Quinta-feira, 9 de maio de 2013 - 14h01
Professor Nazareno*
Eu sempre me considerei um sujeito injustiçado. Muitas pessoas me veem de maneira totalmente errada. Pelo gosto de muita gente, os órgãos públicos já teriam feito uma devassa na minha casa e meus sigilos já teriam sido quebrados há muito tempo. Minhas inúmeras contas bancárias e meu valioso patrimônio já teriam sido vasculhados pelo Poder Público. Não sei o porquê de tanta raiva e desconfianças. Recentemente fui acusado de não gostar de Porto Velho e de Rondônia. Claro que isto não é verdade. Em alguns comentários divulgados nas redes sociais e na mídia até me propuseram sair da cidade, ou seja, “capar o gato”, “montar no porco”. Por que eu faria isso se em nenhum outro lugar do Brasil ou do mundo eu encontraria pessoas tão idiotas, ignorantes, toscas, fascistas e imbecis que se preocupam com a vida alheia achando que a cidade onde moram é propriedade sua e que por isso se acham no direito de opinar sobre onde os outros devem ou não morar? Onde encontrar tanta coisa errada e aceitável como aqui?
Não posso sair daqui, pois em que outro lugar do mundo eu encontraria uma cidade centenária tão suja, tão imunda, tão fedorenta e tão mal administrada e cujos moradores estamos e somos tão acomodados como em Porto Velho? Uma cidade onde a maioria dos prédios históricos é enfeitada por ratos e urubus? Como não querer morar em uma cidade onde a Prefeitura só trabalha quando não chove? E olhem que aqui chove durante quase 10 meses ao ano. Como encontrar, afinal, um lugar que sirva tão bem para as minhas matérias e crônicas sem ser essa Porto Velho que temos? Além de não ser proibido morar aqui, admiro as pessoas que têm olhos para ver e são ou se fingem de cegas. Onde encontrar tanto puxa-saco de políticos corruptos e desonestos? E onde encontrar tanto eleitor alienado e vassalo? Qual dentre as capitais brasileiras a que não tem estádio e nem se pratica o bom futebol? Laboratório sociológico, Rondônia contraria a própria Sociologia, pois se existisse, até a cultura daqui seria inferior.
Já fui até chamado de ateu. Um absurdo, uma vez que sonho um dia ser pastor evangélico ou católico, pois creio que dentre tantas coisas boas, a Igreja também inventou a democracia e participou da construção do conhecimento humano. Durante séculos, ela lutou bravamente para implantar a dialética em todas as sociedades de que participou. Sem ela, hoje estaríamos pelo menos uns três séculos atrasados em relação à tecnologia e às novas descobertas científicas. Além do mais, jamais perseguiu qualquer pessoa em toda a sua existência. Por isso, a Humanidade deve este grande favor a ela e aos seus santos e anjos. Não há uma única conquista na ciência moderna que não tenha tido a sua mão milagrosa e sábia. Padres, pastores, papas e outros seguidores são pessoas abençoadas por Deus, o Todo Poderoso. Todos devem ter uma religião e participar de alguma Igreja. Se quiser alcançar a salvação, claro. O céu espera para uma longa e boa vida eterna todos aqueles que tiveram tal percepção e ajudaram para isso.
É um crime sair de uma cidade que tem feira de exposições em um lugar sempre indefinido, Passeata do Orgulho Gay, Marcha para Jesus, Carnaval fora de época, Banda de 150 mil foliões, violência desmesurada, pobreza, saúde e educação públicas caindo aos pedaços, mentiras, lorotas, hipocrisia, escândalos nacionais, desorganização urbana, folclore importado e imprensa “marrom” vendida aos políticos de plantão. Além do mais, existe algum outro lugar onde as pessoas não aceitam críticas? Não, não sou ateu e, além disso, amo de coração este pedaço de Brasil. Saindo daqui, perderei uma chance enorme de estudar e aprender o porquê de tudo isto acontecer em pleno século XXI numa sociedade que se diz civilizada e em plena era da globalização. Não posso sair: como viverei lá fora? Já que pago meus impostos em dia e não devo satisfações a ninguém (ainda bem que a Francisca não lê meus textos), se me expulsarem, faço igual ao sapo cururu: volto de novo, pois amo de coração estes dois, Porto Velho e Rondônia.
*É Professor em Porto Velho.
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