Domingo, 21 de abril de 2024 - 09h24

Nas últimas
semanas, a imprensa reproduziu amplamente o indicador de recuperações judiciais
produzido e monitorado pela Serasa Experian, a concorrente britânica do
histórico SPC, este desenvolvido pela Câmara dos Dirigentes Logistas, que
oferece serviços de proteção ao crédito.
123Milhas,
Starbucks BR, Subway BR, Supermercados Dia, Gol, M. Officer, Botafogo SAF,
Americanas e, para a atual surpresa do mercado, até a Polishop. Essas foram
algumas das cerca de 1.500 empresas que recorreram a esse tipo de instrumento.
Além disso, temos casos de empresas que já vinham sob a égide de uma RJ, mas
que apresentaram revisões em seus planos de recuperação, como a Oi e a Light.
Em fevereiro, foram
abertos 169 requerimentos de Recuperação Judicial, além de 80 pedidos de
falência. O número de RJs cresceu 64% em relação ao mesmo período de 2023, mas
esse número isoladamente não quer dizer muita coisa.
Inúmeros fatores se
combinam para que uma empresa precise recorrer a este instrumento de proteção
empresarial. E é justamente esse o objetivo de uma RJ: proteger a empresa de
seus credores, que podem ter suas cobranças suspensas por até 360 dias.
Essa temporada já
tem apresentado resultados preocupantes. Casas Bahia divulgou prejuízo de R$ 1
bilhão no 4T23, além de seu índice de liquidez indicar que a Companhia terá
dificuldades para permanecer saudável. Carrefour, Braskem e Marisa são outras
três empresas que seguem em linha similar. Mas também tivemos boas notícias,
com Light e Usiminas revertendo prejuízos que foram apresentados em 2022.
A fórmula do
insucesso foi muito parecida. Primeiro, durante a pandemia, tomaram decisões
considerando exclusivamente o cenário do momento. Segundo, essas decisões
levaram as empresas, por diferentes motivos, a captar recursos de terceiros.
Uns para investimento, outros para giro, etc. Terceiro, no pós-pandemia, as
demandas artificiais sumiram e se ajustaram. Quem vendeu mais, passou a vender
menos.
Um empresário
precisa tomar decisões difíceis com velocidade. Mas o conhecimento em gerenciamento
de riscos corporativos poderia ter ajudado. Veja o que observei em alguns
desses casos: no pós-pandemia, muitos elementos que compunham o custo das
empresas subiram assustadoramente de preço. Com isso, algumas delas entraram em
prejuízo operacional e rapidamente deterioraram o caixa que tinha à disposição.
Lembra daquelas
captações que foram feitas durante a pandemia? A gigantesca maioria apresentava
cláusulas de vencimento antecipado cujos covenants foram sendo quebrados pelas
empresas no curso dessa experiência de 2020 a 2023.
E como está o
cenário nas empresas gigantes que são listadas em bolsas de valores? Em seu
último levantamento a esse respeito, em 2023, a Ideagen apontou um crescimento
de 12,5% no total de pareceres de auditoria externa apontando riscos à
continuidade dos negócios.
As recuperações
judiciais resolvem o problema? Não necessariamente. Em geral, os planos de
recuperação apresentados pelas empresas a seus credores se resumem a ações de
corte de custos e à proposição de um cronograma alongado de pagamento.
Raramente são apresentadas estratégias de transformação empresarial, de
incremento de vendas, de eficiência tecnológica ou outras medidas mais
contundentes.
O resultado é visto
no grande número de falências decretadas, isto é, de empresas que são
declaradas como insolventes e irrecuperáveis têm sido igualmente grande. Nos
últimos 12 meses, foram 733 falências decretadas, frente a um total de 974
pedidos abertos. Isso significa um fator de aproximadamente 75% de irrecuperabilidade.
(*) Carlos Gomes
atua, há quase 15 anos, diretamente com gestão de riscos e governança
corporativa, tendo ocupado posições de executivo na Deloitte e na BDO,
atendendo clientes como Petrobras, Vale, Michelin, Eletrobras e outras blue
ships. Gomes é Advisor e Researcher em GRC (Governança, Riscos e Compliance) na
Vennx, uma startup de GRC da qual é co-fundador.
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