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Samuel Saraiva

Surge a República da Paca


Surge a República da Paca - Gente de Opinião

Na omissão do IBAMA, a verdade sobre o consumo de carne silvestre evapora e a República da Paca prospera, enquanto cidadãos sensatos seguem à espera de respostas que insistem em não vir.

Surge a República da Paca - Gente de Opinião

Manual do Delírio Econômico: quando o absurdo vira argumento, a paca paga a conta e a solução deságua na ilusão surrealista, num ciclo geracional de mesmice alimentada pela fé no improvável.

Um amigo ultracrepidário daqueles que tratam a ignorância como se fosse especialização apresentou, com notável convicção, a verdadeira causa do endividamento de 84% das famílias brasileiras: o consumo desenfreado de carne de paca de cativeiro.

Sim, finalmente alguém teve coragem de ignorar todos os fatores irrelevantes — inflação, juros, carga tributária, perda de renda e apontar o verdadeiro culpado: o prato do brasileiro, que, ao que parece, tornou-se sofisticadamente subterrâneo.

Durante anos, economistas, analistas e instituições perderam tempo tentando explicar o óbvio. Bastava observar: não é a escassez que endivida — é o excesso… de paca.

E não qualquer excesso. Trata-se de um fenômeno quase aristocrático, no qual o Brasil, segundo essa brilhante leitura, lidera o mundo ainda que apenas no mesmo território onde essa tese foi concebida: o da desconexão absoluta com a realidade.

Enquanto isso, a prometida picanha foi, sim, entregue. Com rigor estético e compromisso simbólico. Não chegou à mesa como alimento mas como estampa em toalhas de plástico e de tecido, permitindo que o povo, ao menos, exercite a contemplação daquilo que nunca provou.

algo de admirável nessa capacidade de reconstruir a realidade até que ela se torne confortável ou, no mínimo, risível.

E, nesse cenário, chama atenção o silêncio institucional diante de temas que, quando envolvem o cidadão comum, costumam ser tratados com rigor exemplar.

A ausência de esclarecimentos por parte de órgãos como o IBAMA sobre a origem de determinados consumos de animais notadamente silvestres não passa despercebida sobretudo em um país onde a fiscalização, quando direcionada à população, é frequentemente ágil, precisa, implacável e por vezes, covarde.

Curiosamente, essa mesma eficiência parece perder tração quando o objeto da apuração envolve figuras de maior relevância política ou institucional.

Não se trata de incapacidade isso seria até mais confortável de admitir.
Mas de uma assimetria que levanta questionamentos inevitáveis sobre critérios, prioridades e, por vezes, sobre a própria independência de estruturas que deveriam operar sob o princípio da impessoalidade.

Ainda assim, é importante reconhecer: tais instituições são compostas, em grande parte, por profissionais técnicos e comprometidos com a ética.
O que torna o contraste ainda mais inquietante não pela ausência de capacidade, mas pela percepção de contenção.

E assim, entre silêncios seletivos e rigor direcionado, a confiança pública vai sendo corroída… não por um ato isolado, mas por um padrão que se repete e se naturaliza.

O mais curioso é que tais análises não surgem da falta de informação, mas de algo mais profundo: a recusa ativa em pensar com responsabilidade.

Porque pensar exige confronto.

Exige desconforto.

Exige, sobretudo, abandonar a fantasia conveniente.

Mas isso implicaria renunciar ao papel de comentarista onisciente função à qual certos indivíduos se agarram com mais firmeza do que aos fatos.

E, como se não bastasse, há cidadãos que se prestam ao papel de justificar o injustificável e defender o indefensável, aderindo com impressionante devoção — às mesmas promessas recicladas por estelionatários eleitorais que reaparecem, pontualmente, a cada temporada política.

Sem pudor.

Sem constrangimento.

Sem vergonha.

E, ao que tudo indica, sem memória.

Seguem acreditando, não por falta de evidência

mas por uma escolha deliberada de ignorá-la.

Quanto ao senso do ridículo, não apenas foi abandonado foi substituído por uma confiança inabalável na própria superficialidade.

E assim seguimos:

uma sociedade onde muitos não compreendem o que dizem,

mas verborragiam bobagens com absurda convicção…

que quase convencem a si mesmos.

Na emergente República da Paca, o absurdo não apenas governa — é venerado por ignorantes e a realidade se ajoelhaenquanto a ilusão é coroada.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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