Quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026 - 09h29

JUSTIÇA
A decisão da Justiça Federal que condena a Funai e a Santo Antônio Energia a
cumprir integralmente as medidas compensatórias previstas no Plano Básico
Ambiental – Componente Indígena (PBA-CI) não representa ativismo judicial, mas
cumprimento rigoroso da lei. Grandes empreendimentos não podem operar à margem
das condicionantes que viabilizaram seu licenciamento. Quando há falhas e
atrasos na execução dessas obrigações, rompe-se não apenas um cronograma
administrativo, mas o pacto institucional firmado com os povos indígenas
impactados. Em Rondônia, onde os efeitos sociais e ambientais de obras
estruturantes são permanentes, garantir diagnóstico, reavaliação de impactos e
proteção a povos isolados é medida civilizatória. Desenvolvimento não pode
significar atropelo de direitos originários.
HOSTILIDADE
Em nosso estado, defender povos indígenas, reservas ambientais e políticas de
proteção socioambiental tornou-se, para muitos, um ato de resistência.
Segmentos políticos influentes — especialmente ligados ao agro mais
radicalizado — tratam qualquer política de preservação como obstáculo ao
crescimento econômico. Povos originários são frequentemente relegados à
condição de entraves ideológicos, quando são titulares de direitos
constitucionais expressos. A polarização política agravou o ambiente, tornando
hostil o espaço público para quem defende comunidades vulneráveis e o meio
ambiente. Decisões judiciais firmes funcionam, nesse cenário, como contenção
institucional contra a erosão de garantias fundamentais. A coluna conhece
político que vive sob ameaça e proibido inclusive de visitar município com
receio de levar uma bala.
FACHADA
Embora a esquerda não apresente força eleitoral consistente para vencer o
governo estadual, os candidatos da direita travarão uma disputa retoricamente
polarizada. A estratégia será colar no adversário vínculos históricos com a
esquerda e fabricar rótulos ideológicos convenientes. A maioria dos postulantes
construiu trajetória ancorada em agendas conservadoras. A retórica tende a
mobilizar paixões, mas dificilmente revelará diferenças programáticas
profundas.
ALGORITMOS
A manipulação de narrativas ganhará força com o uso intensivo das redes
sociais. Recortes de falas serão amplificados para rotular adversários.
Enquanto o debate permanecer restrito a essas disputas simbólicas, problemas
estruturais — diversificação econômica, infraestrutura, sustentabilidade
fiscal, educação, saúde e inovação — ficarão à margem. Crescem sinais de
campanhas personalistas, centradas na imagem e não na apresentação de soluções
concretas.
IMPROVÁVEL
Com a aproximação do fim de março e início de abril, o cenário eleitoral tende
a sofrer reconfigurações importantes. Desistências estratégicas, novas
candidaturas e rearranjos partidários devem embaralhar o jogo. Rondônia tem
histórico de definições tardias. O quadro é fluido e ainda comporta surpresas.
ABERTA
Não há favoritismo consolidado. A tradição eleitoral rondoniense é de campanhas
intensas, disputadas voto a voto, muitas vezes decididas nas curvas finais.
Previsões definitivas, neste momento, são arriscadas.
SURPRESAS
Marcos Rogério (PL), Adailton Fúria (PSD) e Hildon Chaves (Republicanos)
aparecem mais bem posicionados, nessa ordem. Delegado Flori (Podemos) trabalha
para consolidar viabilidade competitiva. Até aqui, não surge outro nome com
força suficiente para alterar substancialmente o cenário. A disputa promete ser
dura, com peso maior para trajetória administrativa, capacidade de gestão e
posicionamento político claro — embora apoios sejam sempre relevantes.
