdução complicada para uma questão simples: a
ignorância é cruelmente ousada.
Basta ver
como tratam, agora, Carlo Ancelotti. Um treinador que ganhou tudo-e
só falta dizerem que ele “não entende de nada”, que “nunca soube nada” sobre
futebol. Isto não é crítica; é alarmante. É sintoma de uma época em
que se comenta futebol com o mesmo método com que se torce: pelo impulso, não
pelo que aconteceu no campo.
E a falta
de compreensão do futebol atual se revela em frases prontas, repetidas como
mantra: “ninguém joga nada”, “acabou”, “é o fim do mundo”. O Brasil empatou
com Marrocos (de quem já havia perdido), e parece que o
planeta vai sair do eixo. Não se analisa o que aconteceu no jogo, o
contexto, o plano, o que funcionou e o que falhou. Só se enxerga o que se
deseja enxergar.
O
futebol globalizou e pasteurizou: todo mundo está perto
A
realidade é direta: todos estão muito parecidos. O futebol
está globalizado e, em certa medida, pasteurizado.
O que antes era “assinatura” de uma escola nacional hoje é parte de um
repertório mundial: organização, transição, pressão, compactação, bola parada
ensaiada, preparação física. Neste cenário, não é absurdo dizer que o
Japão pode ser campeão e não assustar ninguém. Como a Costa do
Marfim pode ganhar. Porque o esporte, do jeito que está, permite que
um time bem treinado, intenso e coeso derrube nomes maiores. A Espanha não
conseguiu fazer im gol em
O erro
está em analisar 2026 como se fosse 1970. Não é. Antes, o Brasil juntava
individualidades e, quase por gravidade, era candidato ao título. Hoje é
o tempo dos atletas, da intensidade, do conjunto.
Ancelotti
não é mágico - mas entende o que poucos entendem
Ancelotti
não é mágico. Não entra em campo. Não faz o passe, não ganha a dividida, não
acerta o chute. Mas entende muito de futebol. E pouca gente -nem
falo do bando de “sem noção” que o critica- entende, de fato, o jogo a ponto de
fazer o que ele faz: gerir elenco, tomar decisões sob pressão, construir
equipe, ajustar sistemas, ler o adversário, competir em alto nível repetidas
vezes.
Por isso,
pelo amor de Deus: bom senso.
O
Brasil pode ganhar? Pode. É provável? Talvez não- mas sempre é possível
O Brasil
tem jogadores de muita qualidade e pode ganhar, sim, a Copa. É
provável? Eu penso que não. E eu já pensava isto antes de Ancelotti.
Porque hoje não se junta um punhado de individualidades e se ganha de quem tem
conjunto. O jogo contra Marrocos prova isto- e, ainda assim, fomos bem dentro
do que o futebol moderno exige: organização, reação, disputa.
Se alguém
pode nos levar a vencer, é Ancelotti. Mas não depende só dele-nem
do que a imprensa diz, nem do que grita o coro dos apressados. Como disse o
treinador, não se ganha uma Copa num jogo, embora se ganhe no
último.
A loucura
é pensar que, quando se perde ou se ganha, o time deixa de ter bons jogadores-
ou passa a ter- como num passe de mágica. O Brasil não pode ser guiado pela
emoção do momento. Tem que esperar a bola rolar, observar o caminho, entender o
processo. Porque fácil não será para ninguém.
E talvez
esta seja a grande lição: se antes vencíamos pela genialidade que sobrava, hoje
só venceremos se juntarmos qualidade com aquilo que o mundo inteiro aprendeu a
fazer bem- coletivo, intensidade, maturidade. A saudade de 58, 62 e
70 é legítima. Mas o futuro não se conquista com nostalgia. Se conquista com
lucidez. Com esforço, com dedicação e com uma mágica que a equipe brasileira
pode criar ou não. Mas, é absurdo cobrar que, por mágica, eles tenham conjunto
sem um grande tempo de jogarem juntos. Muita calma nesta hora pode ser um bom
conselho.
(*) O
comentarista de “Um Estranho no Ninho” (https://spersivo.blogspot.com/).
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