Quinta-feira, 22 de janeiro de 2026 - 11h00

DEBILIDADE
Ao admitir que o Podemos, isoladamente, não possui musculatura eleitoral para
sustentar um projeto competitivo ao Governo de Rondônia, o prefeito de Vilhena,
Flori Cordeiro, acaba reconhecendo — ainda que de forma involuntária — que seu
nome não empolgou o eleitorado como alternativa real à polarização entre Marcos
Rogério (PL) e Adailton Fúria (PSD). A história recente das eleições
rondonienses demonstra que vitórias ocorreram mais pela força pessoal dos
candidatos do que pela densidade partidária, como nos casos de Léo Moraes e
Marcos Rocha. Essa ausência de capilaridade estadual revela menos sobre o
partido e mais sobre a debilidade eleitoral de Flori fora do Cone Sul.
ALTERNATIVA
É possível, em tese, que Flori reúna forças para se apresentar como alternativa
viável ao governo. Contudo, até aqui, suas movimentações não demonstraram a
mesma robustez política que construiu como gestor municipal. Trata-se, sem
dúvida, de um nome emergente, porém ainda restrito a uma influência territorial
limitada. Daí a necessidade de ancorar sua pretensão no apoio “incondicional”
do prefeito da capital, Léo Moraes. Apoio que, por si só, não faz milagre.
TRANSFERÊNCIA
Léo Moraes é, indiscutivelmente, o prefeito mais popular da história recente de
Porto Velho, superando, ao menos por ora, a figura carismática de Chiquilito
Erse. O eleitor da capital aprova, elogia e vibra com sua gestão. Isso,
entretanto, não significa que o candidato por ele indicado ao governo será
automaticamente sufragado nas urnas. O eleitor porto-velhense ainda conserva o
hábito — cada vez mais raro no país — de pensar antes de votar.
COMPLEXIDADE
Tradicionalmente, Porto Velho abriga o eleitorado mais complexo e imprevisível
do estado, aquele que costuma decidir o voto nos estertores da campanha. A
transferência de votos nesse colégio eleitoral é tarefa árdua, mesmo para um
cabo eleitoral de luxo como Léo Moraes. Seu apoio é valioso, mas não ilimitado.
Dados aos quais a coluna teve acesso indicam que essa transferência tem teto.
Flori precisará, além do endosso do prefeito da capital, conquistar o eleitor
por méritos próprios, sob pena de permanecer como liderança regional bem
avaliada, porém confinada ao Cone Sul.
XERIFE
A postura de ex-delegado da Polícia Federal de Flori Cordeiro, notadamente
quando comandava operações de combate à corrupção em prefeituras acusadas de
mau uso de recursos federais, ainda ecoa com desconforto entre atores políticos
de Rondônia. Em conversas reservadas com este cabeça-chata, diversos detentores
de mandato demonstraram receio do estilo “xerifão” que, segundo eles, permeia a
relação do prefeito de Vilhena com aliados e correligionários. Na política,
excesso de rigidez costuma gerar mais resistência do que respeito.
JURISDIÇÃO
Na entrevista ao site Rondônia dinâmica , Flori também afirmou que o
ex-presidente Jair Bolsonaro seria vítima de perseguição política por estar
sendo julgado em instância que, segundo sua interpretação, não seria a
competente. Para o prefeito, os atos denunciados pelo Ministério Público
Federal deveriam tramitar na primeira instância, e não sob a jurisdição do
Supremo Tribunal Federal.
LAWFARE
Flori classifica o caso como típico exemplo de lawfare, termo
utilizado para caracterizar o uso do aparato jurídico como instrumento de
perseguição política e destruição de reputações. Curiosamente, é o mesmo
conceito aplicado à atuação do ex-juiz Sérgio Moro, quando este utilizava
métodos heterodoxos para aniquilar réus sob sua jurisdição. Embora defenda um
julgamento justo para Bolsonaro, Flori silencia sobre o mérito das acusações
que resultaram em condenações. Como delegado, interpretava a lei de forma
restritiva; como político, passou a enxergá-la com elástica conveniência.
PODCAST
Neste sábado, no podcast Resenha Política, este cabeça-chata
entrevista, pela primeira vez, o prefeito Flori Cordeiro na condição de
pré-candidato ao governo do estado. Será a oportunidade de conhecer suas
propostas para os problemas de Rondônia e entender como ele pretende estruturar
uma candidatura estadual. A entrevista promete — inclusive contradições.
JUCER
A coluna recebeu inúmeras denúncias contra a Junta Comercial de Rondônia
(Jucer) pela inoperância nos serviços básicos. Apesar da propaganda oficial que
exalta uma suposta excelência no atendimento em 2025, o início de 2026 tem sido
um suplício para quem empreende. Alterações de pessoa jurídica e novos
registros enfrentam lentidão extrema, impedindo a emissão de notas fiscais e
travando negócios. O discurso institucional é exatamente o oposto da prática.
Trata-se de um órgão vital para a economia estadual, hoje administrado com
ineficiência. As plataformas digitais existem, mas não funcionam. O Estado
adora arrecadar, mas continua péssimo em reduzir a burocracia que ele próprio
cria.
MEDICINA
Os cursos de Medicina que obtiveram notas medíocres no exame nacional que
avalia a formação dos futuros médicos escancaram uma tragédia anunciada: a
proliferação irresponsável dessas graduações sem condições mínimas de
funcionamento. Em Rondônia, à exceção da Universidade Federal, as demais instituições
apresentaram resultados constrangedores e devem sofrer sanções severas. É
inexplicável a existência de um curso de Medicina sem hospital universitário
adequado para a prática clínica. Com mensalidades exorbitantes, tais cursos
funcionam menos como centros de ensino e mais como máquinas de encher os bolsos
de seus proprietários com gordos caraminguás. O Conselho Medicina ameaça não
conceder os registros, mas precisa na prática se antecipar a calamidade antes
que a população seja a vítima.
CONSUMADO
Quando a BR-364 ainda era promessa de concessão, a bancada federal de Rondônia
praticou seu esporte preferido: o silêncio cúmplice. Não houve audiência
barulhenta, denúncia formal nem bravata em Brasília. Agora, com o pedágio
instalado, caro e operando como relógio suíço, só que cobrando em real
amazônico, os mesmos parlamentares descobriram a indignação tardia. Gritam para
as redes sociais, não para os autos. A crítica virou performance, porque
denunciar antes exigia trabalho; reclamar depois rende curtida nas redes
sociais e enrolação eleitoral.
OMISSÃO
O pedágio virou fato consumado e, com ele, nasceu uma oposição de conveniência.
A bancada que deveria ter fiscalizado, pressionado o edital e enfrentado a
concessão quando ainda era reversível, agora posa de defensora do povo, como se
tivesse sido pega de surpresa no acostamento. É o velho truque: deixam a
porteira fechar para, em seguida, berrar contra o cadeado. O contribuinte paga
a tarifa; os parlamentares pagam apenas o preço da própria omissão, ainda assim
parcelado em discursos vazios.
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