Quinta-feira, 3 de setembro de 2015 - 17h50
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Professor Nazareno*
Não. Eu não estou sonhando e também não é nenhum exercício de futurologia pensar como será a vida em Porto Velho e em Rondônia daqui a uma década. O ano de 2025 será diferente deste que estamos vivendo? Que novidades a vida nos reserva para a citada data? Todos os países desenvolvidos e civilizados do mundo pensaram suas sociedades para muito além do tempo em que viviam. Os Estados Unidos, por exemplo, criaram o sistema integral de ensino em suas escolas ainda no século XIX enquanto quase todos os países da União Europeia o fizeram algum tempo depois porque estavam preocupados com o futuro de suas populações. Japão e Coreia do Sul, esta já na década de 50, seguiram o roteiro de pensar no futuro. O Brasil, claro, nunca pensou sequer no dia de amanhã. Já em Rondônia e em Porto Velho talvez nunca tenha existido amanhã.
Estamos no verão de 2015 e Porto Velho, a maltratada e suja capital dos rondonienses, segue há mais de cem anos a sua infeliz rotina de sujeira e imundície e o pior, ano após ano, coberta de poeira e de fumaça sufocante das queimadas. O verão de 2025 por aqui será diferente? Por que devemos crer que nossas autoridades estão preocupadas com o futuro desta nossa sociedade? Estou até pensando como será a minha vida daqui a dez anos se ainda houver árvores para serem queimadas. Talvez já aposentado e passeando com meus netinhos na ponte ainda escura do Madeira terei mais tempo para refletir sobre a triste realidade. “Mas, vô, com tanta fumaça e poeira não dá para ver a cidade direito”. Da escura ponte resolvi visitar outro cartão postal da cidade. No também inacabado Espaço Alternativo, as esperanças não têm como se renovar.
O velho e abandonado recanto de lazer e caminhadas de grande parte da população da capital seguiu cumprindo o seu papel de “puta de pobre”: neste período reelegeu dois deputados federais, dois deputados estaduais e um senador. E continua inacabado e a ermo assim como minhas esperanças. Água tratada e esgoto sanitário mesmo servindo para muitos de promessas eleitoreiras em épocas de eleições, ainda será um sonho daqui a dez anos em Porto Velho. Bichos mortos e cheios de tapurus, muito lixo, ratos, urubus, garrafas pet, plásticos, moscas e muita catinga continuam enfeitando a nossa paisagem urbana. As carcaças dos eternos viadutos continuam lá à espera de alguma ordem de serviço qualquer para serem terminadas. Prefeitos e governadores se fingem de esquecidos enquanto muitos órgãos do Judiciário se calam.
Diferente de todas as outras cidades do mundo, o tempo, as coisas, tudo parece que só piora por aqui. Depois de dez anos, o visitante que voltou à cidade vai encontrar a cidade bem pior do que quando saiu. Os políticos continuam roubando tudo o que veem pela frente. O rosário de obras inacabadas é uma rotina e o povão ignaro continua votando nas mesmas tranqueiras de sempre. A Câmara de Vereadores de Porto Velho, a Assembleia Legislativa do Estado, a classe política, as autoridades em geral, todos infelizmente farão tudo se parecer com o ano de 2015. Os únicos profissionais respeitados ainda são os médicos, inclusive os formados por aqui. O pôr do sol continua feio e encoberto pela fumaça, e quem tiver coragem de beber a suja água do Madeira continuará a pegar hepatite, lombrigas e outras doenças infectocontagiosas e talvez nunca mais queira voltar a este inferno. Poeira e lama ainda serão a nossa triste rotina?
*É Professor em Porto Velho.
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