Segunda-feira, 18 de maio de 2026 - 10h30

O
Desenrola surgiu com a promessa de aliviar a vida financeira dos brasileiros em
um país marcado por crédito caro, renda comprimida e inadimplência crescente.
Contudo, o programa não enfrenta as causas reais do endividamento. Seu
principal problema é trabalhar com parâmetros distantes da realidade das
famílias ao focar em dívidas muito baixas, como débitos de até R$ 100,00 ou o
uso limitado do FGTS. Na prática, o endividamento no Brasil é estrutural e envolve
valores muito superiores, inclusive entre os mais pobres. Antes do programa, em maio de 2023, o país
possuía 71,9 milhões de inadimplentes. Após renegociações e exclusão de
pequenos débitos, cerca de 15 milhões de pessoas foram beneficiadas. Ainda assim,
em março de 2026, o Brasil atingiu novo recorde: 82,8 milhões de inadimplentes.
Ou seja, o problema retornou ainda maior. O Desenrola produz apenas alívio
temporário, sem alterar as condições que geram o endividamento.
O erro
central está em tratar a inadimplência como algo passageiro, quando ela decorre
de fatores permanentes: baixo poder de compra, inflação do custo de vida e
juros elevados. Para milhões de famílias, o crédito deixou de ser instrumento
de consumo e passou a funcionar como complemento de renda. Cartão de crédito e
cheque especial financiam despesas básicas como alimentação, energia e água.
Com juros entre os mais altos do mundo e forte concentração bancária, pequenas
dívidas rapidamente se transformam em bolas de neve. Ao limpar o nome do consumidor sem elevar
renda nem reduzir juros, o programa apenas devolve o cidadão ao mesmo sistema
que produz nova inadimplência. O ciclo se repete: endividamento, renegociação,
breve alívio e novas dívidas. Além disto, sucessivos programas de renegociação
criam expectativa de futuros descontos, enfraquecendo a disciplina de
pagamento.
O uso do
FGTS revela outro equívoco. Criado para proteger o trabalhador e financiar
habitação e infraestrutura, o fundo passa a cobrir distorções do sistema
financeiro, reduzindo recursos importantes para investimentos e empregos. Por
isto, o Desenrola tem caráter apenas paliativo. Sem aumento real da renda,
redução consistente dos juros, maior concorrência bancária, educação financeira
e crédito sustentável, o programa funciona como analgésico: reduz
momentaneamente a dor, mas não cura a doença. A inadimplência no Brasil não é
um fenômeno marginal, tampouco concentrado em pequenos valores ocasionais. Ao
atuar sobre valores simbólicos, o Desenrola cria a ilusão de solução, mas não
altera o quadro real.
(*) Doutor em
Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA)
da Universidade Federal do Pará e Editor Associado do projeto A Ótica da Razão.
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