Quinta-feira, 24 de setembro de 2015 - 06h58
Professor Nazareno*
Ainôdnor é uma aldeia indígena muito grande. Muito maior até do que a nação Ianomâmi localizada entre os Estados de Roraima e Amazonas. No tempo cronológico, esta simpática comunidade indígena ainda está na Idade Média, embora muitos antropólogos e estudiosos afirmem que há vestígios fortes de que os “ainôdnor” vivem na Idade da Pedra ou dos Metais. Povo atrasado, rústico, selvagem e quase sem nenhum acesso à tecnologia, esses descendentes direto
s dos homens das cavernas desenvolveram uma maneira bastante peculiar para tocar as suas vidas. Todos os índios que governam ou já governaram a nação e que também participam da política, por exemplo, são de fora. Nunca um filho da terra teve o privilégio de governar o seu povo. Afirma-se que isto é um dado cultural no DNA dessa gente: “tudo aos forasteiros, nada aos nativos”.
Mas a nação ainôdnor até que é organizada politicamente: tem pelo menos 52 tribos. Todas administradas por um cacique que é assessorado por muitos índios de menor poder político. E por incrível que pareça em cada uma dessas comunidades existem os três poderes, como numa sociedade ou numa “democracia civilizada”. Por isso que se fala abertamente que em todas essas tribos há muitos caciques para pouco índio. Desabitada, inóspita e ainda selvagem, a sociedade desses silvícolas não tem a sua disposição todos os aparatos tecnológicos como se verifica em outros lugares ermos do mundo. O sistema de locomoção, como é chamado o setor de transporte público, é precaríssimo. Os aldeões mais antigos já pensaram em reimplantar o sistema de cipós. Na parte da iluminação pública, criou-se recentemente a Secretaria das Porongas.
Poronga é aquele tipo de lanterna rústica colocada na cabeça, que os seringueiros usavam na mata. Um grande avanço tecnológico para quem sempre está na escuridão. Essa inusitada secretaria vai doar para cada índio da localidade uma dessas novidades tecnológicas, visto que o sistema de iluminação dos brancos não está funcionado adequadamente. O problema é que em Ainôdnor até que existe produção farta de energia elétrica, mas é preciso abastecer outros centros mais desenvolvidos de tribos externas e, além disso, as tradições culturais desse povo devem ser preservadas: “tudo para quem é de fora”. Os índios que representam os interesses locais e também os que governam os brutos nativos fingem estar preocupados com a escuridão. Dizem que vão tomar providência e coisa e tal. Tudo encenação, claro. O atraso sempre foi bem-vindo.
Além disso, o povo de Ainôdnor é hipócrita ao extremo, pois diz odiar a corrupção e a roubalheira, mas nas eleições elege quase sempre os candidatos mais ladrões e canalhas. O sistema de saúde “ainodrense”, claro, também é precaríssimo. Pajés e rezadeiras sempre têm serviço. Obras públicas existem muitas, mas só servem para desviar dinheiro do Erário, eleger outros caciques, e mostrar a incompetência dos homens públicos. Dizem que é por isso mesmo que quase todas estão inacabadas e totalmente abandonadas. Espelhos, miçangas e quinquilharias sempre foram produtos bem aceitos na aldeia. Fala-se que rádio amador, giletes, lamparinas, carros de mão, baldes, facões, armadores de rede e fogões a lenha são os bens duráveis mais vendidos nas precárias tabernas locais. E como os nativos adoram incendiar suas matas, vão criar uma forma de não produzirem mais fumaça. Quem não gostaria de morar em Ainôdnor?
*É Professor em Porto Velho.
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