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Opinião: Escola em Rondônia, gosto ou obrigação?


 
Nunca vi tantos alunos abandonarem o ensino médio. Escolas começam com a média de 1000 alunos no ensino médio e terminam com pouco mais de 200.

A situação alarmante da escola pública rondoniense e brasileira como um todo se traduz em uma frase: Falta de estímulo ao aluno!. Fica fácil culpar o aluno pelas mazelas da escola. Ele abandonou os estudos e agora? A escola não se preocupa. São menos alunos, melhor. Assim julgam muitos professores e diretores de escola pública. Porém aquele aluno que abandonou retornará no semestre posterior, se for aluno da EJA e, no ano posterior, se for aluno do regular. Então o que parece aparentemente ser barato para os cofres públicos se torna mais caro. O Estado estará reconduzindo novamente o mesmo aluno, na mesma série escolar e tendo que abrir nova vaga para outro aluno “novato”. Então antes de se pensar em escola em tempo integral é necessário rever o conceito de escola em Rondônia, começando pela Secretaria de Educação.

Como é sabido dos caros leitores, a Secretaria de Educação e seus representantes não fazem a lição quando o assunto é apoiar a escola pública, principalmente quando o assunto é ensino médio. O antigo 2º grau se deteriorou principalmente após a LDB 9394/96, maldita herança de FHC e Paulo Renato. A função social do ensino médio é a de ser uma espécie de ponte entre o ensino fundamental e a universidade, porém não está logrando este êxito. Só para se ter uma ideia, no último ENEM realizado em outubro de 2010, participaram 34 mil alunos de 284 escolas públicas rondonienses. Deste total, apenas 1320 lograram uma vaga no ensino superior. Matematicamente analisando isto significa que apenas pouco mais de 5% conseguiram chegar a uma instituição de ensino superior seja pelo vestibular da UNIR ou outras instituições federais (SISU) ou pelo PROUNI. A SEDUC e o próprio governo deveriam sentir-se envergonhados de dados tão ridículos e pessimistas. Só no PROUNI em Rondônia metade das vagas sobram por falta de competência dos alunos da rede estadual em preenchê-las. Na UNIR mais de 400 vagas não são preenchidas anualmente. São milhares de vagas todos os anos que não são contempladas pelos alunos da Rede Pública Estadual por desmazelo do poder público.

O currículo escolar do ensino médio é ultrapassado. As aulas são massantes, pois não trazem novidade de conhecimento e não permitem ao jovem estudante participar direta ou indiretamente. Prender um rapazote de 16 anos em sala de aula não é tarefa fácil para um educador. A escola tornou-se obrigação e alienação para a sociedade. O pai ou a mãe manda um filho para estudar para que ele preencha uma lacuna pessoal e assim não seja a vítima rotulada dos traficantes ou das quadrilhas nas esquinas das periferias da vida. Então a escola está servindo para acobertar o rapazote e não lhe preparar para o que vier depois da aventura chamada 2º grau. Mas quais são as causas para esta desmotivação e evasão em massa dos alunos do ensino médio das escolas estaduais?

Além de um currículo escolas evasivo de participação dos mesmos, falta estrutura, boa merenda, maior participação dos jovens na máquina chamada escola, integração, esporte, cultura e atenção. É fácil criticar os alunos, os chamando de vagabundos, preguiçosos e alienados. Mas quem é culpado disto tudo? O sistema. Sim, leitores o sistema que reúne poder público, legislação, escola e família. Nunca vi um secretário de estado visitar uma escola que lecionei. Nunca vi ou presenciei a Secretaria de Educação procurar saber as necessidades de um professor e quais os recursos que os mesmos necessitam para tornar as aulas menos cansativas e estressantes juntos a estes alunos. É evidente que o aumento da criminalidade principalmente entre a faixa dos escolares do ensino médio (14-18 anos) cresceu 2500% após a promulgação da LDB. A década passada compreendeu um alarmante sinal para nossos governantes que infelizmente não se preocuparam em investir em educação de qualidade principalmente no eixo do nível secundário. O preço caro por este abandono começa a surtir efeitos práticos. Querem a todo custo criar cursos técnicos profissionalizantes sem planejamento estratégico, esquecendo-se do pilar do sistema que é o ensino médio. Enquanto um preso custa ao Estado R$ 1.789,00 um aluno do ensino médio custa R$ 106,78. É difícil e incompreensível entender tal distorção. Desta forma, este aluno que custa 15 vezes menos, será a nota de cobrança de 15 vezes mais para o poder público. É fato e real que 87% dos que cometem crimes no Brasil, abandonaram a escola ou não continuaram seus estudos por falta de apoio, capacitação e motivação. Não justifico aqui o crime em relação ao estudo abandonado. Justifico sim, a melhoria no planejamento educacional como um todo, principalmente aos adolescentes e jovens das séries finais do ensino fundamental e de todo ensino médio, principais alvos da criminalidade e do abandono social. O Brasil é o país dos grandes emergentes que menos investiu em ensino secundário nos últimos 20 anos. Em Rondônia, principalmente na gestão de Ivo Cassol por quase toda década passada, o ensino médio se esmoreceu as migalhas de investimento e a inércia de planejamento.

E por esta razão, a conta chegou e salgada. O que será de nós, Brasil? O que se espera para o futuro de Rondônia, minha terra amada, idolatrada e tão esquecida? Eis a questão.

Prof. Victoria Bacon
Professora da Rede Pública e Pesquisadora em Educação- Ensino Médio.
e-mail: [email protected]

 

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