Domingo, 21 de dezembro de 2008 - 20h06
Elizabeth Begonha e Luana Lourenço*
Repórteres da EBC
Brasília - No começo, pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica, agora percebo que estou lutando pela humanidade. A frase do seringueiro, líder sindical e ambientalista Chico Mendes ecoou pela floresta e chamou a atenção do mundo para a resistência de trabalhadores contra a transformação da Amazônia em fazendas.
Vinte anos depois da morte de Chico Mendes, assassinado com um tiro de espingarda, a família, os amigos e companheiros de resistência lamentam que o seringueiro não tenha vivido para ver de perto as conquistas pelas quais lutou.
A luta não foi em vão. A nossa pena é o Chico não estar aqui entre nós, vendo que as coisas estão como ele queria. Hoje, o seringueiro zela pelo seu lugar, cuida da floresta para os filhos e netos, conta o primo e também serigueiro Sebastião Teixeira Mendes. O que ele deixou para mim foi aquela mente de aconselhar as pessoas, de saber respeitar a natureza, acrescenta.
Amigo de Chico Mendes, o líder da Reserva Extrativista Cazumba Iracema, Raimundo Silva, aponta a criação das reservas extrativistas (Resex) como um dos principais legados da luta docompanheiro. As Resex são unidades de conservação que permitem o uso sustentável dos recursos naturais pelas populações que vivem no interior dessas áreas.
Ele ficou famoso depois que faleceu, mas deixou uma coisa muito importante que foi o incentivo. Hoje, eu defendo muito a reserva extrativista, porque vejo que a forma que nós temos de segurança, para nossa saúde, é a reserva. Se passa de carro ou de avião por onde não é reserva, você já percebe o tamanho do desmatamento, não tem mais quase floresta, compara.
Além da luta da floresta, Chico Mendes também é lembrado pela defesa da integração entre os povos da floresta índios, ribeirinhos, extrativistas e pela educação. Depois de aprender a ler e a escrever com amigos, Chico Mendes passou a alfabetizar os companheiros do seringal.
Era assim, quem sabia um pouco ensinava para os outros. Depois do nosso movimento, foi que começamos a criar umas escolas no interior. Nós fomos ter o direito de ter uma escola, posto de saúde. Hoje, temos escolas até o segundo grau, comemora Sebastião Mendes.
A viúva do seringueiro, Ilzamar Mendes, acredita que em 20 anos a luta ganhou reconhecimento nacional, o que garantiu conquistas para os trabalhadores da floresta.
Falta muita coisa, mas não somos mais sozinhos. Agora, temos autoridades que nos apóiam, pessoas que nos ajudam a defender a causa do ambientalismo, avalia.
O seringueiro Neto, da Associação dos Produtores do Seringal Equador, vai além e compara a vida e a luta de Chico Mendes à trajetória de um mártir, em nome da Amazônia.
Tem muita gente que quase não acredita mas, na minha visão, eu que trabalhei com ele, o Chico Mendes fez papel de Jesus Cristo: morreu para dar vida a muita gente.
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