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Cultura

“Destino da Pele” transforma memória em resistência e revisita marcas do racismo na Amazônia

A narrativa acompanha um reencontro após décadas e mergulha nas vivências de mulheres negras marcadas pela exclusão e pela reconstrução


“Destino da Pele” transforma memória em resistência e revisita marcas do racismo na Amazônia - Gente de Opinião

O cenário é uma cidade fronteiriça, onde culturas se encontram, a fé sustenta rotinas e as histórias atravessam gerações. Guajará-Mirim é o território de onde emerge Destino da Pele, curta-metragem dirigido por Marcela Bonfim, que aposta na empatia e no perdão para tratar de feridas profundas e na memória como caminho de reconstrução.

Entre rezas, ervas e escutas, Tereza, uma mulher negra retinta, benzedeira e referência espiritual na comunidade onde vive, acolhe quem chega em busca de cura, proteção e orientação. Mas é durante um desses atendimentos que o passado rompe o silêncio. Diante dela, surge um antigo colega de infância, alguém que, décadas antes, foi agente das violências racistas que marcaram sua trajetória.

Quando o passado volta à tona

O reencontro não oferece conforto imediato. Ele expõe cicatrizes. Tereza é atravessada por lembranças da escola, pelas rejeições e pelo peso de uma infância moldada pelo preconceito contra sua pele. Ao invés de recuar, a narrativa escolhe encarar. É nesse gesto que o filme encontra sua força audiovisual ao revisitar a dor não como prisão, mas como possibilidade de ressignificação. O curta tem cerca de 15 minutos e é inspirado em fatos reais.

Uma história que ecoa em muitas vidas

“Destino da Pele” transforma memória em resistência e revisita marcas do racismo na Amazônia - Gente de Opinião

Interpretado por Agrael de Jesus, que dá vida à protagonista Tereza, e por Haroldo Saraiva, no papel de Joaquim, Destino da Pele constrói uma narrativa íntima que encontra eco em diferentes vivências. A experiência da personagem dialoga com a realidade de muitas mulheres negras brasileiras, atravessadas pelo racismo estrutural, pelo preconceito fenotípico e pela solidão afetiva. O que está em cena não é apenas um reencontro, mas o confronto com um destino historicamente imposto aos corpos negros.

Lançado na Mostra Amazônia Negra, em Porto Velho, o curta inicia agora sua circulação por festivais de cinema em todo o país. Mais do que denunciar violências, a obra propõe deslocamentos no tempo, questiona, tensiona e, sobretudo, abre espaço para a cura.

Filmado no Vale do Guaporé, região marcada pela presença histórica de populações negras desde o Forte Príncipe da Beira e pelos ciclos da borracha e do ouro, o projeto também carrega a força do território. Moradores de Guajará-Mirim participaram como figurantes, ampliando o vínculo entre a obra e a comunidade.

Marcela Bonfim, diretora e idealizadora do curta, afirma que Destino da Pele apresenta o cinema como ferramenta de escuta e transformação ao converter dor em narrativa e memória em resistência. “Um filme que não apenas conta uma história, mas convida quem assiste a sentir uma dor que muitos atravessam. Percorre sentimentos, resgata memórias e, sobretudo, propõe a reescrita de caminhos”, conclui.


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