Quarta-feira, 28 de janeiro de 2015 - 11h29

Luiz Albuquerque
“Moço, pega essa bolinha pra mim?”
Aquela voz sumida, infantil, quase imperceptível naquela rua por onde carros e pessoas passam apressadas soou dentro de meu cérebro como se lá estivesse nascido, sem mesmo passar pelos ouvidos. Mal me dei conta.
Novamente o mesmo som sumido, quase choroso. “Moço, pega essa bolinha pra mim?”. Desta vez tive certeza que alguém me chamava. Não sei como essa certeza de que se dirigia para mim, mas eu sabia!
Olhei em volta. Atrás de um portão de uma casa pobre estava a criança. Teria uns cinco anos, no máximo. Pés descalços no chão de terra, cuequinha de pano. E o olhar. Ah! que olhar. Triste, profundo. E no rosto, saía dos olhos e corria pelas bochechas as marcas deixadas pelas lágrimas há pouco derramadas. Aquelas marcas que ficam no rosto das crianças após o choro, mas somente nas que ainda brincam descalças no chão de terra. Quando choram, as lágrimas formam aqueles caminhos, pequenos córregos de tristes rios.
“Moço, a bola!”. Olhei para onde seu dedinho indicava e nada vi que parecesse uma bola. Pensei em desistir, ir embora. Aquele povo todo passando por mim e eu ali, parado, olhando para os lados, procurando uma bola. Olhei para o menino. Seu rosto tinha toda a tristeza do mundo. Pensei: “Que diabos! Onde está a tal bola?”. Ele, como adivinhando meus pensamentos, apontou novamente e falou “Ali!”. Acompanhei a direção do dedinho e vi. Na sarjeta. A bolinha. Murcha. Um enorme rombo mostrava que possivelmente um carro passara por cima e a fizera estourar. Pequei a bola, passei pela grade e a entreguei na mão do menino. Um sorriso. Não, mais que um sorriso! Um brilho, uma luz! Como se um novo dia nascesse naquele momento, naquele rosto. Ele pegou a bola murcha com as mãozinhas e a colocou contra o rosto, carinhosamente, apertando-a, como que matando uma enorme saudade. O rosto nada mais tinha de tristeza; somente o sulco das lágrimas mostrava que a tristeza que por lá havia morado já tinha mudado para o rosto de outra criança, essas crianças que sabem como ninguém passar da alegria para a tristeza e desta, novamente, para a alegria. Fiquei imaginando que tanto de tristeza houvera naquele rosto ao ver que sua bola, seu brinquedo, havia fugido portão afora para morrer, num estouro, sob as rodas de um apressado carro. Olhei, e ele já ia, correndo, chutando a bola murcha. Quanta alegria!
Fonte: Luiz Albuquerque (Manaus/AM), EM Porto Velho desde 1979. É consultor comercial, escritor e editou o projeto “Leitura no Ônibus”
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