Domingo, 24 de novembro de 2013 - 21h09
Silvio Persivo (*)
O Brasil, apesar de ter avançado em muitos pontos, passa por uma crise sem precedentes na sua história. As suas elites atuais (inclusive as que dizem ou mesmo até pensam que não são elites) se mostram incapazes de criar um projeto viável para o País. O que se lê (ou vê e ouve) no noticiário reflete a pobreza das expectativas e da mais completa falta de visão futura: são manchetes de crimes, a discussão tediosa e inútil sobre os mensaleiros ou a falsa polêmica criada em torno de um cartel do passado, talvez, gerada para distrair dos crimes presentes. Tudo uma fuga da realidade, da necessidade que o país impõe de mudar, de se atualizar, de cuidar de ter desenvolvimento e competitividade, o único caminho possível para um futuro melhor.
Vivemos tempos desinteressantes. Há uma evidente ruptura entre a sociedade e as instituições com os principais personagens no palco dando espetáculos solos de falta de visão e de que consigam compreender um mínimo dos tempos em que se vive. Os partidos políticos são o reflexo da falência do sistema apresentando todos os mesmos, e esfarrapados, discursos de que “ouvem as ruas” quando somente procuram, da mesma velha maneira, manter ou alargar o poder. Cessado o susto, iniciado em junho com os movimentos nas ruas, o que se vê é que tudo está se passando como se nada houvesse acontecido. Apenas os perdedores, governos, políticos, partidos, fingiram fazer algum tipo de esforço para minimizar os estragos com os olhos postos na próxima eleição.
A minirreforma (não riam, por favor) eleitoral transformou-se em minúscula. Um esparadrapo no buraco por onde jorra a lama do poder econômico que a tudo corrompe sem ser, nem por um segundo, perturbada. Não houve, rigorosamente, nenhuma proposta séria de mudança. Nenhum político tomou qualquer atitude ou propôs alguma medida que possa ser considerada um sinal de que há a determinação da mudança, o desejo da mudança. Os problemas brasileiros prosseguem sendo empurrados com a barriga. As receitas, as velhas e gastas receitas, são as mesmas. Vamos ter mais do mesmo em 2014. O problema é que o vácuo, hoje os cientistas constatam, não é um vazio. E o otimismo de certas análises tem uma alegria falsa do Baile da Ilha Fiscal. Parece que até mesmo o cálculo político está impregnado da noção de que é possível continuar tudo sempre da forma que está. E a inação nunca foi o caminho das mudanças. E do vácuo, infelizmente, alguma coisa se cria mesmo quando não há quem dê uma direção ao que vai nascer. Estamos, pois, à deriva, esperando que, por milagre, o melhor aconteça.
(*) É Doutor em Desenvolvimento Sustentável pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia-NAEA/UFPª.
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