Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026 - 08h10

Da antiga Babilônia às
plataformas contemporâneas de entretenimento, a escravidão não foi extinta — foi
racionalizada. Correntes tornaram-se narrativas; grilhões, consensos;
deuses, algoritmos. Já não é necessário impor
submissão: ela agora é praticada com
entusiasmo, devidamente justificada por slogans, métricas e
promessas de pertencimento. A capitulação intelectual deixou de ser
constrangimento — converteu-se em
virtude socialmente premiada. Mudaram-se os altares; permanece a liturgia da
imaginação.
A engrenagem da desigualdade persiste porque os
explorados, em sua maioria, sequer percebem que o são. A mais
cruel das dominações não é aquela
imposta pela força, mas a
que se naturaliza pela adaptação. A extraordinária capacidade humana de suportar adversidades transforma
o inaceitável em rotina, a
exceção em norma, e a exploração em destino administrável.
No atrito entre o que se diz e o que se faz, surge um
abismo. Nesse instante, a realidade se descola do discurso, gerando
desconforto: contradições configuram um insulto à razão. É quando o verniz normativo racha, expondo a hipocrisia
da engrenagem — social, institucional ou mesmo religiosa — a operar
em desacordo com a própria narrativa que não logra legitimá-la. Diante disso, o silêncio já não é prudência, mas conivência —
e deve ser rompido pelo dever moral à lucidez.
A adaptação ao absurdo é, muitas vezes,
celebrada como resiliência. No entanto,
essa resiliência pode ocultar uma
forma sutil de rendição: a aceitação tácita de estruturas que perpetuam assimetrias sob o
disfarce de ordem ou salvação. Estados e organizações religiosas, por vezes, entrelaçam interesses que pouco dialogam com valores morais ou
civilizatórios, convertendo o temor metafísico em instrumento de conformidade social.

Promessas de juízo final ou de paraísos com atrativos materiais — inalcançáveis por uma existência reduzida à abstração energética — funcionam como dispositivos de compensação simbólica. Oferecem sentido onde há
privação,
transcendência onde há
impotência, e esperança onde a justiça material se ausenta. Nesse arranjo, política e mercenarismo espiritual podem convergir,
sustentando uma economia da crença que se alimenta da vulnerabilidade dos atemorizados.
Não se trata de opor-se a fé enquanto
experiência
íntima, mas de reconhecer quando ela é instrumentalizada
como arquitetura de contenção. Altares mudam; a capitulação persiste. E
enquanto a submissão de ontem buscava amparo na força, a de hoje encontra abrigo no significado.
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