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Em um mundo hiperconectado, a intencionalidade vira diferencial humano


Em um mundo hiperconectado, a intencionalidade vira diferencial humano - Gente de Opinião

Uma das principais promessas da tecnologia é a redução da fricção. Essa é, inclusive, uma das grandes propostas de valor da economia de plataforma, na qual empreendo há alguns anos: viabilizar mais e melhores conexões. E, nesse modelo, quanto menos fricção, maior a satisfação em ambos os lados.

Mas a verdade é que nós, enquanto sociedade, estamos utilizando a tecnologia para reduzir fricções no âmbito das relações pessoais. Inundados e mediados por ferramentas tecnológicas, estamos nos tornando pessoas com menor tolerância à crítica, menor capacidade de sustentar conflitos saudáveis, menor segurança para ponderar e trazer contrapontos.

Um dos destaques do SXSW de 2026 foi, na minha opinião, o talk Susan McPherson: How To Meaningfully Connect in a World That Has Gone to Sh*t. A tese principal dela aponta para um paradoxo do nosso tempo: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes e solitários.

O ChatGPT, utilizado com frequência como parceiro romântico, amigo e até terapeuta, torna-se a interface perfeita: não critica, valida tudo, encoraja e reforça qualquer comportamento. Além de perigoso, esse uso da ferramenta cria a falsa sensação de que relações podem ser mantidas no campo da idealização, livres de atrito. Não podem.

A empatia, a fricção e a intencionalidade são, segundo Susan, ingredientes essenciais para relações verdadeiras.

Intencionalidade, essa tecnologia 100% humana, já surge como um primeiro insight valioso do SXSW. Em meio a tantos avanços tecnológicos, retomar o poder de escolha e de definir onde colocar energia torna-se algo transformador e necessário.

Para criar conexão verdadeira é preciso querer (ser intencional) e aceitar que algum nível de desconforto vai existir. Não dá para fugir disso. Conversas reais, relações reais, sempre têm algum grau de tensão, e é justamente aí que mora a possibilidade de crescimento. Isso vale para contextos pessoais, familiares e corporativos.

Escolher quando e com quem estar totalmente presente, escolher quando se isolar para refletir... coisas simples, mas que, somadas, mostram consciência e direção.

Ferramentas digitais podem, sim, facilitar processos, ampliar o acesso à informação e criar novas formas de interação. Mas relações humanas continuam exigindo aquilo que nenhuma interface consegue substituir: presença, escuta, discordância e, especialmente, construção conjunta de significado.

(*)  é Co-CEO da BPool, plataforma de curadoria, contratação e gestão de serviços de marketing, presente em mais de 10 países, com clientes como Unilever, Novartis, Reckitt e L'Oréal

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