Terça-feira, 14 de outubro de 2025 - 12h39

ADULAÇÃO
Não houve um único dirigente partidário entrevistado por este cabeça
chata no Podcast Resenha Política que não tenha se ajoelhado
em louvores ao prefeito da capital, Léo Moraes. É uma unanimidade digna de
missa de corpo presente: todos querem o apoio do homem. As razões não exigem
esforço analítico — basta olhar as pesquisas. Os números de aprovação de Léo
explicam por que tanto figurão o trata com o fervor reservado a santos de
devoção repentina. A política, afinal, é o único altar onde se reza por
interesse.
SANTINHO
A história eleitoral de Porto Velho é avara em dados sobre quem
realmente transfere votos. Mas é certo que hoje, quem subir no mesmo palanque
de Léo Moraes sai na frente — ainda que leve o microfone desligado. Em tempos
de candidatos que não arrastam nem parente, o prefeito virou ativo valioso. Um
aval de Léo vale mais que santinho em domingo de eleição.
TIKTOK
Léo Moraes, o “prefeito TikTok”, reina nas redes com a desenvoltura de
um influencer em campanha eterna. O homem dança, sorri, põe colante, peruca e
fala com o eleitor como quem vende açaí — e dá certo. Cada vídeo é um comício
em miniatura. O sucesso irrita um vereador desafeto, que se corroem entre
filtros e hashtags furiosos. Mesmo sem disputar cargo em 2026, Léo continuará
sendo o político mais paparicado do pedaço. A inveja, como se sabe, é o mais
democrático dos sentimentos políticos. Ele aparece é todas as plataformas. Dia
e noite.
ISOLAMENTO
Enquanto isso, o ex-prefeito Hildon Chaves tenta ressuscitar o PSDB com
a energia de quem sopra brasa molhada. Anunciou sua pré-candidatura ao governo
prometendo, em trinta dias, apresentar uma nominata de tucanos competitivos. O
prazo venceu, e o que se viu foi uma revoada solitária: Hildon, ele mesmo, e o
eco do seu próprio discurso. O isolamento político é cruel — sobretudo quando o
sujeito acredita que liderança é sinônimo de autoelogio.
PLANOS
Mantido o isolamento, Hildon terá de descer do pedestal e rever planos.
O sonho de disputar o governo pode se transformar, no máximo, em uma
candidatura de consolação — talvez a deputado federal, onde há oxigênio em
abundância. O Senado, ele sabe, é uma arena congestionada de vaidades e egos
hipertrofiados. A vice-governadoria, por outro lado, é o cargo que todos os
adversários adorariam empurrar para ele, com tapinha nas costas e sorriso de
velório. À medida que 2026 se aproxima, o ex-prefeito terá de escolher entre
reinventar-se ou permanecer como está: isolado e redundante. Quem viver, verá.
PROFETAS
O senador Marcos Rogério (PL) anda proclamando aos quatro ventos sua
candidatura ao governo, como se fosse profeta em terra de incrédulos. É
lembrado para o Senado e pontua também para o governo, o que já é mais do que a
maioria consegue. Os sabichões de plantão garantem que, em um eventual segundo
turno, Rogério seria presa fácil. Esquecem que, em Rondônia, o improvável é
regra e o previsível, exceção.
BOÇAL
Eleições majoritárias são como corridas de jegue: vence quem tropeça
menos. O perfil do candidato pesa mais que qualquer discurso decorado. Nesse
quesito, a boçalidade jovial de Adailton Fúria — que confunde empolgação com
preparo — pode ser seu maior inimigo. A gritaria, o improviso e o espetáculo
permanente encantam por um instante, mas cansam rápido.
CONTRASTE
Já Marcos Rogério, com toda sua pompa de político estudioso e metódico,
acaba parecendo um estadista comparado ao prefeito guri de Cacoal. Em um
eventual segundo turno, a comparação entre o improviso barulhento e a
experiência ensaiada pode jogar o eleitor no colo do senador. Em política, o
excesso de entusiasmo é tão fatal quanto a falta de noção — e Fúria, nesse
quesito, é um entusiasta profissional.
TURISMO
O carioca Cabo Daciolo resolveu transferir o título para Rondônia.
Anuncia, sem corar, que será candidato ao Senado. É direito dele — e desgraça
nossa — que a legislação eleitoral permita esse tipo de turismo político. O
sujeito sequer mora aqui, mas a lei, generosa como uma mãe desnaturada,
autoriza a farra.
VASSOURADA
A candidatura, sejamos francos, não mereceria nem uma nota de rodapé.
Mas, como o Cabo já se aventurou na eleição presidencial — terminando, claro,
no fim do cabo da vassoura —, este escriba se vê obrigado, por dever de ofício,
a gastar algumas linhas com a figura.
CABO
Não é análise, é necropsia política. A pretensão eleitoral de Daciolo é
tão rasa que até poça d’água se sente ofendida com a comparação. Aposto os
pelos de uma vassoura velha que o Cabo vai pontuar nas urnas em algo entre o
zero e a imaginação de seus devotos. Há por aí quem aposte o contrário — deve
ser algum soldado do Cabo, desses que acreditam que fé multiplica voto.
MESSISMO
Não é a primeira aparição desse tipo em Rondônia. Já tivemos o “Homem do
Chapéu”, o cantor Dalvan e outros aventureiros do populismo tropical. Todos
vieram com a mesma ladainha messiânica e terminaram no mesmo lugar: o
esquecimento.
MILAGRE
Cabo Daciolo não será exceção. Mas, justiça se faça, já conseguiu mais
do que merecia: parágrafos inteiros nesta coluna. Um milagre maior que todos os
que ele promete. Nem Zé Carioca conseguiria algo igual.
CRIME
É comovente — quase uma coreografia de cinismo — ver nossos
parlamentares se dedicarem a justificar o injustificável, transformando o crime
em ato de bravura cívica. A exploração de ouro no Rio Madeira, sem autorização
legal, é crime — simples assim. Mas, para suas excelências,
parece um detalhe burocrático. Garimpeiros rasgam o leito do rio e despejam
mercúrio como quem joga confete em carnaval fora de época, celebrando a própria
ilegalidade sob aplausos cúmplices. E ainda há quem critique os policiais por
fazerem o que deveriam: cumprir a lei. No Brasil, o crime não é apenas tolerado
— é tratado como expressão de liberdade econômica.
COP
Faltando poucos dias para a COP 30, o governo brasileiro se empenha, com
inegável competência diplomática, em transformar Belém na vitrine de um país
que pretende conciliar desenvolvimento e preservação. Um esforço legítimo e
necessário. Mas, enquanto Brasília ensaia discursos verdes para impressionar o
mundo, parte do Congresso rema em sentido contrário — defendendo, sem pudor,
atividades que depredam o meio ambiente e afrontam a legislação. O governo
tenta mostrar civilização; o Parlamento insiste na Idade da Pedra. Assim, o
país que busca protagonismo climático corre o risco de ser lembrado como o
velho Brasil: abundante em recursos, miserável em juízo.
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