Domingo, 10 de maio de 2026 - 10h26

“Para
saber o que as pessoas realmente pensam, preste atenção no que elas fazem, e
não no que dizem”
René
Descartes
(Filósofo, físico, matemático francês)
A Comissão de Constituição e
Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade a
admissibilidade de propostas de Emenda à Constituição (PECs), que visa acabar
com a jornada 6x1 (trabalha seis dias e descansa um). Inicia-se assim a
tramitação na Câmara da redução da jornada semanal de 44 para 40 ou 36 horas
semanais em 10 anos. Esta comissão, a mais importante da Câmara, tem maioria de
seus componentes da extrema direita (PL) e do Centrão (formado pelos partidos:
PL, União Brasil, PSD, PMDB, PP, Republicanos, Solidariedade, Podemos e Avante),
cujo lema “dando que se recebe”, resume a prática política dos seus membros.
Com a constitucionalidade
aprovada, agora será discutido o mérito por uma Comissão Especial, criada pelo
presidente Hugo Motta (Republicanos/PB), com representação proporcional dos
partidos políticos. O texto aprovado por esta Comissão será encaminhado para a
discussão e deliberação do plenário da Câmara, depois do Senado.
O governo do presidente Luís
Inácio da Silva (PT) optou por enviar sob regime de urgência, o Projeto de Lei
(PL) 1838/2026 que altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e
legislações específicas. Prevê a vigência imediata da redução de 44 para 40
horas semanais, sem redução de salário, com o fim da escala 6x1 (seis dias de
trabalho para um de descanso), garantindo dois repousos semanais remunerados
(5x2). O projeto proíbe a redução de salário. Depois de 38 anos é retomada esta
discussão, pois foi na Constituição de 1988 que diminuiu de 48 horas para 44
horas a carga laboral semanal.
O presidente da Câmara decidiu
ignorar o PL do Planalto, e estabeleceu um rito próprio, inusitado, para a
tramitação das PEC’s, e corre contra o tempo para votar antes que vença o prazo
do PL do governo federal. É aí a manobra da extrema direita (do Partido
Liberal) juntamente com os partidos que integram o famigerado Centrão. Querem
sua proposta aprovada para “ser chamada de sua”, não incluindo a vigência
imediata (Centrão discute propor 4 anos de transição), e com a “bolsa patrão”,
entre outras propostas.
PL e PEC são instrumentos usados
pelos poderes Executivo e Legislativo para alterar ou criar normas que afetam a
vida dos cidadãos. O Projeto de Emenda Constitucional, conforme
defende a oposição, altera o texto constitucional e sua aprovação é pelo quórum
qualificado (3/5 dos votos), em dois turnos na Câmara e no Senado. E como
modifica a Constituição, não passa pela sanção presidencial.
Por sua vez Projeto de Lei,
enviado pelo presidente Lula, cria ou altera leis ordinárias comuns da CLT e
legislação específica, exige maioria simples dos presentes (50% + 1), podendo
ser vetado parcialmente, se alterado pelo Congresso. Sob regime de urgência,
conforme encaminhado pelo executivo, o prazo máximo para votação é 45 dias na
Câmara e no Senado. No caso de não ser votado neste prazo “tranca” a pauta das
votações.
Os deputados, senadores da
oposição, em sua grande maioria ligados aos extremistas, têm votado e aprovado
matérias de interesse da classe dominante (banqueiros, empresários, políticos,
corporações internacionais), atuando contra os interesses populares. Como
resultado, tem crescido junto a população sentimento contrário aos
congressistas, de mesmo repulsa a classe política. Nas vésperas das eleições
tentam amenizar a pecha de inimigos do povo, pegando carona e tentando manobrar
esta pauta que é de interesse nacional.