ARTICULAÇÃO
A entrevista do governador Marcos Rocha ao podcast Resenha Política atraiu
audiência expressiva, especialmente quando afirmou, de forma peremptória, que
está fora das eleições de 2026. A declaração reduz especulações e reorganiza o
tabuleiro. Ao mesmo tempo, Rocha deixou claro que pretende liderar o PSD no
estado, com a meta ambiciosa de eleger o maior número possível de deputados
estaduais e federais. Reafirmou ainda apoio à pré-candidatura de Adailton Fúria
ao governo, sinalizando que, mesmo fora da disputa majoritária, continuará
influente no processo eleitoral por meio da articulação partidária.
CARNAVAL
Nesta quinta-feira, o Resenha Política recebe Ciça Andrade,
presidente da tradicional Banda do Vai Quem Quer. A expectativa é de um
Carnaval grandioso, com promessa de arrastar mais de duzentas mil pessoas no
sábado carnavalesco pelas ruas da capital. Cultura popular e política, aliás,
muitas vezes se cruzam na dinâmica local. E fica o aviso aos ouvintes: na
terça-feira de Carnaval o podcast não estará no ar, em razão das festividades.
Retornamos na programação seguinte, após a folia.
SIMBIOSE
A homenagem ao presidente Lula por uma escola de samba do Grupo Especial no
Carnaval do Rio de Janeiro, em um ano eleitoral e marcado por forte polarização,
revela-se um movimento politicamente sensível e estrategicamente questionável.
A trajetória do presidente possui, sem dúvida, densidade histórica e elementos
narrativos capazes de sustentar um enredo consistente. O problema não está no
personagem em si, mas no contexto. Ao levar para a avenida uma figura política
em pleno ambiente de disputa ideológica acirrada, a escola corre o risco de
judicializar simbolicamente uma festa que é patrimônio cultural e vitrine
mundial do Brasil. Carnaval é expressão artística e popular — e a arte é livre
—, mas a simbiose direta com a política partidária, em momento tão tensionado,
tende a ampliar antagonismos. O resultado previsível é a transferência da
polarização para a Sapucaí, com aplausos e vaias dividindo arquibancadas e
desviando o foco daquilo que deveria ser central: o espetáculo, a cultura e a
celebração coletiva.
INVESTIGAÇÃO
Gigante privada do saneamento, controlada pela holding Montese (famílias Toledo
e Vettorazzo), a Aegea expandiu sua presença pelo país na última década
acumulando concessões de água e esgoto, sobretudo em municípios médios e
pequenos. Essa expansão, no entanto, foi atingida por acordos de colaboração e
leniência firmados após executivos admitirem, em delação homologada pelo STJ em
2025, o pagamento de propinas entre 2010 e 2018 para obtenção ou manutenção de
contratos. O acordo prevê pagamento de R$ 439 milhões e envolve fatos ainda sob
sigilo judicial.
RADAR
Entre os estados mencionados nos anexos da delação — cujo conteúdo permanece
sob sigilo — constariam referências a supostas propinas direcionadas a agentes
políticos em municípios de Rondônia onde a empresa mantém contratos para
expansão dos serviços de água e esgoto. Há investigações em andamento. Como os
termos ainda não vieram a público oficialmente, trata-se de apontamentos sob
apuração, mas que já colocam o ambiente político local em estado de atenção.
ABALO
Até o momento, nenhum nome da política rondoniense veio a público. Ainda assim,
a empresa elenca Rondônia entre os estados em que supostamente teria ocorrido
pagamento de vantagens indevidas, segundo os termos da delação homologada e
mantida sob sigilo. Caso as investigações confirmem que agentes públicos
receberam benefícios ilícitos para viabilizar a instalação ou manutenção das
concessões, o estado poderá assistir a um novo escândalo de grandes proporções.
O impacto não seria apenas jurídico, mas também eleitoral e institucional,
especialmente em um ambiente político sensível a denúncias envolvendo contratos
públicos de grande porte. Por ora, prevalece a presunção de inocência — mas o
potencial de desgaste é evidente.
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