Quinta-feira, 28 de maio de 2026 - 09h30

MUDANÇA
Não duraram mais que
algumas horas as juras de fidelidade de parte da bancada federal de Rondônia ao
empresariado local contrário à PEC que reduz a jornada de trabalho e enterra a
escala desumana do 6x1. A pressa da Fecomércio em distribuir nota pública elogiando
deputados rondonienses que votariam contra a proposta revelou muito mais que
simples divergência ideológica: escancarou a velha aliança entre setores
patronais e políticos que ainda enxergam o trabalhador apenas como peça de
reposição barata da engrenagem econômica.
JOGO
Enquanto o país
discute qualidade de vida, produtividade e equilíbrio entre trabalho e
dignidade humana, parte da elite econômica rondoniense segue estacionada no
século passado, defendendo jornadas extenuantes como se descanso fosse
privilégio e não direito civilizatório. Nada surpreendente. Entidades patronais
existem para defender lucro. Faz parte do jogo. O problema começa quando
parlamentares eleitos pelo povo se apresentam como representantes exclusivos
dos interesses empresariais.
CONVERSÃO
Acontece que a
política possui um detalhe inconveniente: voto. E o voto costuma ter memória
quando o assunto mexe diretamente no cotidiano da maioria esmagadora da
população. Bastou a pressão popular crescer nas redes, nos sindicatos, nas ruas
e nos grupos de WhatsApp para que deputados que posavam de soldados do mercado
descobrissem, de uma hora para outra, as virtudes sociais da redução da jornada
de trabalho. A conversão foi tão rápida quanto constrangedora.
CONVICÇÃO
Os mesmos parlamentares
que horas antes eram celebrados pela Fecomércio como defensores da manutenção
da escala 6x1 passaram a apoiar a PEC diante do risco de carregarem nas costas,
em ano pré-eleitoral, a pecha de inimigos do trabalhador. Não houve mudança de
convicção. Houve mudança de cálculo político.
SOBREVIVÊNCIA
No íntimo, muitos
continuam contrários à redução da carga horária. Consideram a proposta um
excesso, um custo, uma ameaça ao modelo econômico que sempre privilegiou lucro
acima de bem-estar social. Mas perceberam que há momentos em que o instinto de
sobrevivência eleitoral fala mais alto que qualquer fidelidade ideológica.
DESGASTE
A reação expõe uma
verdade incômoda sobre a política brasileira: boa parte do Congresso Nacional
não se move por convicção, mas pela direção do vento. Quando a pressão vem de
cima, dos financiadores e das entidades patronais, adotam um discurso. Quando o
calor sobe nas ruas e o eleitor começa a prestar atenção, ajustam rapidamente o
voto para evitar desgaste.
FOTO
A bancada rondoniense
apenas repetiu um comportamento antigo da política nacional: fingir resistência
enquanto acredita que o tema não mobilizará a sociedade e, diante do risco
eleitoral, correr para o lado mais seguro da fotografia.
MEDO
A Fecomércio, por sua
vez, terminou exposta numa situação embaraçosa. Correu para aplaudir
parlamentares antes da votação e acabou assistindo, poucas horas depois, os
mesmos deputados abandonarem publicamente a trincheira patronal para salvar a
própria pele política. No fim, venceu menos a consciência social e mais o medo
das urnas. E isso diz muito sobre Brasília.
SENTENÇA
A absolvição do
ex-prefeito de Porto Velho, Roberto Sobrinho, encerra um dos capítulos mais
duros da política rondoniense recente. Durante anos, Roberto carregou a pecha
de corrupto em razão das denúncias surgidas na operação policial “Liminus”,
espetáculo midiático que o empurrou para o isolamento político e praticamente o
baniu das disputas eleitorais.
FATOS
A sentença
absolutória não devolve o tempo perdido, as humilhações sofridas nem os
prejuízos pessoais e eleitorais acumulados ao longo da travessia. Mas
representa, ao menos, um alívio moral para quem passou mais de uma década
lutando para provar inocência nos fatos investigados na Emdur.
EXCESSOS
Em tempos de
condenações antecipadas pela opinião pública, a decisão judicial recoloca em
debate os excessos cometidos contra agentes públicos antes do trânsito final
dos processos. Roberto sai menor politicamente do que entrou na tormenta, porém
mais leve diante da história. E maior na intimidade.
INELEGIBILIDADE
O parecer do
Ministério Público Federal contrário ao afastamento da inelegibilidade de Natan
Donadon joga água fria nas especulações sobre um possível retorno eleitoral do
ex-deputado. O MPF sustentou que o indulto presidencial não alcança os efeitos
da Lei da Ficha Limpa, mantendo válidas as restrições eleitorais decorrentes da
condenação criminal.
VIGILÂNCIA
A manifestação
acompanha o entendimento predominante no STF e no TSE, que diferenciam extinção
da pena e elegibilidade. Politicamente, a posição do Ministério Público cria
mais um obstáculo jurídico no caminho de Donadon. Em Rondônia, onde as disputas
eleitorais nunca descansam, o caso volta a movimentar bastidores e alimentar
debates sobre justiça, política e memória pública. O MPF em Rondônia está
vigilante contra candidatos enrascados na justiça.
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