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Marli Gonçalves

Não sou mãe. Sou filha


Não sou mãe. Sou filha - Gente de Opinião

Não lembro de ter feito homenagens públicas à minha mãe, perto do meu coração eternamente, longe de meus olhos há 23 anos. Tudo que pude por ela fazer o fiz em vida, e presença de mãe, sabem como é, fica cravada na gente, em tudo. Hoje homenageio as mães em seu nome, contando um pouco sobre ela.

Nunca me cobrou sobre a decisão tomada bem cedo de não ter filhos e casar. Ao contrário, considerava que eu estava certa, por ela mesma ter passado maus bocados para criar meu irmão e eu, além das turbulências do dia a dia com meu pai.

Mineira de Formiga, Minas Gerais, não gostava de lembrar desse tempo que abandonou cedo, caindo na vida, por lhe trazer algumas péssimas lembranças, como a do próprio pai, meu avô, e a ponto de não aceitar seu nome nem na sua carteira de identidade, por ela descrito como rude, violento com todos e com minha avó, por ela lembrada como um ser de luz e resistência. Não os conheci.

“Quem tem terra é tatu”, respondia quando se referiam à sua terra natal. Recordava só a infância no mato, a galinha Cocota que gostava de tomar café, e que em um dia viu parar na panela, o que a marcou muito. Creio que até por isso, muitos e muitos anos depois, se afeiçoou especialmente aos dois galos que criou no nosso apartamento, Le Cocq e o Chicão. Passeando numa dessas feiras ganhou dois pintinhos que trouxe para casa - eles foram crescendo até se transformarem em garbosos galos de afiadas esporas. Brancos, de vez em quando tomavam banho com sabão de coco. Chiques.

Baixinha, combativa, nunca baixou a cabeça ou se amedrontou com as muitas ameaças e injustiças que enfrentou – uma das maiores heranças que me deixou. “Não aceite desaforos”, dizia. A vi enfrentar dragões de todos os tipos. De engraçado lembro de uma vez que, em uma fila, o carro em que estávamos ser cortado por engraçadinhos que se instalaram à frente, furando. Foi o tempo de ela, ágil, tirar do pé seu tamanquinho de madeira Dr. Scholl (lembram?), pular do carro empunhando nos tais engraçadinhos até eles saírem dali apavorados. Muitas vezes tomou a frente de defesa de nossa família ou de seus bichos. Antes dos galos, periquitos australianos a quem deu nomes de sucesso como Frank e Nancy Sinatra, ou o Chumbinho, que mantinha livre voando pela casa e que uma vez despencou de cima do tanque onde subiu para pegá-lo, arteira que só! Teve também o poodle Tommy (da ópera do The Who).

Era divertida, avançada, mas com pinceladas conservadoras. Lembro de palavras que desencavava de repente e de algumas de suas superstições. Do amor incondicional e orgulho dos filhos. O bom gosto típico de canceriana e o hábito de bater pernas, descolar ofertas incríveis e se entrosar com todo mundo, atividades que foi deixando ao adoecer com uma maldita diabetes, que enfrentou com marcante dignidade, entre internações, e até o doloroso fim.

Alaide. “Florzinha”, como a chamavam amigos que foram fundamentais e solidários ao meu lado nesses tempos difíceis e que me forjaram com ainda mais ímpetos de sobrevivência. Coisas que só uma mãe é capaz de transmitir, e ninguém sabe de onde tiram tanta força.

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- MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. [email protected] / [email protected]

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  • Alaide. “Florzinha”
    Alaide. “Florzinha”
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