Quinta-feira, 14 de maio de 2020 - 10h43

Há um sentimento generalizado, misto de
curiosidade, esperança e temor, entre os mais variados segmentos da população
brasileira diante do momento difícil pelo qual o mundo atravessa, com a
pandemia do coronavírus. É como se estivéssemos num barco à deriva em meio à
borrasca.
Muitos setores da economia foram brutalmente
impactados pela pandemia, porém os mais atingidos são aqueles que não têm
dinheiro nenhum empregado em contas misteriosas espalhadas em paraísos fiscais,
com as quais fazem a estranha multiplicação da noite para o dia na parição de
dividendos que tanto concorrem para aprofundar ainda mais o fosso da
desigualdade social.
Nem preciso falar do grande contingente de
brasileiros que vive exclusivamente dos programas sociais mantidos pelo governo
federal, cujo valor é insuficiente para o atendimento das necessidades básicas.
São pessoas que não têm o direito sequer de ficar doente sem temer a míngua de
um atendimento. E, quando conseguem a consulta, geralmente não tem o dinheiro
para comprar o remédio prescrito pelo médico.
Vivemos tempos difíceis, reconhecidamente. Cada
agente econômico acha que é tarefa do Estado assumir a fatura sozinho. Muitos
falam em parceria, mas nem todos querem colocar a mão na massa, dar a sua
parcela de sacrifício, ratear as dificuldades, preferindo esgueirarem-se na
sutileza dos argumentos, porém, na calada da noite, fazem o jogo do vale-tudo.
Os espíritos de renúncia e sacrifício são os grandes ausentes. No fundo, a
maioria quer mesmo os brioches de Maria Antonieta e não está nem ai para os alaridos
das ruas, produzidos pelos famintos, sem-teto e desempregados. Não é preciso
ser especialista em nada para saber que serão os primeiros a cruzar a faixa de
chegada. Em meio ao incêndio, a voracidade ganha corpo, a economia definha, os
salários desarticulam-se, o desemprego cresce e a esperança de um futuro melhor
vai se tornando um pensadelo.
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