Sexta-feira, 29 de maio de 2026 - 07h50

Há momentos em que a política produz
cenas tão curiosas que a realidade parece pedir ajuda ao humor para ser
compreendida. A recente notícia envolvendo o
interesse americano em classificar o CV e o PCC como organizações terroristas
produziu um espetáculo digno de
observação.
Flávio Bolsonaro correu para reivindicar os louros. O governo Lula correu para
monitorar. E Washington continuou fazendo o que Washington faz há décadas: tomando decisões com base em seus próprios interesses.
Talvez
estejamos diante do nascimento de uma nova escola diplomática brasileira. A antiga política externa falava em
protagonismo; a nova parece apostar no monitoramento.
Monitora-se
tudo. Monitora-se Trump. Monitora-se o Congresso americano. Monitoram-se as
intenções de Washington. Monitoram-se até
os monitoramentos.
O
próximo passo talvez seja criar
um Ministério da Observação
Preventiva dos Fatos Consumados. Porque, afinal, Lula
monitora; Trump decide.
Não
creio que Flávio Bolsonaro tenha sido o arquiteto da iniciativa americana. Seria um
exagero tão grande quanto afirmar que um surfista criou o oceano. Mas seria
igualmente injusto negar que soube aproveitar a onda. Flávio surfou a onda; Lula monitorou a maré.
A
diferença parece pequena, mas na política, às vezes, ela separa quem aparece na fotografia de quem aparece no relatório de acompanhamento da
fotografia.
O
mais divertido, entretanto, é assistir
ao drama patriótico
repentino de quem descobre que grandes potências
raramente pedem autorização para defender aquilo que consideram seus interesses
estratégicos. É uma descoberta
surpreendente. Os Estados Unidos fazem isso desde antes da invenção da televisão.
Antes da internet. Antes mesmo de muitos dos atuais comentaristas políticos terem nascido.
Ainda
assim, Brasília reagiu com solenidade. Anunciou que está monitorando possíveis interferências
externas. A frase é maravilhosa.
Tem a mesma eficácia prática de um passageiro anunciar que está monitorando atentamente a aproximação de um trem de carga.
A
questão nunca foi observar. A questão sempre foi o que fazer
depois. E é justamente aí que a sátira encontra a realidade. Porque a geopolítica
possui um defeito terrível: ela não lê notas de repúdio, não assiste a coletivas indignadas, não se impressiona com discursos
inflamados e não se intima com metáforas heroicas.
Ela
responde apenas a uma linguagem muito antiga: poder. Poder econômico. Poder militar. Poder tecnológico. Poder diplomático. Todo o resto
costuma ser material para discursos.
Por
isso, confesso que pagaria ingresso para assistir a uma nova reunião entre Lula
e Trump. De um lado, o homem que se apresenta como portador do sangue e da alma
de cangaceiro. Do outro, o homem que construiu sua carreira política convencendo o eleitor americano de que os Estados Unidos devem agir
como o xerife do mundo.
Entre
o Cangaço e a Casa Branca, existe um detalhe inconveniente: o cangaço pode inspirar discursos, mas a Casa Branca controla porta-aviões. E a história
ensina que, quando a retórica encontra o poder, normalmente é a retórica que precisa se
adaptar.
Talvez
seja por isso que o episódio mereça ser lembrado como o dia em que o cangaceiro encontrou o xerife. Não houve
duelo. Não houve confronto. Não houve resistência épica.
Houve monitoramento. Muito monitoramento.
Porque,
na moderna República dos Monitores, acompanha-se tudo com enorme atenção. Apenas não se influencia
quase nada. No final, sobra uma verdade desagradável,
porém persistente: enquanto alguns
observam o tabuleiro, outros movem as peças.
E o observador, por mais atento que seja, continua sendo apenas espectador do
jogo.
O ápice dessa paralisia é ver o próprio "Lulismo" ser parodiado e
rebatizado pela força dos fatos. Ao estender o manto da retórica e dar um
sentido de defesa explícita tanto à mística do cangaço quanto às facções
criminosas, Lula acabou inspirando a criação dessas duas novas patologias políticas:
o "Cango-tráfico" e o "Cango-rismo". O problema é que, no
xadrez de Washington, o romantismo ideológico perdeu o prazo de validade. As
facções agora foram classificadas oficialmente como narcoterroristas, e o
voluntarismo de Brasília virou piada de mau gosto.
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