Sábado, 20 de agosto de 2016 - 09h20
Existem condutas de comportamento típicas de cada povo, e outras são atribuídas e “pegam”, independente de existirem de fato ou apenas subjetivamente; genericamente.
Embora existam em todo o planeta, ficaremos com os vícios, reais ou atribuídos, dos brasileiros. Uns são mais generalizados; outros mais restritos.
Um exemplo dos vícios mais amplos seria justificar os erros com desculpas, em vez de assumi-los e buscar a solução mais adequada. Pessoas de todos os segmentos sociais recorrem a esses expedientes, mas os gestores públicos recorrem com mais frequência, talvez em razão da atividade que exercem. Toda vez que acontece algo desabonador, as explicações consistem em desculpas evasivas, desconexas dos fatos e sem nenhuma consistência.
Por achar irrelevante ligar a seta de alerta e obedecer ao sinal de trânsito, os brasileiros tornam o Brasil um campeão mundial em acidentes automobilísticos, provocando graves consequências pessoais e econômicas. Trata-se de um mal gigantesco, que poderia ser evitado com uma mudança de comportamento.
Com relação à educação brasileira ocorre o mesmo. Os professores torcem para ter um feriado para “emendarem” os dias úteis. Ainda pressionam os alunos: se vier um, teremos de dar aula. Nenhum colega vai arriscar-se ao linchamento pela sala inteira. Não se ouve um aluno brasileiro vangloriar-se do que aprendeu; mas se escuta todo dia gabar-se por ter tirado nota 10 colando.
Apagar as luzes quando se sai de um ambiente não faz parte dos nossos hábitos. Usar fio dental após as refeições, também não. Assim como não fazer o exame de próstata ou de mamografia com a regularidade recomendada. E o resultado são milhões de doutores, com pós-doutorado, falando “seje”, “estrupo”, a palavra campeã de erro de pronúncia. Além de os doutores acentuarem o nosso delicioso coco. Num condomínio em São Paulo, já recebi um panfleto ofertando “deliciosos doces de cocô”. Imagine!
Esse vício de fazer de qualquer jeito começa com os cidadãos na base da sociedade e sobe pelas camadas mais altas. Repete-se em todos os ramos de atividade e se intensifica nos governos.
Por exemplo, na questão da segurança, as prefeituras atribuem essa tarefa às polícias militares e não fiscalizam os pichadores. Por sua vez, as polícias não prendem os pichadores porque a Justiça vai soltá-los imediatamente. Já o Poder Judiciário solta porque as leis são frouxas. Os legisladores não endurecem porque a sociedade acha que só se punem os pobres, camada social na qual, em regra, estão inseridos os pichadores. Forma-se uma cadeia do “tanto faz”, que traz como resultado pessoas se divertindo em destruir prédios públicos e residências particulares.
Fazer o que tem de ser feito e como se deve fazer não deveria ser apenas um nome de livro. Esse “ser feito” envolve o fazer correto, na quantidade e qualidade exigidas, com a fórmula determinada. Não é fazer por fazer. Chegar atrasado ou não ir traz prejuízo material e de caráter emocional, valorativo, de como se comporta uma sociedade.
E o principal: fazer pelo caminho recomendado, no tempo estipulado, sem pular etapas; se for com improviso, que não seja prejudicial à forma correta.
Enfim, assim como o combate à corrupção não cessa, mesmo sabendo que ela nunca será extinta, assim como não se deixa de tomar remédio porque a doença é incurável, todos ganharão com um combate incessante a esse vício do “tanto faz” generalizado no país.
Pedro Cardoso da Costa
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