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Flávio Dutka e o “Microcosmos”: Pontos, Cores e a Pesquisa Estética na Amazônia


Fonte: DUTKA, Flavio. A Ilha de Assunção – No Oceano chamado Madeira (2025) - Gente de Opinião
Fonte: DUTKA, Flavio. A Ilha de Assunção – No Oceano chamado Madeira (2025)

A exposição “Microcosmos”, do artista plástico Flávio Dutka, com mais de 85 obras a ser realizada na Casa de Cultura Ivan Marrocos, em Porto Velho (RO), se inscreve como um marco na reflexão sobre a arte amazônica contemporânea. Artista com trajetória consolidada no Brasil e no exterior, Dutka propõe uma investigação visual que transcende a representação tradicional da paisagem. Sua obra transforma o detalhe minúsculo em metáfora da totalidade. 

A mostra será inaugurada com um Vernissage no dia 05 de dezembro, às 19h30. Sob a perspectiva da crítica e da pesquisa em artes visuais, a exposição contribui de forma significativa para o debate sobre estética, ecologia e circulação cultural. Dutka não se limita ao exotismo ou à paisagem monumental da Amazônia; em vez disso, ele valoriza o microscópico como um espaço potente de revelação estética e política. Sua pesquisa se manifesta em uma técnica singular, onde traços, pontos e linhas criam campos visuais que oscilam com elegância entre a figuração e a abstração, explorando a luminosidade e a textura como elementos estruturantes da obra

A Lente que Amplia Universos Invisíveis

A própria noção de MICROCOSMO remete a antigas tradições filosóficas que veem o fragmento como reflexo do universo. Na arte, essa ideia encontra ressonância em práticas que fazem do detalhe um campo de significação.

A obra de Dutka, nesse sentido, dialoga com pensadores contemporâneos: se a percepção é uma experiência fundamentalmente fenomenológica, como defendia Maurice Merleau-Ponty, então a forma como o artista "vê" e nos apresenta o detalhe amazônico é uma experiência singular e profunda.

Na exposição, cada tela funciona como uma lente que amplia universos invisíveis ao olhar cotidiano. Essa ambiguidade formal inerente à técnica do artista permite ao espectador transitar livremente entre o reconhecimento da flora ou da estrutura da água amazônica e a contemplação de estruturas plásticas puras e autônomas.

Arte, Ecologia e Ensino Comunitário

A obra de Dutka possui uma notável dimensão ecológica e social. Ao focar no detalhe, o artista plástico denuncia a fragilidade ambiental, transformando o elemento natural microscópico em um símbolo urgente da crise ecológica. É um convite à reflexão sobre o que se perde quando se destrói o que mal se consegue ver.

Além da dimensão ambiental, existe uma forte dimensão pedagógica. Como educador em comunidades ribeirinhas, como na Resex do lago Cuniã, Dutka articula arte e formação, ampliando o alcance social de sua produção. A exposição reconhece esse trabalho ao incluir uma seção dedicada às obras de seus alunos no Projeto Percepções Amazônicas, demonstrando que a arte é também uma ferramenta de transformação comunitária.

Finalmente, a dimensão [internacional] do trabalho de Dutka é inegável. Suas exposições atestam a capacidade da arte amazônica de se inserir em circuitos globais, desmistificando a ideia de que a produção amazônica está isolada.

Arte, Comunidade e Lançamento de Livro

Flávio Dutka e o “Microcosmos”: Pontos, Cores e a Pesquisa Estética na Amazônia - Gente de Opinião

Além das obras singulares de Flávio Dutka, a exposição reserva um momento especial para a apresentação final do projeto “Percepções Amazônicas: A poesia da Amazônia em formas e cores”, inspirado na obra poética do cantor e compositor Bado.

Contemplado pela Lei Paulo Gustavo – Edital nº 10/2024 da SEJUCEL/SIEC, na linha de fomento às Artes Integradas, o projeto foi desenvolvido na E.M.E.F. Francisco Braga, com o apoio fundamental do diretor Fernando Estevão e sua equipe, além da colaboração do professor Diniz Albuquerque e da Magma Produtora.

As telas produzidas pelos jovens da RESEX Lago do Cuniã ganham protagonismo ao traduzir em cores, traços e texturas a força poética da Amazônia. Sob a curadoria de Flávio Dutka, cada obra revela o olhar sensível das comunidades ribeirinhas sobre seu território, transformando vivências cotidianas em arte contemporânea. Essa mostra evidencia como a criação artística pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social, fruto do intenso trabalho pedagógico que Dutka desenvolve como educador junto às populações tradicionais.

A noite de vernissage também será marcada pelo lançamento do livro “Escola das Águas”, escrito por Elizane Nunes e Miquelly Tito Sanches, e edição da Temática Editora e Cursos e do livro de poesia “Arte, Amor e Desventuras da autora Eva da Silva Alves, ambos com ilustrações de Flávio Dutka — reforçando o diálogo entre literatura, artes visuais e memória amazônica.

Logo a Exposição “Microcosmos” reafirma Flávio Dutka como um dos nomes centrais das artes visuais da região. Sua obra articula de maneira coesa estética, ecologia e pedagogia, oferecendo um vasto e rico material para a pesquisa e o pensamento sobre a arte contemporânea produzida a partir da Amazônia. A exposição na Casa de Cultura Ivan Marrocos não só fortalece o espaço como polo cultural, mas também intensifica o debate sobre a circulação da arte brasileira em diversos contextos, provando que, no microcosmo, reside a chave para a compreensão do macro universo.

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