Domingo, 16 de novembro de 2025 - 11h18

Em meio às
águas extensas do Baixo Madeira, onde a floresta dita o ritmo da vida, um grupo
de estudantes ribeirinhos encontrou na arte uma forma de traduzir sua relação
com a Amazônia. O projeto “Percepções Amazônicas: a poesia da Amazônia em
formas e cores”, idealizado pelo artista e educador Flávio Dutka e
contemplado pela Lei Paulo Gustavo, transformou salas de aula em ateliês
criativos, dando voz — e imagem — à juventude que vive diariamente o que muitos
só conhecem pelos noticiários.
Mais do que
uma oficina de pintura, a iniciativa se consolidou como um instrumento de educação
ambiental, valorização cultural e fortalecimento emocional, convidando os
alunos a repensar a floresta não apenas como paisagem, mas como parte
inseparável da própria identidade.
O OLHAR DE QUEM CONHECE A FLORESTA POR DENTRO
Radicado em
Rondônia há décadas, Flávio Dutka — paranaense de formação em História —
construiu carreira como artista visual e professor em comunidades do Baixo
Madeira. Suas obras, marcadas pela fusão entre espiritualidade, natureza e
ancestralidade, serviram de base para um processo artístico que, no projeto,
priorizou o sentimento, a memória e o pertencimento.
“Ninguém
conhece a Amazônia melhor do que quem nasce e cresce às margens dos rios”,
observa Dutka. Essa perspectiva se materializa nas telas dos estudantes, que
apresentaram obras de forte sensibilidade e estética próxima à arte naïf,
destacando a expressividade acima de qualquer rigor técnico.
As pinturas
revelam tanto a exuberância do bioma quanto o cotidiano simples que sustenta a
vida ribeirinha. Entre elas:
Cada obra acima,
como as demais da exposição funcionam como uma afirmação de que a Amazônia não
é um território distante: é lar, memória e futuro.
ARTE-EDUCAÇÃO
COMO RESISTÊNCIA E PERTENCIMENTO
O projeto,
realizado também com apoio da Magna Produtora, do cantor e compositor Bado,
da Escola Municipal Francisco Braga e de educadores da RESEX Lago do
Cuniã, reforça o poder transformador da arte em comunidades tradicionais.
Estudos
sobre propostas pedagógicas semelhantes apontam que a expressão artística
favorece não apenas o aprendizado cognitivo, mas também o desenvolvimento
emocional e social — especialmente entre jovens sujeitos ao impacto de vulnerabilidades
e ao risco de apagamento cultural.
“A arte
permite que os alunos elaborem sentimentos e compreendam temas complexos, como
mudanças climáticas e biodiversidade, de maneira sensível e crítica”, destaca a avaliação de projetos baseados na metodologia de Dutka.
Ao retratar
suas próprias vivências, os estudantes se reconhecem na história da Amazônia e
se tornam, na prática, defensores da floresta que os forma. A exposição final,
realizada na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã — a primeira mostra
artística da região — representa para os jovens mais que um evento cultural: é
um marco de valorização e autoestima.
A AMAZÔNIA PELO TRAÇO DE QUEM A HABITA
Logo, “Percepções
Amazônicas” reafirma o papel da escola como espaço de transformação e
mostra que pincéis e tintas podem ser tão poderosos quanto livros e mapas
quando o assunto é formação cidadã. Em um cenário global marcado pela crise
climática e pela desinformação, projetos como esse se tornam essenciais para
incentivar o protagonismo juvenil e garantir que a Amazônia siga viva — não
apenas na geografia, mas na memória coletiva.
A poesia
visual criada pelos estudantes ribeirinhos é, acima de tudo, um lembrete: proteger
a floresta começa por ouvir aqueles que a carregam no olhar, na pele e no cotidiano.
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