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Dia de fieis defuntos



Por Humberto Pinho da Silva

Nos primeiros dias de Novembro os cemitérios enchem-se de gente. Outrora vinham trajados  de escuro e de semblantes sombrios; hoje, o preto caiu em desuso, mesmo em dia de funeral. Tornou-se roupa de cerimónia e de elegância.

Mas será que a maioria reflecte, que dentro de poucos anos - décadas para os mais jovens, - serão reduzidos a nada? Que ficarão esquecidos sob a terra vermelha ou encerrados em escuros caixões de chumbo, acompanhando os ascendentes?

O autor da “ Imitação de Jesus Cristo”, lembra que as glórias do mundo são efémeras: “ Diz-me: Onde estão agora todos aqueles senhores e mestres que bem conheceste, quando viviam e floresciam nos estudos?

“ Já outros ocupam os seus lugares, e não sei se haverá quem deles se lembre. Em vida pareciam alguma coisa; agora nem deles se fala.”

Ao percorrer o cemitério da minha cidade, em dia de Fieis Defuntos, deparo jazigos em mármore de Carrara, e capelas ricamente erguidas a pedra lavrada, abandonados.

Alguns ostentam ainda a placa que a esposa ou filhos colocaram, com palavras ternas, dizendo que o defunto foi ilustre professor, digníssimo juiz, distinto médico ou notável empresário.

Foram…agora repousam esquecidos, reduzidos a pó. Nem parentes nem amigos beneficiados com benesses, se lembram deles… Até - quem sabe?! - nem os filhos se recordam que existiram…Passaram a ser, como dizia Cecília Meireles: apenas antepassados…

Esquecem-se que muitos bens e objectos que possuem, já foram deles…Até a educação que receberam e a posição que ocupam na sociedade dependeu deles.

Mesmo os que foram aplaudidos nas plateias e pelas multidões, decorridos anos da morte, desapareceram da memória dos homens.

Quem se recorda de Nicolau, famoso ciclista? Do Prof. José Frutuoso Aires de Gouveia, da Faculdade de Medicina, que administrou uma aula na presença do Imperador D. Pedro II, do Brasil? De Justino Nobre de Faria, que Silva Pinto considera:” Dos nossos actores dramáticos mais dignos de apreço.” - no livro: “ No Brasil”? De Artur Napoleão, prodigioso pianista, que encantou o mundo e foi aplaudido por príncipes e reis e veria a falecer no Rio de Janeiro?

Camões escreveu em Carta enviada de Ceuta: “ Nunca vi cousa mais para lembrar e menos lembrada, que a morte”.

Disse bem, porque sendo a vida passageira e a outra eterna, preocupamos mais com esta e menos a preparar a outra.

Estas reflexões despretensiosas, que me ocorrem, são, certamente, as mesmas de muitos, ao visitarem seus mortos. Mas apesar de serem sobejamente conhecidas, tentamos irracionalmente esquece-las…

Convencemo-nos que a morte mora longe…Chegamos a pensar que nunca nos visitará.

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