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Samuel Saraiva

Divagações …


Divagações … - Gente de Opinião

Há uma verdade que raros têm coragem de mirar de frente — uma verdade que, embora incômoda, liberta: nenhuma força sobrenatural desce para corrigir injustiças, deter a crueldade ou apagar o desamparo que atravessa o mundo. O divino, se existe, vagueia num plano etéreo, distante, como um sonho que se repete, mas jamais se materializa. A realidade, porém, é de outra matéria: pulsa em vidas que padecem, em destinos que se desfazem no vento, em dores que não reconhecem súplicas.

E, paradoxalmente, é nesse solo árido que o ser humano encontra sua grandeza secreta. Descobre que o único amparo verdadeiro nasce do próprio peito, do gesto silencioso de quem se ergue após cada queda, da coragem íntima de reconstruir-se sem testemunhas. Com lucidez amadurecida, compreende que boa parte do sofrimento — essa dor discreta que pesa como chumbo na alma — brota das ilusões que tecemos, dos desejos que inflamos e não realizamos, da esperança que depositamos, com ingenuidade, em pessoas emocionalmente empobrecidas, incapazes de oferecer aquilo que projetamos nelas. Sofremos, muitas vezes, não pelo que o mundo é, mas pelo que nossa leitura imatura e romantizada insiste em inventar.

Há quem permaneça prisioneiro dessa cegueira afetiva: espíritos que, por falta de uma mente iluminada pela razão, não conseguem libertar-se de um sentimentalismo exagerado, desordenado, ilógico — um turbilhão de emoções que não edifica, apenas consome. São almas que sangram por dentro por não terem aprendido ainda a pensar com clareza e sentir com equilíbrio.

No entanto, há também aqueles que escolhem outra via. Seres que se recusam a alimentar sombras e que moldam, com suavidade firme, um olhar mais alto, sereno, luminoso. Um olhar que reconhece a beleza escondida nas imperfeições, que encontra sentido onde outros veem caos. É nesse labor silencioso — um refinamento do pensamento e do coração — que nasce a única paz possível: não uma paz concedida pelos céus, mas uma paz conquistada pelo espírito desperto.

A plenitude do mundo exterior não se impõe de fora; ela germina dentro de nós, no vasto e solene palácio da consciência. Ajusta-se à nossa capacidade de interpretar a vida, suportá-la com nobreza, recriá-la com esperança e, sobretudo, desfrutá-la com gratidão apaixonada. Porque a existência, quando tocada por um olhar amoroso e realista, retribui em beleza tudo aquilo que lhe entregamos em coragem — e a alma, enfim, se expande como quem descobre que sempre teve, dentro de si, o sol que buscava com os olhos voltados ao firmamento.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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