Terça-feira, 2 de junho de 2026 - 09h05

ACENO
Antes de qualquer coisa, Confúcio Moura precisa decidir se é candidato
ou se apenas aprecia manter o noticiário em permanente estado de suspense. Em
entrevista ao site Eu Ideal, voltou a acenar com a possibilidade de disputar a
reeleição, mas condicionou a decisão ao eventual retorno de Acir Gurgacz ao
tabuleiro eleitoral. Se Acir for candidato, recua. Se não for, avança. A
política, para o emedebista, parece ter virado uma dança das cadeiras em que
apenas ele conhece a música.
VOLATIVIDADE
O problema é que essa não é a primeira versão apresentada ao público. Em
conversa com este cabeça-chata, garantiu que não disputaria mais cargos
eletivos. Agora admite que pode disputar. Amanhã, quem sabe, descubra uma
terceira hipótese. Em tempos de desconfiança generalizada, a volatilidade
discursiva costuma cobrar pedágio - e este, diferentemente do da BR-364, não
admite desconto.
MELANCOLIA
Confúcio foi, sem dúvida, um dos políticos mais preparados que Rondônia
produziu. Governador bem-sucedido, intelectual acima da média da bancada
federal e homem público de trajetória invejável. Mas há momentos em que a
biografia deixa de empurrar o presente e passa apenas a iluminá-lo de forma
melancólica.
POSIÇÕES
Sua popularidade começou a sofrer abalos profundos quando decidiu criar,
por uma simples canetada ao apagar das luzes do governo, onze reservas
ambientais sem um debate amplo com os setores atingidos. A reação política foi
intensa e o desgaste permanece vivo anos depois. Depois vieram as discussões
sobre a concessão da BR-364 e seu alinhamento ao governo federal, posição
difícil de sustentar num dos estados mais refratários ao lulismo em toda a
Região Norte.
ENCOLHIMENTO
Há outro aspecto que o senador parece ignorar: a erosão de sua própria
base política. Muitos dos companheiros que caminharam ao seu lado durante
décadas já não estão por perto. Alguns se afastaram silenciosamente. Outros
romperam de forma definitiva. Lideranças políticas não se medem apenas pelos
votos que recebem, mas pela quantidade de pontes que conseguem preservar. E,
nesse quesito, o patrimônio político de Confúcio encolheu de forma visível.
VELHO
O MDB de Rondônia também não escapou desse processo. A legenda que já
ocupou posição central no jogo político estadual foi perdendo protagonismo,
influência e capacidade de renovação. O partido parece ter envelhecido junto
com seu principal líder, enquanto novas forças ocuparam espaços antes dominados
pelos emedebistas.
ISOLADO
Existe uma ironia cruel em tudo isso. O político que já foi sinônimo de
articulação, diálogo e capacidade de agregar hoje parece cada vez mais isolado
dentro do próprio campo político. A cada eleição, a roda gira, os aliados mudam
de lado e os antigos aplausos vão sendo substituídos por silêncio.
AMBIGUIDADES
Esta coluna já escreveu elogios sinceros ao ex-governador. Seria
desonesto ignorar sua inteligência, sua capacidade administrativa e sua
contribuição para a história política de Rondônia. Mas também seria desonesto
fingir não enxergar o desgaste de uma liderança que parece cada vez mais
prisioneira das próprias ambiguidades.
DILEMA
Confúcio está diante de uma escolha que talvez seja a mais difícil de
sua longa carreira. Pode preservar a estatura de homem público que ajudou a
construir ao longo de décadas ou insistir em desafiar um eleitorado que já não
demonstra o mesmo entusiasmo de outros tempos. A política, afinal, é impiedosa
com quem acredita que o prestígio acumulado no passado rende juros eternos.
REFLEXO
Eis o drama do senador: sua biografia continua grande, mas sua influência
parece cada vez menor. Se insistir em disputar a reeleição, poderá descobrir
que o adversário mais perigoso não está em nenhum partido, nem em qualquer
palanque. Está no espelho. Porque chega um momento em que não é o político que
escolhe a hora de encerrar um ciclo. É o próprio ciclo que encerra o político.
