Sábado, 25 de abril de 2026 - 10h13

“Pergunto-me
como é possível ver a injustiça, a miséria e a dor
sem
sentir a obrigação moral de mudar o que se vê”
José
Saramago (escritor português premiado com o Nobel de Literatura em 1998)
O mês de abril conta com mais uma
data histórica para o povo trabalhador. No dia 13 o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva assinou mensagem presidencial encaminhada ao Congresso Nacional, que
na prática acaba com a escala 6X1, reduzindo o limite da jornada de trabalho de
44 para 40 horas semanais, mantendo as 8 horas diárias, garantindo dois dias de
descanso remunerado, e proibindo qualquer redução salarial.
Esta medida aproxima o
Brasil de um movimento mundial. Países vizinhos como o Chile aprovou a redução
de 45 para 40 horas semanais até 2029, a Colômbia, de 48 para 42 horas até
2026. Na Europa, a jornada de 40 horas ou menos ocorre na França que adotou 35
horas semanais desde os anos 2000. Outros países como Alemanha e Holanda têm
médias inferiores a 40 horas.
O Projeto de Lei 1838/2026
estabelece uma nova referência para o mercado de trabalho brasileiro, com
impacto direto sobre milhões de trabalhadores, promovendo uma das maiores
mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em décadas.
Hoje, segundo dados
oficiais, cerca de 14 milhões de brasileiros trabalham na escala 6x1, com
apenas um dia de descanso, incluindo 1,4 milhão de trabalhadoras e
trabalhadores domésticos. Sem contar os 26,3 milhões de celetistas que não
recebem horas extras, o que indica jornadas frequentemente mais longas na
prática.
As jornadas mais extensas
estão concentradas entre trabalhadores de menor renda, menor escolaridade,
negros e pardos; o que faz da proposta também uma medida de redução de
desigualdades no mercado de trabalho. No caso da população negra com menor
rendimento por hora, é forçada a trabalhar mais tempo para garantir o sustento.
São inúmeros os benefícios
com a implantação da jornada 5X2. Os de maior relevância diz respeito a mais
dignidade no trabalho com a modernização das leis trabalhistas, o aumento do
tempo de descanso e convívio familiar refletindo na qualidade de vida, a
manutenção da remuneração, a melhoria na saúde física e mental, a segurança
jurídica protegendo o trabalhador contra acordos individuais que flexibilizam
direitos. Visto o que já acontece em outros países, o maior descanso do
trabalhador levará a um aumento na produção com qualidade, o que beneficiará as
empresas, e a economia nacional.
Todavia, tal medida
modernizadora para o atual mundo do trabalho que teve avanços tecnológicos
consideráveis, sofre resistência de setores da classe empresarial e de políticos
de extrema direita. E, infelizmente, tal visão ultrapassada, retrógrada, tem
seguidores de uma parcela da população, cidadãos desinformados, que se
alimentam de “fake news”, e cuja visão de mundo, coincide com a do
ex-presidente presidiário que amarga 27 anos de pena por tentativa de golpe de
Estado.
Neste debate, os contrários
a escala 5X2, se posicionam adeptos de uma sociedade neo escravocrata, cujo
sistema social e econômico baseia na propriedade do tempo da vida de um ser
humano por outro, imposto pela violência de uma grande reserva de mercado de
mão de obra não organizada, que espera conseguir trabalhar, e que acaba
aceitando situações inóspitas, degradantes, sem dignidade e de baixa
remuneração. Algo que poderíamos denominar de “escravagismo moderno”.
Um fato que chamou atenção
neste debate foi a proposta do deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG), um
dos líderes da extrema direita, que defende o reembolso empresarial (bolsa
patrão), focada na modificação para um modelo 5x2. Ele propôs uma emenda para
que “o governo compense empresas por possíveis aumentos de custos, temendo
desemprego e informalidade”. Em estudo realizado pelo Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a redução da jornada de trabalho de 44 horas
para 40 horas semanais pode elevar em média, o custo a 7,84%; e que para os
maiores empregadores, o efeito total da redução da jornada sobre os custos não
chega a 1%. Valores estes que podem ser plenamente absorvidos pelo aumento da
produtividade e pelos avanços tecnológicos adotados.
Esta indigna proposta do
deputado se assemelha àquela dos políticos do Partido Conservador, e elites da
época que antecedeu a abolição da escravatura em 1888, a de indenizar os
ex-proprietários de escravos, com o argumento de que os escravizados eram
propriedades legítimas e, portanto, sua libertação sem compensação violaria o
“direito sagrado” à propriedade.
A proposta do governo
federal encaminhada em regime de urgência constitucional, significa que os
parlamentares terão 45 dias para votar, ou seja, até início de junho. Não votar
significa paralisar o funcionamento do parlamento, impedindo novas votações.
Com a aprovação da
admissibilidade da redução da jornada de trabalho pela Comissão de Constituição
e Justiça (CCJ), o mérito agora será analisado e debatido por uma Comissão
Especial de 37 membros titulares, e de igual número de suplentes, criada com
esta finalidade. Se aprovado na comissão o projeto de lei segue para a votação
no plenário, com quórum exigido de três quintos dos votos dos deputados, o que
corresponde a 308, em dois turnos.
Uma movimentação da extrema
direita, do Partido Liberal (PL), aliado com partidos do famigerado Centrão
(que de centro não tem nada), já discute barrar o projeto governamental, como
propaga o Deputado Júlio Lopes (PP/RJ) presidente da Frente Parlamentar pelo
Brasil Competitivo.
A atuação de uma parcela
majoritária do Congresso Nacional tem se mostrado claramente inimiga do povo,
priorizando “privilégios e retrocessos”, com votações prejudiciais à população
e com o avanço de agendas da extrema direita, em vez de pautas populares. É
hora de lutar pelo fim da escala 6x1.
A pressão popular junto aos parlamentares é o caminho para a mudança na legislação trabalhista. Caberá aos trabalhadores, cidadãos, eleitores, juntamente com seus órgãos de classe, sindicatos, centrais sindicais, associações, aliado aos defensores dos legítimos interesses da classe laboral, manifestarem nas ruas, cobrando dos seus parlamentares a votarem pela jornada semanal de 5 horas trabalhadas e 2 descansadas remuneradas, sem redução de salário. E que nas próximas eleições a(o) eleitor(a) escolha seu representante entre aquele(a) que tenha lado, o do trabalhador. Não se deixe enganar.
____________________
* Professor associado aposentado da Universidade
Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na
Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na
Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de
Energia Atômica (CEA)-França.
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