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Gente de Opinião

Crônica

Dois socialistas corretos


Humberto Pinho da Silva - Gente de Opinião
Humberto Pinho da Silva

Os partidos políticos encontram-se abertos a todos; assim como clubes ou associações culturais.

A entrada é simples: basta ser proposto; o que não é difícil...

Ilustre abade da Igreja de Santo Ildefonso, no Porto, quando lhe diziam: - Na sua Igreja há homens pouco recomendáveis! Respondia-lhes, deste modo:

- "A porta está aberta. Todos podem entrar... até os cães!..."

Hoje venho contar-vos nobres atitudes de dois deputados socialistas, que ocuparam cargos de relevo na “hierarquia” do partido.

Conta Pacheco de Andrade, íntimo amigo do falecido Bragança Tender, Professor Catedrático da Faculdade de Medicina do Porto, e deputado socialista, quando participou numa campanha eleitoral, teve que deslocar-se a Carrazeda de Anciães. Como homem educado, que era, cumprimentou o Presidente da Camara (CDS,), acompanhado do líder socialista local.

Este, durante a amena conversa, disse-lhe: “Você é um razoável Presidente; mas, favorece os correligionários…”

O Presidente não respondeu à provocação.

Decorrido escassos minutos, chama os responsáveis dos pelouros para explicarem – como corriam os serviços; e, voltando-se para o Professor, esclareceu:

- “Destes, só um é do meu partido, porque prefiro competência á cor partidária!...”

Chegou o dia do comício, o Professor falou da vantagem de apoiarem o seu partido, terminando deste modo:

- “Não voto aqui, mas se votasse, escolheria o atual Presidente; e mencionou a interessante conversa que teve.

Agora. se me permitem, para terminar, vou falar do Dr. Cal Brandão, coofundador, e figura destacada do partido Socialista.  Ateu confesso.

Conversando com Dona Beatriz (mulher de Cal Brandão), na presença dos filhos, contou-me o seguinte:

Andava grande rebuliço em Corim (Maia). Influentes queriam que não saísse a procissão. Os fiéis, aflitos, recorreram ao dr. Cal Brandão (Governador Civil,) pedindo-lhe Justiça.

 Apesar ser ateu, disse-lhes: - “Os católicos têm o direito de manifestarem a sua fé, na via publica.” E deu ordens determinantes. E assim aconteceu.

Quando faleceu, a família não sabia onde depositar o corpo do advogado, pois necessitava de salão de grande dimensão, visto ser figura estimada e muito conhecida.

O padre da freguesia disse-lhes:

- “O Senhor doutor era ateu. Não posso nem devo abrir-lhe a igreja, mas como homem justo, que era, e defendeu-nos em época revolucionária, cedemos, com prazer, o salão paroquial.”

Pena é que os políticos não sejam todos corretos como estes!

Sei que ainda os há dignos do nosso apreço, mas são tão poucos!...

Amigo avezado a andanças políticas confessou-me:

- “Em todos os partidos há gente boa e sincera; mas, muitos que por lá andam, são apenas oportunistas…”

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