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Desafiei o Professor Nazareno


 Desafiei o Professor Nazareno - Gente de Opinião

Professor Nazareno*

Outro dia andando solitário pelas ruas de Porto Velho e sem muito que fazer, eis que encontro o famigerado “professorzinho de araque” chupando um picolé de açaí. Procurei me conter, segurei minhas emoções e me controlei. Tive delírios homicidas e juro que se andasse armado teria lhe dado um tiro certeiro. “Seu filho de uma égua! Vamos conversar e colocar os assuntos em dia. Preciso desabafar com você”, disse-lhe logo de cara. “Não entendo essa sua teimosia de querer falar sobre a Banda VERSALHE”. Ele me olhou e calado, baixou a cabeça. Eu continuei: “há quase quatro décadas você mora aqui e sempre ouviu falar desses meninos”. “Não seja burro, cara. Os garotos da VERSAILLES são a mania nacional, são o circo que abastecesse o pão que falta em Porto Velho e em Rondônia. Por que só você é que não percebe isso?

 “Por que se faz de cego?”. Não vou entender nunca:“você fala mal da política, da cidade, dos políticos, da cultura, de tudo...”. “Parece que não está satisfeito com nada. Em Porto Velho existem uns 50 professores de Redação e de Gramática bem melhores do que você, seu traste!. E nenhum deles vive transtornando a vida de ninguém. Quantos textos os bons e competentes professores da Unir, por exemplo, têm escrito ultimamente? Veja a professora SULINA ANTAS, uma intelectual de primeira linha, você já leu um único texto dela? Ela é uma rondoniense de coração. E feliz. E os professores das faculdades particulares? Eles também não fazem textos. Por que você, seu imbecil, não faz como eles e para logo com esta sandice de escrever merdas? Todos estão felizes sem produção literária alguma. Por que você não os imita? Seja feliz!”

Sem dar uma única palavra, o velho e odiado professor respirou fundo como se sentisse cada alfinetada que eu lhe dava na alma. E continuei: “veja os jornalistas daqui. São quase todos felizes escrevendo só o que os leitores deles querem ler e ouvir”. A felicidade é uma máxima dentro das redações. “E agindo e escrevendo assim, você vai ter problemas. Qual o dono de escola que quer um professor de produção de textos verídico como você? Um professor que produz textos? E os donos de sites de notícias? A maioria quer você bem longe de suas redações. O Rondoniaovivo mesmo, já faz umas duas semanas que não publica suas indecências. Você pode ter sido demitido pelo Paulo Andreolli, seu estúpido! Escreva sobre mulheres que gozam e gritam. Escreva sobre homens que não lavam o pinto. Escreva sobre o lindo trabalho dos políticos.”

Como que reconhecendo que falar sobre a Banda VERSAILHES não foi um bom negócio na “terra do Rock”, o estúpido e aloprado mestre bocejou e continuou a me ouvir. “Aprenda a gostar de Boi e de Rock, seu tonto, siga a Banda do Vai Quem Quer, vá ao Arraial Flor do Maracujá, dance quadrilha, curta a VERÇAILHE e admita que amar a cultura de um povo é o maior ato de civilidade”. E não parei: “você vai ficar desempregado e pouco reconhecido até pelos amigos mais chegados”, disse-lhe convicto. “Se tiver que fazer textos, faça só os que agradam. Seja Gospel. Você será amado pelos intelectuais e por toda a sociedade”. Desapontado, o infeliz jogou fora o picolé preto, limpou a poeira do traseiro e disse que daquele momento em diante iria só escrever poesias líricas. Sei, não. Mas parece que sem muito esforço e com carisma domei uma fera que tanto tem atormentado as boas e honestas famílias portovelhenses.
 

*É Professor em Porto Velho.

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