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Na companhia de ladrões


Gen Marco Aurélio Vieira – maio de 2026. - Gente de Opinião
Gen Marco Aurélio Vieira – maio de 2026.

“Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos [...] outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.”  

Padre Antônio Vieira – 1655 - in Sermão do Bom Ladrão

 

Escolas e professores adeptos da “pedagogia do oprimido” de Paulo Freire, e Universidades mais ocupadas com cotas de gênero do que com a História do Brasil, resultaram em que quase ninguém hoje saiba que Portugal ao longo do período colonial manteve na América dois estados: o Estado do Maranhão e Grão-Pará, e o Estado do Brasil.  Criado em 1621, o Grão Pará tinha governador próprio, corpo administrativo e leis próprias, tendo sido unificado com o Estado do Brasil somente um ano após a Independência, em agosto de 1823.

Entretanto, no século XVII as lideranças coloniais passaram a pressionar o rei de Portugal, D. João IV, para que ele criasse mais estados, reivindicando que as Capitanias da região Norte fossem transformadas em entidades autônomas. Nessa ocasião, o Padre Antônio Vieira, então conselheiro do rei, convenceu o monarca exatamente do contrário, fazendo com que ele constituísse um governo único, e criasse o Estado do Maranhão e Grão Pará, sediado inicialmente em São Luís (1654), e depois em Belém (1751).  

Valendo-se de uma argumentação singular, o jesuíta alegou que se o rei instituísse outros estados na Amazônia, teria que nomear mais governadores, o que acarretaria maior dificuldade de controle sobre eles; “Digo Senhor, que menos mal será um ladrão que dois, que mais dificultoso será achar dois homens de bem que um só”, escreveu do Maranhão Vieira, em carta ao rei de 4 de abril de 1654. 

Já em Lisboa (1655), em um sermão diante dos membros da corte, juízes, ministros e conselheiros da Coroa, Vieira reiterou a acusação de que os governadores nomeados pelo rei estavam enriquecendo ilicitamente, no curto espaço do triênio de suas nomeações. Com sua peculiar contundência, ele bradou do púlpito que aqueles mandatários e seus apaniguados “[...] conseguem conjugar o verbo furtar em todos os tempos, modos e pessoas. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Esses mesmos modos conjugam por todas as pessoas: porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantos para isso têm indústria e consciência.”.

Excedendo-se na veemência do ataque, Vieira vociferou: “[...] furtam juntamente por todos os tempos”.  Roubam no presente, “que é seu tempo, durante o triênio em que governam, e roubam ainda no pretérito e no futuro”. Roubam no passado perdoando dívidas antigas com o Estado em troca de propinas, “vendendo perdões”. Roubam no futuro quando “empenham rendas e antecipam os contratos com que tudo, o caído e o não caído lhe vêm cair às mãos”.

E foi além, exclamando "[...] nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse [...] a furtar, para furtar [...] conjugado assim toda a voz ativa e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles como se tiveram feito grandes serviços. tornam carregados de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas.”

Fiando-se na qualidade de conselheiro e confessor do rei, o missionário jesuíta praticamente admoestou o rei: "Em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz aos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões porque os consentem; são companheiros dos ladrões porque lhes dão os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendam; e são finalmente seus companheiros porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo.

O Brasil da democracia relativa do século XXI muito se parece com aqueles tempos. Mas as coisas se agravaram, e não temos mais sequer um Padre Vieira para questionar frente a frente o poder quanto ao seu “companheirismo” com o roubo que grassa pelo país, em todos os tempos, modos e pessoas. Hoje, até mesmo simples faixas alusivas aos gatunos estendidas nas sacadas das casas dos espoliados cidadãos sequer são consentidas pela polícia, enquanto qualquer tentativa de investigação de escândalos financeiros bilionários é obstruída pelos próprios envolvidos, do alto dos postos e poderes que lhes foram dados pelo governo. O presidente da república já relativizou roubo de celular como justificativa para o jovem “ganhar um dinheirinho”, declarou que os traficantes são vítimas dos usuários, e vetou o endurecimento das penas no projeto de segurança pública aprovado pelo Congresso.  

Dados de maio de 2026 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que 41% da população (cerca de 68 milhões de pessoas), convive com o crime organizado, ou milícias em seus bairros. Estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizam cerca de 5 mil políticos descredenciados para a votação entre 2014 e 2020, e mais de 1.800 candidaturas indeferidas nas eleições de 2022. Esses números, confrontados com a corrupção institucional atualmente disseminada no Brasil, responsável por cerca de 200 bilhões/ano de prejuízo aos cofres públicos, corroboram o sucesso já obtido pelas estruturas criminosas, tanto na representação política como no acesso aos recursos públicos

Você – cidadão – é o rei na democracia: é quem nomeia pelo voto os príncipes da república, deputados, senadores e o próprio presidente. O futuro e a dignidade da nação exigem: não seja mais um companheiro de ladrões."

 

Gen Marco Aurélio Vieira

Foi Comandante da Brigada de Operações Especiais e da Brigada de Infantaria Paraquedista

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