A sociedade brasileira tem-se
manifestado contrária à jornada de trabalho 6x1, e os números nas pesquisas de
opinião de diferentes institutos têm mostrado claramente. A pesquisa da Quaest
(dezembro de 2025) apontou que 72% apoiam o fim da jornada 6x1. Na pesquisa
Datafolha (março/2026), 71% dos brasileiros foram contra a atual jornada. Estes
números foram corroborados por outros institutos em pesquisas mais recentes,
como a do Meio/Ideia (maio/2026), com 73,7%.
Nesta disputa as vantagens,
proveitos e benefícios claramente contrapõem trabalhadores e patrões. A bancada
majoritária da oposição, membros do empresariado, associações patronais têm
declarado serem contra a proposta do governo Lula, e se mesmo alguns pontos
estiverem de acordo, por ex. a redução da carga horária, que seja para as
“calendas”.
Verifica-se que a grande imprensa
corporativa, associações empresariais, economistas, especialistas ligados ao
que se denomina de “setor produtivo”, influenciadores “suspeitos” e blogueiros
reacionários aliados à políticos da extrema direita, tentam desqualificar a
proposta do governo federal, utilizando de expedientes inescrupulosos,
mentirosos, de chavões repetitivos, de “fake news”; para gerar pânico junto à
população, na tentativa de angariar apoio popular e nada mudar. Do outro lado,
setores ligados ao mundo do trabalho, políticos, economistas, professores e
pesquisadores, sindicalistas, trabalhadores em geral, apontam que a redução da
carga laboral trará melhorias reais aos próprios patrões, e a economia do país.
Nos argumentos dos inimigos do
povo, não levam em conta a experiência de outros países que já adotaram a
redução da carga horária, e nada aconteceu de trágico para o país, ao
contrário. Ao profetizarem “quebradeira” geral, os arautos do apocalipse e do
caos, propagam que o resultado da mudança colocará em risco os negócios, com a
elevação de custos, resultando na incapacidade dos patrões de cumprirem
obrigações básicas, como pagar salários. Vão além, afirmam que aumentará a
informalidade, o fechamento de empresas e o desemprego.
Nas ameaças dos empresários,
veículos de informação, “especialistas”, negam o comprometimento e o
compromisso do atual governo com a classe trabalhadora, com os mais vulneráveis;
e que de 2023 a 2026, o país atingiu uma das menores taxas de desemprego da
série histórica (aprox. 5,8%), com a criação de mais de 5 milhões de empregos
formais. Um contraste e uma comparação necessária com os níveis de desemprego
de dois dígitos (11,2% a 13%) registrados no governo do agora presidiário, no
período 2019 a 2021.
Ao reconhecer o direito a
condições adequadas de trabalho, incluindo a limitação da jornada, o governo
federal se alinha a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil no Pacto
Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), tratado
da ONU de 1966, que entrou em vigor em 1976. Juntamente, com o Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e a Declaração Universal
dos Direitos Humanos (DUDH), formam a base do direito internacional da Carta
dos Direitos Humanos.
Essa é uma pauta central para a
classe trabalhadora brasileira e de toda sociedade, cujos efeitos, caso
aprovado o Projeto de Lei 1838/2026, será extremamente benéfico, em particular
para as mulheres, as pessoas de baixa escolaridade, vulneráveis, além de
possibilitar o acesso a outras dimensões da vida social.
A batalha é gigantesca, e sempre
foi, quando se trata de atender as pautas dos trabalhadores. A hora é essa para
a mobilização e a pressão popular junto aos congressistas. São estas as armas
dos trabalhadores, e que farão a diferença para alcançar a vitória.
O alerta é para não deixarem se
enganar. A luta é pela redução de 44 para 40 horas semanais, sem redução de
salário, com o fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso),
garantindo dois repousos semanais remunerados (5x2). O projeto proíbe a redução
de salários e sua aplicação é imediata.
Nas eleições de 4 de
outubro. Vamos limpar o Congresso, não votando em quem tem votado contra o
povo. Fácil identificar, pois perderam a vergonha.
____________________
* Professor associado aposentado
da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares
na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na
Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de
Energia Atômica (CEA)-França.
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