Quinta-feira, 10 de janeiro de 2013 - 08h06
Por Humberto Pinho da Silva
Empertigado, pescoço erguido, bico levantado, rabo empinado, o ganso Vitorino descia, amparado pelas fortes asas, a rampinha que entestava com o velho e pesado portão de ferro, datado de 1874, da Quinta da Bandeira.
Depois, muito emproado, de olhinhos bem abertos, pata aqui, pata ali, ia pela rua Marquês de Sá da Bandeira, muito teso, muito vaidoso, muito altivo comprar seu jornal.
Na banca do jornaleiro, escancarava o largo e espalmado bico amarelo; recebia o matutino, e regressava rebolando, muito senhor do seu imponente bico.
No portão entreaberto, refastelado em sólida cadeira, o Sr. Artur Rangel, dono da propriedade, ficava a ler o diário, enquanto o Vitorino trilhava carreiritos da quinta, em busca de guloseimas - que eram minhocas e sementes silvestres.
Certo dia o Sr. Rangel, que chegou a pesar 200 quilos, faleceu.
Vitorino viu chegar cavalheiros de gravatas pretas, fumos pretos e fatos pretos. Viu senhoras de chapéus negros, véus negros e vestidos negros. Viu homens de preto, de semblantes caídos, levar o esquife negro, acompanhados de senhores e senhoras de rostos tristes, conversando em leves murmúrios.
Assistiu a tudo. Tudo viu, olhando de lado. Percebeu a tragédia. Não verteu lágrimas, porque os gansos são como os homens de barba rija: não choram; mas chorou o coração de dor.
Era uma tarde de temporal desabrido. O vento furioso arrepiava as árvores da quinta, e a chuva que desabava copiosamente, tamborilava nas pedras do pátio e da calçada.
Esvai-se o cortejo fúnebre.
Cai um silêncio mudo na velha casa. Tudo se cala: nem os passarinhos gorjeiam, nem os patos grasnam, nem as galinhas cacarejam. Mergulha tudo numa infinita tristeza; num silêncio pesado. Só a água, que ensopa a terra, cantava nos córregos e regueiros.
Vitorino embrenha-se numa hortinha, balanceando pensativamente, até ao fundo da quinta. Volta-se para velho muro musgoso e permanece, empedernido, parado, como se estátua fosse.
Em vão o chamam. Em vão queriam que comesse. Em vão lançaram milho ao redor.
Dias depois encontraram-no, tombado, de patas e pescoço esticado; gelado, encharcado; rijo. Morrera de Amor e saudade.
Vitorino vivia na Quinta da Bandeira, em Vila Nova de Gaia. Pertencia ao avô do euro deputado Prof. Doutor Paulo Rangel.
Sexta-feira, 19 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
Inscrições para filmes da 19ª Edição do CINEAMAZÔNIA até dia 20
Estão abertas, até no próximo sábado, dia 20 de junho de 2026, as inscrições para produções audiovisuais de categorias de curta - até 26 min e media

CCBB Brasília recebe oficina de produção gratuita com foco em exposições de artes visuais
Nos dias 19 e 20 de junho, o CCBB Brasília será palco de uma oficina de produção executiva em exposições de artes visuais. Com foco no público femin

A responsabilidade de dar vida aos personagens da Jucadiro
Quando o público vê os noivos, o rei ou a rainha entrando na arena, poucos imaginam a preparação que existe por trás de cada passo, gesto e expressão.

Matutos do Socialista vive a contagem regressiva para o Arraiá do Bera
O despertador toca cedo, mas, para quem vive o universo junino, muitas vezes nem é preciso acordar. O sono quase não aparece quando chega o dia mais e
Sexta-feira, 19 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)