Terça-feira, 4 de novembro de 2014 - 05h48
Por Humberto Pinho da Silva
Têm, os nossos clássicos ensinamentos preciosos e conselhos de elevado valor, além de boa prosa vernácula, onde se pode beber e saborear, português de lei.
Lamentava Eça, diante de António Nobre e Alberto de Oliveira – João Gaspar Simões “ A Obra e o Homem: Eça de Queirós – de não ter descoberto essa riqueza, senão muito tarde.
Os textos dos clássicos, em regra, encontram-se recheados de pareceres e conceitos que se mantém sempre atualíssimos, já que a mentalidade humana pouco evoluiu, e em certos casos – involuiu.
Escolhi, hoje, a opinião de Frei Luís de Sousa, retirada da maravilhosa obra: “ A Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires”, famoso e santo Arcebispo de Braga, que ousou, em pleno Concilio de Trente, diante dos poderosos cardeais, declarar: “ Os Ilustríssimos e Reverendíssimos cardeais hão mister uma ilustríssima e reverendíssima reformação”.
A intervenção foi muito aplaudida, tornando-o, ainda mais admirado e querido dos conciliares, incapazes, por receio, de proferir tal reprimenda aos Príncipes da Igreja.
É que, como diz Frei Luís de Sousa: “ Nas cortes, o medo de desagradar aos príncipes, ainda que os males sejam patentes, faz mudas todas as línguas.”
Ficam mudas as línguas não só na corte, mas, igualmente, nos partidos políticos, sindicatos, clubes e associações, quando o visado é poderoso e pode destruir, rapidamente, a carreira urdida com esforço, sacrifício… e astúcia.
Quantos deputados não votam contra a consciência, para agradarem ao chefe da bancada ou à vontade do líder, que os pode guindá-los a altos voos, se forem obedientes e subservientes?
Quantos não traem a crença, que dizem professar, e princípios morais, para não estragarem a carreira, habilidosamente montada?
Quando se realizou, em Portugal o referendo, para se conhecer a vontade popular sobre o aborto – referendo que reprovou a prática abortiva, – mas de novo repetido, para se obter o resultado desejado, e jamais feito…não vá o diabo tecê-las… (salvo seja!) – houve políticos, apoiantes da vida, que não tomaram atitude enérgica, para não prejudicaram a carreira dentro do partido.
Muito – queria dizer poucos, mas mentia, – olvidam a crença e o que acreditam, para salvaguardarem cargos, que lhes permita obterem ordenados chorudos.
É que perante o Príncipe, o superior hierárquico, que pode promover ou distribuir prémios, não há língua que censure, nem cabeça que discorde.
Por vezes, esses “submissos”, engrandecem-se junto dos subordinados, tratando-os com desprezo, mas perante superiores, ficam sempre mais mansos que cachorrinhos obedientes.
È como diz o nosso Frei Luís de Sousa: “ Ainda que os males sejam patentes, faz mudas todas as línguas”…
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