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Dilemas jornalísticos na tragédia


 
Na faculdade, sempre fui ensinado a registrar tudo que for possível em uma cobertura jornalística. É preciso embasar as informações coletadas com fotos, entrevistas e vídeos – para fins de comprovação. Publicar determinados conteúdos, entretanto, exige uma reflexão individual, dos jornalistas, e coletiva, das equipes nas redações. Quem estamos atingindo com a imagem de uma tragédia? É lícito expor a identidade de alguém para prender a audiência?
 
A fotógrafa que fez o último registro de Aylan Kurdi, o menino sírio que faleceu nas praias da Turquia, afirmou, em entrevista, ter ficado “petrificada” com a cena. Mas, como todo bom profissional de comunicação, não deixou o inusitado passar. Ela estava correta em desempenhar seu ofício. O momento era único, marcante. O momento era traumatizante. Suponho que após pensar sobre o caso, a profissional tomou a decisão que lhe parecia adequada: compartilhou a imagem. A tragédia migratória precisava ser vista.
 
Em se tratando de tragédia, o jornalista se coloca, inúmeras vezes, em dilema morais. Os veículos, adotando uma posição ponderada, normalmente não publicam imagens mortuárias. Trata-se de uma forma de autopreservação – jurídica e moral. Mas o óbito do garotinho Aylan guardava outros ingredientes, não apenas o baque de seu corpo abandonado sem vida. Em minha opinião, a foto constitui uma enorme cicatriz na história da humanidade.
 
A imprensa deve replicar a imagem do corpo de um suicida estatelado no chão? Cabe ao jornalista compartilhar registros de fatalidades, como acidentes de carro? Via de regra, não. Nesses casos, a individualidade e o isolamento dos sinistros não justifica a publicação. O menino sírio, por sua vez, é a ponta do iceberg de um problema muito mais latente e inédito, que deflagra uma crise humanitária de proporções dramáticas.
 
A migração de refugiados no Mediterrâneo não é de agora. Entretanto, foi somente após a tragédia de Aylan Kurdi que as pessoas começaram a olhar para o tema com a atenção merecida. Em 2015, morreram centenas de pessoas na travessia. As notícias ocupavam áreas de menos destaque nos veículos de comunicação. Bastou o registro de uma criança morta para o assunto pautar todas as rodas globais. Destarte, o jornalismo tem obrigação de auxiliar para que outros pequenos não sigam o mesmo caminho. Se a artimanha de chocar a audiência garante este fim, que assim seja.

Fonte: Gabriel Bocorny Guidotti
Bacharel em Direito e estudante de Jornalismo.
Porto Alegre – RS

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