PAUTA
A Câmara dos Deputados produziu um daqueles raros momentos em que a
política parece ouvir o país real. A aprovação da PEC que reduz a jornada
semanal de trabalho e coloca fim à desgastante escala 6x1 reuniu votos da
esquerda, do centro e até da direita, demonstrando que a exaustão do
trabalhador brasileiro finalmente entrou na pauta nacional.
TEMPO
A proposta não trata apenas de horas e números. Trata de tempo. Tempo
para a família, para os filhos, para os estudos, para o descanso e para algo
cada vez mais raro na vida moderna: viver. Durante décadas, milhões de
brasileiros conviveram com a rotina de trabalhar seis dias para descansar
apenas um, transformando o lazer em privilégio e a convivência familiar em
artigo de luxo.
REPETIÇÃO
Os críticos da mudança repetem os velhos alertas usados contra
praticamente todos os avanços sociais da história. Foram os mesmos argumentos
apresentados contra férias remuneradas, décimo terceiro salário e tantos outros
direitos que hoje parecem naturais. Nenhuma sociedade se torna mais
desenvolvida apenas produzindo mais; ela avança quando proporciona melhores
condições de vida para quem produz a riqueza.
RESISTÊNCIA
Agora a matéria desembarca no Senado, onde encontra resistências mais
organizadas. Os senadores que pretendem barrar ou desfigurar a proposta fariam
bem em observar o humor das ruas. O trabalhador que acorda cedo, enfrenta
trânsito, ônibus lotado, jornadas extenuantes e chega em casa sem energia para
conviver com a família já não enxerga esse debate apenas como uma discussão
técnica.
FAMÍLIAS
Em estados como Rondônia, onde os servidores públicos estaduais e
municipais formam um contingente expressivo do eleitorado, a discussão ganha um
componente particular. É verdade que boa parte desses servidores já possui
jornadas e regimes de descanso mais favoráveis do que aqueles enfrentados pela
maioria dos trabalhadores celetistas. Mas são justamente eles que convivem
diariamente com filhos, pais, irmãos, cônjuges e amigos submetidos à escala
6x1. Muitos desejam que seus familiares tenham acesso ao mesmo tempo livre, à
mesma convivência familiar e às mesmas oportunidades de descanso que eles
próprios já possuem.
PROBLEMA
Não adianta tentar tapar o sol com a peneira. A população acompanha cada
vez mais as votações e cobra coerência dos seus representantes. Em ano
eleitoral, posicionar-se contra uma pauta identificada por milhões de
trabalhadores como um avanço humanitário e civilizatório pode se transformar em
um problema político de grandes proporções. Louco é o político que dá ouvidos
para vozes dissonantes.
URNAS
O Senado tem o direito de aperfeiçoar a proposta. O que talvez não
consiga é escapar do julgamento das urnas caso seja visto como o responsável
por impedir que milhões de brasileiros tenham mais tempo para viver além do
trabalho. Em política, há votações que passam despercebidas. Esta dificilmente
será uma delas.
GUERRA
Entre colheitadeiras reluzentes, tratores que custam pequenas fortunas e
o entusiasmo típico das feiras agropecuárias, um grupo chamou mais atenção do
que as máquinas expostas na Rondônia Rural, em Ji-Paraná. Não por apresentar
novas tecnologias para o campo, mas por cultivar um produto político que segue
rendendo dividendos eleitorais: a guerra permanente contra o Supremo Tribunal
Federal.
EXTREMOS
O pré-candidato ao Senado Bruno Scheid percorreu a exposição acompanhado
pela tropa de choque do bolsonarismo raiz - os deputados federais Zé Trovão e
Hélio Lopes, além da vereadora Sofia Andrade. Todos vestiam camisetas pretas
com a inscrição “O Diabo Usa Toga”, numa referência nada sutil aos ministros da
Suprema Corte e, especialmente, ao ministro Alexandre de Moraes.
APOSTA
A provocação tem propósito e público-alvo. Scheid não faz questão de
esconder que uma de suas principais bandeiras é o impeachment de ministros do
Supremo. Em vez de suavizar o discurso para conquistar setores moderados do
eleitorado, prefere dobrar a aposta na polarização e alimentar a militância
mais fiel da direita bolsonarista.
BOLHA
O raciocínio parece simples: se a bolha conservadora, estimada por
pesquisas em cerca de 30% do eleitorado, permanecer mobilizada, poderá ser
suficiente para empurrá-lo rumo a uma das vagas ao Senado. Pode ser um cálculo
correto. Pode ser um equívoco monumental. A urna, em outubro, dará a sentença.
