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(OK) O Mensalão e a Sala de Justiça: O sagrado direito ao vil metal


Na Sala de Justiça começam as atribulações em torno do julgamento do Mensalão, e isso me lembra do mito de Fausto; uma história sobre dinheiro e poder ou capital e direito – dependendo de como se observe a trama social.

Etimologicamente, Fausto tanto pode significar alegre ou ditoso, quanto luxo e pompa. Fausto era um médico erudito à procura de aventuras nas descobertas de uma nova ciência: necromancia. Do grego necro (morte) e mancia (adivinhação): pertence à religião vodoo, como forma de adivinhação pelos mortos.

Muitos foram os intérpretes dessa história, mas em geral todos aceitam a regra de ouro definida pelo escritor francês Balzac: “A Bíblia deles é o Livro Razão”. Quer dizer, a ânsia pelo dinheiro que congrega o poder é tanta que o livro-caixa é sagrado. Os gerentes dessa lógica são homenageados, como o bandido carioca apelidado de Matemático (já morto). A matemática do crime é a contabilidade que ao mesmo tempo resguarda e revela o poder e o podre da organização. Com Collor, foi PC Farias o homem do cofre do Brasil. Depois, Sérgio Motta na era FHC e, mais recentemente, Delúbio Soares no PT do Mensalão.

Na literatura de Balzac, não há diferenças essências entre essas figuras e as relações sociais que representam: todos são monitorados pelo capital, o que conta é o valor monetário. Não há mais honra ou valor humano: “Hoje, tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador geral, vai defender os interesses de sua província”.

O melhor retrato da aliança com o vil metal foi dado por Goethe. Para o alemão, Fausto representa todos que barganham com a ética, todos que em nome de uma razão superior inferiorizam o que é justo e correto. Em uma sentença nos disse: “É um hábito que muitos têm, os juízes e banqueiros também conseguem”. Mas também os professores estão destinados aos efeitos do mundo moderno – a personagem principal é exatamente um professor falido que aceita os préstimos do diabo (ou do dinheiro fácil). O acordo seria assinado com sangue, na fábula e na vida real, como vemos em tantos casos.

O início da história, no entanto, acredita-se tenha sido no imaginário da Idade Média inglesa e em meio à acumulação primitiva que reforçaria as despensas do Renascimento e do capitalismo originário. Marlowe, um dramaturgo contemporâneo do grande Shakespeare, teve a primeira versão reconhecida – e foi ele próprio assassinado. Não se sabe ao certo, mas seria um espião da rainha e morreu como queima de arquivo. Sua mensagem diz que a virtude política não está mais na prudência, mas nos resultados – tipo PC, Motta, Delúbio.

Entre nós, no conto A Igreja do Diabo, Machado de Assis conta a lenda de que um belo dia o Diabo resolveu visitar Deus e lhe comunicar que havia resolvido fundar na Terra uma nova igreja: a Igreja do Diabo. Deus e seus discípulos ficaram perplexos com o Diabo. Este partiu para a Terra e com a ideia angariou muitos discípulos que resolveram seguir a nova Igreja. Com o passar dos tempos, porém, o Diabo verificou que esses mesmos discípulos que, na sua frente, faziam-lhe a vontade, isto é, só malefícios, pelas costas praticavam o bem. Completamente diferente do que ele pregava. Triste com o que presenciou, visitou outra vez Deus e comunicou-lhe que não mais estava interessado no que havia fundado, a Igreja do Diabo.

Duvido que no Brasil o Diabo faça o bem, principalmente se for político.

Vinício Carrilho Martinez - Professor Adjunto II (Dr.)
Universidade Federal de Rondônia
Departamento de Ciências Jurídicas

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