Sábado, 9 de maio de 2026 - 08h04

Não lembro de ter feito
homenagens públicas à minha mãe, perto do meu coração eternamente, longe de
meus olhos há 23 anos. Tudo que pude por ela fazer o fiz em vida, e presença de
mãe, sabem como é, fica cravada na gente, em tudo. Hoje homenageio as mães em
seu nome, contando um pouco sobre ela.
Nunca me cobrou sobre a
decisão tomada bem cedo de não ter filhos e casar. Ao contrário, considerava
que eu estava certa, por ela mesma ter passado maus bocados para criar meu
irmão e eu, além das turbulências do dia a dia com meu pai.
Mineira de Formiga,
Minas Gerais, não gostava de lembrar desse tempo que abandonou cedo, caindo na
vida, por lhe trazer algumas péssimas lembranças, como a do próprio pai, meu
avô, e a ponto de não aceitar seu nome nem na sua carteira de identidade, por
ela descrito como rude, violento com todos e com minha avó, por ela lembrada
como um ser de luz e resistência. Não os conheci.
“Quem tem terra é
tatu”, respondia quando se referiam à sua terra natal. Recordava só a infância
no mato, a galinha Cocota que gostava de tomar café, e que em um dia viu parar
na panela, o que a marcou muito. Creio que até por isso, muitos e muitos anos
depois, se afeiçoou especialmente aos dois galos que criou no nosso
apartamento, Le Cocq e o Chicão. Passeando numa dessas feiras ganhou dois
pintinhos que trouxe para casa - eles foram crescendo até se transformarem em
garbosos galos de afiadas esporas. Brancos, de vez em quando tomavam banho com
sabão de coco. Chiques.
Baixinha, combativa,
nunca baixou a cabeça ou se amedrontou com as muitas ameaças e injustiças que
enfrentou – uma das maiores heranças que me deixou. “Não aceite desaforos”,
dizia. A vi enfrentar dragões de todos os tipos. De engraçado lembro de uma vez
que, em uma fila, o carro em que estávamos ser cortado por engraçadinhos que se
instalaram à frente, furando. Foi o tempo de ela, ágil, tirar do pé seu
tamanquinho de madeira Dr. Scholl (lembram?), pular do carro empunhando nos
tais engraçadinhos até eles saírem dali apavorados. Muitas vezes tomou a frente
de defesa de nossa família ou de seus bichos. Antes dos galos, periquitos
australianos a quem deu nomes de sucesso como Frank e Nancy Sinatra, ou o
Chumbinho, que mantinha livre voando pela casa e que uma vez despencou de cima
do tanque onde subiu para pegá-lo, arteira que só! Teve também o poodle Tommy
(da ópera do The Who).
Era divertida,
avançada, mas com pinceladas conservadoras. Lembro de palavras que desencavava
de repente e de algumas de suas superstições. Do amor incondicional e orgulho
dos filhos. O bom gosto típico de canceriana e o hábito de bater pernas,
descolar ofertas incríveis e se entrosar com todo mundo, atividades que foi
deixando ao adoecer com uma maldita diabetes, que enfrentou com marcante
dignidade, entre internações, e até o doloroso fim.
Alaide. “Florzinha”,
como a chamavam amigos que foram fundamentais e solidários ao meu lado nesses
tempos difíceis e que me forjaram com ainda mais ímpetos de sobrevivência.
Coisas que só uma mãe é capaz de transmitir, e ninguém sabe de onde tiram tanta
força.
_________________________
- MARLI GONÇALVES –
Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo,
autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na
Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. [email protected] /
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Terça-feira, 16 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
Não é de agora. A Copa do Mundo vem se infiltrando há alguns meses. Um verde aqui; um amarelo ali. Umas roupinhas diferentes à venda para não parece

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