Quinta-feira, 20 de setembro de 2018 - 10h33
Para Juarez Moreira
O mineiro é essencialmente um garimpeiro; um minerador. Por isso se esmera tanto na eterna busca da preciosidade. Sua produção é pequena, pois está focada em separar o que reluz em meio ao cascalho. Drummond e Milton Nascimento são exceções. Drummond foi longevo e constante, Milton captou o sentimento do mundo que inspirava o Brasil em tempos de efervescência e esperança.
Guimarães Rosa talvez seja a síntese dessa mineiridade criativa. Publicou apenas oito livros em vida, diante da sua prematura partida, mas foi fundo no veio que encontrou entre o sertão inóspito da palavra e a vereda do pensamento. Plantou um buritizeiro no coração dos brasileiros que floriu no mundo inteiro. Pedro Nava, o grande memorialista nacional, juntou tudo que viu, ouviu e viveu e condensou em seis livros, tornando possível a improvável tarefa de colocar o oceano em apenas seis conchas.
O Clube da Esquina encarnou essa premissa de menos quantidade e mais preciosidade. Todos eles estão por aí, cantando o momento divinal do primeiro encontro. Por sucessão do acaso, os dois gênios do futebol mineiro seguiram a mesma sorte, com Tostão e Reinaldo deixando seus lances espetaculares antes do fim do primeiro tempo.
Garimpar é um pouco a gente sozinho, bateando o pensamento, seguindo o veio com fé na busca da fonte de todo mistério. Depois de encontrado e devidamente lapidado, essas preciosidades são levadas para todo o mundo, encantando e enfeitando a vida daqueles que adoram o belo e têm olhos para o raro, o nobre, o inusitado, o maravilhoso.
O amanuense Ciro dos Anjos sabia disso e foi preciso em seu primeiro e quase único feito. O fantástico Murilo Rubião foi tão realista em suas visões que tirou apenas 33 coelhos da cartola e deixou a plateia extasiada; para todo o sempre. Rubião, pedra de outra esfera, tornou-se gênero literário e foi buscar a Lua para colocar dentro de seu livro, nos revelando um outro lado do mundo.
Mineiro vive entre montanhas, guardado em neblinas, imaginado o que tem por detrás da paisagem. Está sempre filosofando sobre o mundo que se ergue à sua volta, guiando seus olhos para o alto, o infinito. Não tem jorro criativo, sequenciado, mas um eterno amadurecer do sentimento curado, destilado, defumando em sonhos e sentimentos. Tem um afazer demorado, porque nada está pronto, terminado, nem mesmo o pôr do sol, que precisa de olhos atentos para ver detalhes dos contornos, nuances e silhuetas improváveis. Tudo é rebuscado nessas paragens, até o dedilhar do vento soprando os telhados ancestrais das noites em quintais das Minas Gerais. O criar mineiro não é liso, reto, planalto aberto. É montanhoso, sinuoso, em segredos vales submersos.
A sofisticação de um verso mineiro tem esse tempo de garimpar, lapidar, polir e cravar nos contos, poemas, canções, livros. De fundir o irreal com nossa pobre vida diária. Não é apenas uma publicação, uma gravação, um lance no gramado. É, sobre tudo, um registro para a eternidade.
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