RAÍZES
Mas há um fato impossível de ignorar. Bruno Scheid surgiu na disputa
praticamente do nada. Sem raízes profundas nos grupos políticos tradicionais de
Rondônia, sem vínculos com a burocracia partidária que costuma definir
candidaturas e sem a trajetória convencional dos postulantes ao Senado.
IMPOSIÇÃO
Sua candidatura não nasceu das articulações do PL rondoniense, mas dá
vontade de Jair Bolsonaro. Foi uma imposição do ex-presidente ao partido. Desde
então, Scheid passou a ocupar um lugar peculiar no imaginário bolsonarista
local: uma espécie de filho bastardo político de Bolsonaro, tratado por aliados
e adversários como o “Zero Cinco” da família na política de Rondônia.
INCOMODANDO
Eis o paradoxo. Embora tenha saído da obscuridade política e ideológica,
Scheid conseguiu aquilo que muitos nomes tradicionais perseguem sem sucesso:
chamar atenção. Seu discurso incomoda adversários, embaralha cálculos
eleitorais e desperta inquietação até entre candidatos que já contavam como
certo um pedaço do eleitorado conservador.
ESPÓLIO
As eleições sequer começaram oficialmente. Há muito chão, muitas
alianças e inevitáveis traições pela frente. Mas uma constatação já pode ser
feita. Enquanto os velhos caciques seguem discutindo quem herdará o espólio
político da direita em Rondônia, Bruno Scheid trabalha para convencer os
eleitores de que não pretende ser herdeiro de ninguém. Quer ser o próprio
inventário.
VITRINE
A Rondônia Rural Show
transformou-se numa vitrine de máquinas agrícolas, negócios milionários e, pelo
visto, também de promoção política disfarçada. Quem percorreu os corredores da
feira encontrou uma floresta de outdoors, placas e peças publicitárias de pré-candidatos
que pareciam mais preocupados em plantar votos do que apresentar projetos.
FATOS
Foi exatamente isso
que o jornalista Rubens Coutinho, do Tudo Rondônia, observou e denunciou
publicamente, cobrando dos órgãos de fiscalização eleitoral a atenção que os
fatos exigiam. O que veio em seguida foi ainda mais espantoso que a
paisagem eleitoral antecipada.
EQUILÍBRIO
Em vez de uma
manifestação institucional equilibrada ou mesmo o silêncio prudente, surgiu das
profundezas burocráticas do Tribunal Regional Eleitoral uma nota agressiva, mal
redigida e carregada de arrogância. Um texto tão desastrado que parecia escrito
às pressas por alguém confundindo assessoria de comunicação com corregedoria
disciplinar.
LOROTA
Há anos os tribunais pedem parceria da imprensa no combate aos abusos,
na defesa da democracia e na fiscalização do processo eleitoral. Bonito no
discurso. Na prática, quando um jornalista faz exatamente aquilo que dele se
espera - observar, questionar e cobrar - recebe como resposta um puxão de orelhas
público. A mensagem é cristalina: a colaboração é bem-vinda desde que não
incomode. Quem cai na lorota leva coice.
RÉU
O episódio expõe uma contradição constrangedora. Enquanto políticos
avançam sobre os limites da legislação eleitoral com a confiança de quem sabe
que dificilmente será incomodado, a energia institucional parece ser
direcionada contra quem aponta o problema. O fiscal vira réu moral e os
possíveis infratores permanecem confortavelmente instalados sob os holofotes.
OFENSA
Não há memória recente no jornalismo rondoniense de manifestação oficial
tão infeliz, tão desnecessária e tão ofensiva contra um profissional que apenas
exerceu sua função. O texto divulgado em nome da Corte não constrangeu Rubens
Coutinho; constrangeu a própria instituição que permitiu sua publicação.
TOGA
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais tantos agentes políticos se
arriscam a caminhar na fronteira da lei. Aprenderam, ao longo do tempo, que os
alertas costumam incomodar mais do que os abusos. E quando o mensageiro passa a
ser o problema, a mensagem perde a força e a democracia perde um pouco
mais. Por esta e outras razões os políticos desfilam por aí com frases
emblemáticas de que o diabo usa toga.
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