Segunda-feira, 11 de novembro de 2013 - 10h29
Silvio Persivo(*)
O professor, hoje Mestre, Maurílio Galvão, é um amigo de longa data que tem muitos serviços prestados à Rondônia, embora as pessoas lembrem mais do tempo em que foi administrador de Ariquemes, ou melhor, prefeito mesmo, quando implantou uma parte do que, agora, já se tornou uma cidade de porte médio, se faz preciso salientar sua importante participação, não somente na implantação da base do Estado de Rondônia, bem como por ter sido um dos professores que iniciou a Fundação Universidade de Rondônia-UNIR. Aliás, antes da nossa universidade, porque Maurílio ensinou no CESUR, núcleo que deu origem a ela. A família Galvão tem seu passado, pelo que, até então, sabia, ao Distrito Federal. De lá veio o próprio Maurilio e morava sua mãe, que por lá viveu até os cem anos e faleceu recentemente. Para minha surpresa Maurilio me oferta um livro de outro membro da família, Marlene Galvão, que li, sofregamente, para descobrir que as raízes familiares dos Galvão estão fincadas também em Tocantins.
A obra de Marlene “Os sonhos de Eliodora”, editado pela Ícone Gráfica e Editora, apesar da forma simples e direta em que foi escrita é um excelente testemunho, de vez que, mesmo utilizando nomes ficcionais, se percebe ( e a autora confirma) que se trata de uma recuperação da história familiar com um adendo saboroso que enriquece sobremaneira o livro: o registro da cultura e do linguajar de Tocantins, em especial das cidades de Taguatinga e Ponte Alta do Bom Jesus. Marlene Galvão consegue o feito de transformar o cotidiano de um povo, e suas lembranças do passado, numa história saborosa de ler que, além de nos brindar com o sotaque da região, nos faz percorrer as crenças, as premonições, os sonhos, as festas e mitos que somente se perpetuam pela manutenção de padrões de comportamentos que formam o que denominamos de raízes culturais. Neste sentido, para muitos que viveram nesta região, o livro tem o sabor extra de uma recordação de bons tempos, de festas que, pelas mudanças, dificilmente irão resistir, daí que também o livro contribui para a manutenção da cultura tocantinense.
Certamente quem tiver um pezinho no sertão, e quase todos nós brasileiros temos, ao ler o livro de Marlene Galvão irá se identificar com a vida simples, com os cantos de galos, fatos, comidas e, para quem vive em regiões onde é uma tradição, reviver o “manto vermelho sagrado com a pomba branca retratando o Divino Espirito Santo”, que, para quem conhece, é uma festa inesquecível na qual os romeiros entoavam seus cantos misturando a fé com a folia num momento que une reflexão, alegria e crença. Sem dúvida, o livro de Marlene Galvão pode até não fazer um grande sucesso, por sua própria opção regional e de ser uma memória de uma história de família, porém, é uma leitura fácil, gostosa e que, ao fim, nos deixa com um desejo de quero mais e a sensação de que, muitas outras pessoas, deveriam fazer o que ela fez tão bem: registrar a história de uma época no seu cotidiano. Assim, com méritos, escreve ficção e história dando sua contribuição à cultura de nossa região.
(*) É Doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos-NAEA/UFPª.
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